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23/11/2002
Leonardo Fróes
José Lins do Rego não é tão somente um grande,
mas simples, contador de casos folclóricos. Não é um autor instintivo. Terá tido boas
razões e seus métodos para chegar ao estilo de interligação de flagrantes, ou de
justaposição e mostra de quadros, no qual construiria romances de notável força
expressiva. Ao defender essa tese, e aproveitando para frisar o refinamento
psicológico do autor paraibano, Luciano Trigo dirá que o método de perseguição
do tempo perdido utilizado pelo menino de engenho é proustiano.
Ensaio é considerado por Ivo exemplar e magistral
Ao lado disso, distingue-se em Engenho e Memória, ensaio que
Lêdo Ivo apresenta como exemplar e magistral, a decisão de ver em Lins do
Rego a persona de um autor supremamente moderno por refletir dentro da obra sobre sua
própria existência. Segundo Trigo, ele é escritor que se pensa e se critica
enquanto escreve, rompendo com a estética da ilusão da literatura feita de fora para
dentro...
Para negar a imagem de contador instintivo, o ensaísta foi levado a refutar
juízos antigos, que cita e nos quais se nota, aqui e ali, um laivo de preconceito contra
o regionalismo em geral. Para expor a delicada engrenagem que no fundo move a
obra de caráter desordenado e assistemático só na aparência, seu caminho
é o entreaberto por Luciana Stegagno Picchio, que já havia tomado Lins do Rego, como ele
lembra, por um Proust rústico.
A aproximação entre os cenários na França de Proust, a decadência
da alta burguesia; no Nordeste açucareiro, a agonia da casta dos senhores de engenho
é um dado importante, mas não é tudo. Lembrando que um escritor, para
permanecer vivo, precisa ser reinventado a cada geração, Trigo orientou seu ensaio
por esta nova postura: tentar rasgar o véu documental e atenuar o impacto sociológico
para mostrar como se tornam partes da matéria romanesca de Lins do Rego o investimento
pessoal, a interiorização, a sondagem psicológica, a
reflexão sobre a condição humana como em toda sua ficção o
tempo interior é tão importante quanto o tempo histórico.
O universo em análise é o dos romances do açúcar: Menino de
engenho (1932), Doidinho (1933), Bangüê (1934), O
moleque Ricardo (1935) e Usina (1936), somados à obra-prima do autor,
Fogo morto (1943), e a seu livro de memórias, Meus verdes anos
(1956). Na autobiografia disfarçada que Lins do Rego escreveu nos primeiros
desses romances, isola-se uma voz narrativa que se sobrepõe à do autor. Pelo
enfoque que assim se cristaliza em Engenho e memória, seria essa a voz do
texto, resultante de um diálogo sutil e permanente entre o autor, o narrador e o
protagonista que no entanto são a mesma pessoa. Seu problema, que se aloja
em interstícios do mural de costumes, da paisagem com falidos engenhos ou do desenhar de
atitudes, tematizou-se como norma na literatura moderna, consubstanciando-se, segundo
Trigo, no desajuste entre a vida subjetiva do indivíduo e a tirania da
máscara que o olhar das convenções impõe.
Para dar sustentação a esse tema, três retrospectos de claro alcance
didático são feitos no decorrer do ensaio. O primeiro é o do ambiente rural onde o
mundo do patriarcado desaba. São ruínas de casa grande e senzala nos canaviais
nordestinos. É o apodrecer das famílias, ante o avanço das usinas e a economia de um
novo tempo. Os cenários dos romances do açúcar, opressivos para o protagonista em sua
angústia de fuga, são detalhados nesse ponto como construções sociais, por meio de
citações oportunas, em especial de Câmara Cascudo e Gilberto Freyre.
História de um menino de engenho foi idéia de Freyre
O segundo retrospecto, o da amizade profunda, simbiótica e até seminal,
entre Gilberto Freyre e Lins do Rego, menciona que a idéia de escrever as memórias de um
menino de engenho, realizada pelo romancista, tinha ocorrido de início ao sociólogo.
Cartas e depoimentos transcritos confirmam a influência extrema do mestre. Num deles,
Lins do Rego diz que, ao conhecê-lo em Recife, em 1923, recém-chegado da Europa, passara
a sentir-se dissolvido, sem personalidade, tudo pensando por ele, tudo resolvendo,
tudo construindo como ele fazia. Daí à síntese de Trigo: É graças a
Gilberto Freyre e seus seguidores que o Nordeste volta a ser, nos anos 30, um pólo da
dialética cultural brasileira.
Por fim o ensaio vistoria, indo à história literária, a formação do
movimento regionalista em Recife, ressaltando sua valorização do romance como
instrumento de interpretação social, num certo sentido de forma mais séria e
comprometida do que a sugerida pelo nativismo estetizante e irônico do modernismo
paulista.
Livros sobre grandes autores justificam-se principalmente quando nos levam
às fontes. Exemplar e magistral, o que Luciano Trigo escreveu sobre José
Lins do Rego, premiado pela Academia Brasileira de Letras, já também se recomenda pela
comprovada eficácia. O resenhista, enquanto o lia, estimulado pelo que nele se encontra,
pôs-se a reler, com renovado interesse, Fogo Morto.
LEONARDO FRÓES é poeta
Engenho e memória, de Luciano Trigo. Editora Topbooks, 270
páginas. R$ 34.
(© O Globo On Line)
Com relação a este tema, saiba mais
(arquivo NordesteWeb)
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