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Múltiplo Antonio Dias

23/11/2002

 

11-06-2008

Ana Cecilia Martins
Repórter do JB

   Enquanto aproveita o sol do verão carioca, protelando a volta para a escuridão do inverno de Colônia, na Alemanha, o artista plástico Antonio Dias vai remexendo em seu gaveteiro à procura de obras raras. Especificamente exemplares dos múltiplos (trabalhos em série) que produz desde a década de 60. O resultado dessa busca vai poder ser visto na Galeria Mercedes Viegas Arte Contemporânea, na Gávea, na mostra Múltiplos, que expõe, até 21 de dezembro, pela primeira vez no país, um conjunto de obras do gênero.

   - Somente agora, selecionando trabalhos para a exposição, pude notar como os múltiplos são marcantes na minha carreira - observa Antonio Dias, 58 anos, que acaba de finalizar uma reforma em seu apartamento em Copacabana.

   Há mais de 30 anos morando na Europa, com residência em Colônia e Milão, o paraibano, um dos mais conceituados artistas brasileiros, se reencontra com vertentes de sua obra que se mantinham esquecidas. A série de fotografias feitas pela artista Iole de Freitas colocadas em caixas tampadas com vidros enegrecidos com fuligem, batizada Kiss 'n' Hiss (1972), é um de seus projetos antigos que ganham vida com a mostra carioca. O trabalho Record: the space between, de 1971, que tem o LP como suporte, é outra peça nunca mostrada no Brasil.

   - Grande parte dos múltiplos são inéditos no país. Isso porque quase todas as obras foram comercializadas no exterior e estão esgotadas - afirma o artista, ressaltando o caráter mais acessível desse tipo de trabalho.

   Na mostra, suportes, materiais e conceitos são diversos. É possível encontrar desde gravuras e serigrafias, porta de entrada de Antonio Dias para o universo das artes plásticas, passando por objeto de ferro fundido (Carrinho-crítico, 1973/2002) e alumínio escovado e serigrafado (Do it yourself: freedom territory, 1968/1971).

   - Por isso, acredito que esta exposição oferece uma visão ampla da minha produção e seus vários caminhos - diz.

   Há ainda na mostra obras recentes, produzidas há cerca de três meses durante a passagem do artista pelo Nordeste brasileiro. CoHab é o nome dado a uma série de casinhas feitas em barro cozido por um ceramista popular de Olinda.

   - Foi nesta viagem que pensei em montar no país uma exposição dedicada aos múltiplos. Comecei então a procurar obras e fazer restaurações - conta.

(© JB Online)

Fugindo do cinza invernal
  

   Enquanto espera o seu embarque de volta à Europa, em janeiro, Antonio Dias aproveita o tempo para idas à praia. - Estou produzindo para uma exposição em São Paulo, marcada para o ano que vem - conta o artista, que expõe em uma série de mostras em território europeu em 2004. - Já moro há muito tempo lá, não posso dizer que não me acostumei com o clima. Acontece que ultimamente o inverno tem me deixado deprimido. A estação tem sido muito cinza - diz o paraibano, lembrando que, no entanto, o inverno é alta estação para a arte na Europa.

   Um catálogo com design assinado por Rara Dias, sua filha, e com textos do crítico Luiz Camillo Osório, será lançado junto com a exposição. Dois livros-objetos e um álbum também integram a mostra. Como todos os outros múltiplos, cada um desses trabalhos tem forma própria. Flesh room with anima(1977/1996) apresenta uma página dupla com linogravura em ouro e cobre e outra com colagem de fios de algodão. Ad (1981) tem folhas em tecido sintético pintadas de formas variadas. Já o álbum The illustration of art (1973) traz 16 folhas em serigrafia sobre cartão pardo. Formas plurais de um artista múltiplo.

(© JB Online)

A ponte Recife-Nova York

   As primeiras menções aos judeus em Pernambuco remontam ao século 16: o donatário Duarte Coelho teria trazido fugitivos da Inquisição - muitos já cristãos-novos, ou seja, convertidos à força ao catolicismo -, que, refugiados nas ilhas da Madeira e Canárias, seriam experts em canaviais nessas regiões e teriam plantado as primeiras mudas na nova capitania. Apesar de não haver registros documentais do fato, vários historiadores aceitam essa hipótese.

   Com a invasão holandesa, em 1630, judeus de Amsterdã vieram se juntar à incipiente colônia pernambucana, tomando conta dos engenhos e participando ativamente da vida cultural do enclave de Nassau no Nordeste. Durante 24 anos, puderam professar seu credo e, assim, ergueram a pioneira Kahal Zur Israel. Quando Portugal recuperou Pernambuco, os judeus começaram a ser perseguidos e saíram pelo mundo - e praticamente expurgou-se tudo o que se dizia respeito a eles na região.

   Na época, a comunidade judaica tinha cerca de 1,5 mil pessoas - o mesmo número da que existe em Recife hoje. Nessa diáspora, 23 desses judeus pernambucanos tomaram um navio rumo à inóspita Nova Amsterdã, na América do Norte, e fundaram a primeira comunidade judaica da cidade que viria a ser Nova York. Quando o historiador José Antônio Gonsalves de Mello, falecido no ano passado, publicou em 1989 a mais completa obra sobre os judeus e cristãos-novos em Pernambuco, Gente da nação, e deu nova luz às pesquisas sobre o tema, Katia Mesel descobriu que as fantasiosas narrativas de sua infância não eram contos-de-fada.

   - A sinagoga que construíram em Nova York era igual à do Recife e muitos falavam português. Nova York copiou Recife! Afinal, era apenas uma cidadezinha de 200 casas. Nova York hoje é para Pernambuco o que Pernambuco era para Nova York no século 17. Essa história inesperada e inédita merece um filme - afirma ela.

   O rochedo e a estrela vai contar essa aventura sob a forma de ficção, cobrindo um período de 1584 a 1654. A trama começa quando, na época atual, um jovem rabino de Nova York descobre suas origens brasileiras na internet e vai para o Recife. Num corte no tempo, o filme passa a ser conduzido pelo personagem Jaime Dias Santiago, cristão-novo que, aos 10 anos de idade, chega de Lisboa ao Recife para encontrar seu pai, fugindo da Inquisição. Aos 20 anos, para se curar de uma paixão por uma escrava, Jaime vai para Amsterdã e se reconverte ao judaísmo. Retorna ao Brasil e, aos 65 anos, vira conselheiro de Nassau.

   Quando a experiência holandesa em Pernambuco acaba, Jaime vai morar no mato com os índios. Sua filha e o genro, porém, vão no navio que vai fundar a Shearit Israel - Remanescentes de Israel - em Nova York.

   - Há pouca documentação histórica sobre o assunto, mas 90% dos personagens do filme se baseiam em pessoas reais, cujos depoimentos podem ser achados nos arquivos da Inquisição. E a arte do cinema me favorece para unir os fios dessa história - afirma ela, que, imbuída do espírito de sonhar alto de seus antepassados, já sondou cabeças coroadas do cinema nacional, como Marcos Palmeira, José Wilker, José de Abreu e Lucélia Santos, e até a atriz portuguesa Maria de Medeiros, para abraçar a causa de O rochedo e a estrela.

(© JB Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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