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23/11/2002
Ana Miranda inventou uma
novela de amor inspirada na vida e obra do poeta Gonçalves Dias. A eficiente pesquisa
histórica e a maturidade estilística da escritora deram suporte a Dias & Dias
Eleuda
de Carvalho
da Redação
Quando a prosadora Ana Miranda
veio à luz - embora tivesse lançado dois livros de poesia nos anos 70 - escolheu isto
que se chama romance histórico, grata invenção do século 19: a sensação literária
de 1989 foi Boca do Inferno, a vida fictícia do poeta baiano Gregório de
Matos Guerra. Dois anos depois, outro personagem histórico real (real mesmo, pois se
tratava de D. Pedro II - O retrato do rei) serviu de modelo à invenção
desta artista nascida em Fortaleza, na Praia de Iracema. Em 1995, Ana Miranda escreve
A Última Quimera, no qual reconstruiu a vida trágica do poeta paraibano Augusto
dos Anjos. Agora, outro poeta baixou em seu teclado, o maranhense Gonçalves Dias.
Media pouco mais que metro e meio, moço magrelo e enfermiço, parecendo
sustentar-se de pé pela força dos bigodes longos e negros. Se o vate baiano e xará
Castro Alves, seu contemporâneo, era o poeta condoreiro, o porta-voz da Abolição,
Antônio Gonçalves Dias foi o cantor dos piagas e dos pajés, reverberando seu boré de
rimas em um país que negava (e ainda desdenha) dois terços do seu sangue mestiço. Além
de elaborar os mais belos temas indigenistas, Gonçalves Dias criou, ainda no verdor dos
vinte anos, o poema brasileiro mais glosado em todos os tempos, a ''Canção do Exílio''.
O livro faz um trocadilho feliz, coisa rara e para poucos e
bons, com o sobrenome do poeta e a saga da narradora. Dias & Dias parece
dizer logo da sina de Feliciana, a menina que se apaixonou pelo caixeirinho da rua do
Cisco e passou seus dias e dias a inventar e alimentar o bem-querer. A capa do livro é de
um azul profundo, como o mar em que Antônio se perdeu, com manuscritos de uma carta e
sobre eles o desenho delicado de uma mulher com uma caravela na cabeça. Tanto a
ilustração quanto os manuscritos (atribuídos ao poeta) são da própria Ana Miranda. As
''orelhas'' foram escritas pelo bibliófilo José Mindlin e a foto da escritora é de
autoria do senador do PT Eduardo Suplicy.
A história começa com Feliciana no cais de São Luís, era o dia 3 de
novembro de 1864, ela esperava a nau que trazia seu amor. Parecia até que Feliciana só
fizera isso a vida toda, desde quando tinha 13 anos e, ao comprar feijão verde na venda
do português João Manuel Gonçalves Dias, quem atendeu foi seu filho bastardo, Antônio.
Distraído, o garoto enrolou a compra da menina em um papel pardo aonde rabiscara um poema
a alguém de olhos verdes. Pronto, é pra mim, sonhou Feliciana, olhos verdes são os
meus, embora sua íris tivesse a cor das folhas mortas. Enquanto Feliciana espera no cais,
lembra os últimos 29 anos, a partir daquele dia da compra e do poema no papel de
embrulho, no qual foi fisgada pelo amor. Feliciana era um sabiá na gaiola. Mas ousou
voar.
''Sou alguém que ama em segredo'', repete a moça, a par dos caminhos do
amado através das cartas trocadas entre o poeta e seu amigo Alexandre Teófilo, cuja
mulher, a bela Maria Luíza, era sua conselheira e confidente, além de Natalícia -
dublê de professora, mucama e tia. Com Natalícia, Feliciana fez a aventura mais louca
por causa de Antônio, viajando de barco até o porto de Fortaleza, aonde diziam estar o
poeta, de passagem. Ela jamais o encontraria. Vamos reencontrá-la, enfim, à beira do
cais de São Luís, esperando. ''Não permita Deus que eu morra/ sem que volte para lá'',
cantou o poeta das palmeiras e sabiás. Na ficção (e na vida real) Deus não consentiu.
SERVIÇO
Dias & Dias - Romance de Ana Miranda,
inspirado na vida e obra do poeta romântico Antônio Gonçalves Dias (Companhia das
Letras). 243 pág., R$ 29,50.
| O mais brasileiro dos
poetas |
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Antônio Gonçalves Dias cantou
o amor e os índios, seus temas frequentes, mas também experimentou a balada de cunho
medieval lusitano, a dramaturgia, o ensaio sobre educação. Nasceu em 1823 no sítio Boa
Vista, a 14 léguas (cerca de 84 Km) de Caxias, Maranhão, filho do comerciante português
João Manuel Gonçalves Dias e da cafuza Vicência Ferreira. Com seis anos, o pai deixa
Vicência e se casa com Adelaide Ramos de Almeida, levando o menino.
Aos 10, Antônio trabalhava como caixeiro na casa comercial do pai, na rua do
Cisco, em Caxias. Em 1838, viaja para estudar Direito em Coimbra. João Manuel morre, mas
a madrasta sustenta seus estudos. Até que estoura a Balaiada, e Adelaide escreve
ao enteado dizendo que o dinheiro acabou. Mas Antônio manteve-se em Coimbra graças à
ajuda de amigos, entre os quais o conterrâneo Alexandre Lourenço. Em Portugal,
Gonçalves Dias ingressa nos grupos medievalistas dos jornais A Gazeta Literária e O
Trovador. Formou-se em 1844.
No ano seguinte volta a Caxias e conhece o grande amor de sua vida, Ana
Amélia Ferreira do Vale. Para ela, escreveu ''Mimosa e bela'' e ''Leviana''. Na mesma
época, escreve o primeiro grito abolicionista da poesia brasileira, ''Meditação''. Em
1846, viaja para o Rio de Janeiro, onde publica o livro Primeiros Cantos. Em 1848, escreve
Segundos Cantos. Com o pintor Araújo Porto Alegre e o autor de A Moreninha, Joaquim
Manuel de Macedo, funda a revista Guanabara. Em 1851, sai Últimos Cantos, volta a Caxias
e pede a mão de Ana Amélia. A família nega o pedido, e ela propõe uma fuga. Ele não
aceita e se casa sem amor com Olímpia Carolina da Costa. Ana Amélia casa-se com o
comerciante Domingos da Silva Porto e vai para Portugal.
Em 1854, Antônio viaja a Europa com a mulher e a filha, Joana. Reencontra
Ana Amélia, que lhe inspira mais um poema:''Ainda uma vez, adeus'' (''Adeus, qu'eu parto,
senhora/ negou-me o fado inimigo/ passar a vida contigo/ ter sepultura entre os meus/
negou-me nesta hora extrema/ por extrema despedida/ ouvir-te a voz comovida/ soluçar um
breve adeus''). Ana Amélia casou-se duas vezes, teve muitos filhos e morreu velha, em
1905.
Gonçalves Dias é reconhecido no Brasil e no exterior, como poeta e
intelectual, e será agraciado por D. Pedro II Cavaleiro da Ordem da Rosa. Em 1856 morre
sua filha Joana, de pneumonia. Em 1857, o poeta entrega ao livreiro-editor Brockhaus, em
Leipzig, os quatro primeiros cantos do épico indigenista Os Timbiras. Pela mesma editora
publica o Dicionário da Língua Tupi. Em 1859 participa de expedição científica pelo
Norte/Nordeste, a mesma que importou camelos para o Ceará. A saúde precária piora.
Tuberculoso, sifilítico, com inflamação crônica do fígado, lesão
cardíaca, cordas vocais comprometidas (extirpou a úvula em Bruxelas), Antônio regressa
da Europa, em 1862, no veleiro Grand Condé. Corre a notícia de sua morte. Era um rebate
falso, mas premonitório. Dois anos mais tarde, o poeta sofre um ataque de angina e crise
de gastrite. Embarca no porto de Havre, no navio Ville de Boulogne, voltando do
''exílio''. Passa oito dias tomando apenas água com açúcar. Em 2 de novembro, a
tripulação singra águas brasileiras. Na madrugada do dia 3, o navio bate no baixio de
Atins, na costa maranhense, partindo-se ao meio. A tripulação escapa. Gonçalves Dias
some no mar, seu corpo nunca seria encontrado. No naufrágio, perdem-se os cantos finais
de Os Timbiras. Dele disse Mário de Andrade, um dos ''papas'' do modernismo: ''Foi poeta
acima de todos''. Outro modernista, Cassiano Ricardo, declarou: ''Sabe-se que é
sublime''. Manuel Bandeira escreveu-lhe a biografia.
BALAIADA
Levante popular, ocorrido no
Maranhão, Ceará e Piauí (1838-1841). O movimento revolucionário foi encabeçado pelo
artesão Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, fabricante de cestos ou balaios. Outros
participantes: Ruivo, Mulungueta, Pedregulho, Milhomens, Gavião, Macambira, Coco,
Tempestade e Dom Cosme, este o preto Cosme Bento das Chagas, que sofreu a morte mais
horrível dentre seus companheiros: pendurado de cabeça para baixo, teve olhos, nariz,
língua e orelhas decepados, antes de ser fuzilado. O movimento foi desmantelado pelo
futuro Duque de Caxias, que recebeu do Imperador a patente de general e o título de
Pacificador...
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