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25/11/2002
Nova York - A ensaísta Susan Sontag, o compositor David Byrne, o cineasta Pedro Almodóvar, a atriz Sonia Braga, a cantora Bebel Gilberto, a dramaturga e diretora Julie Taymor, da Broadway. Na estrelada platéia do show de Caetano Veloso no Beacon Theater, na sexta-feira, em Nova York, faltou pouca gente. Com casa lotada, muita gente de pé, o cantor falou pouco e cantou a base do seu disco mais recente, Noites do Norte, mesclando com um punhado de sucessos conhecidos dos brasileiros, de Cajuína a Leãozinho. Caetano causou certo frisson na semana passada ao declarar ao The New York Times que pretendia gravar um disco de standards, com canções em inglês. Leonard Cohen, Prince, Cole Porter, Harry Belafonte e até Kurt Cobain (o cantor suicida do grupo de rock Nirvana) estão de fato entre os compositores que ele pretende gravar, reafirmou o músico, falando a jornalistas brasileiros depois do show em Nova York. Seu foco de interesse consiste basicamente em buscar compositores populares americanos. Na turnê pelos EUA, Caetano cantou um standard em cada cidade por onde passou, criando um mini-repertório de cinco canções. Sobre Kurt Cobain, tenham calma: Caetano não virou um grunge temporão. Ele disse que considera o álbum MTV Unplugged, da banda Nirvana, um tanto chato, mas que ouviu recentemente o disco Nevermind e achou uma obra-prima. Mas ele contou que só pretende começar a trabalhar neste possível álbum de covers no ano que vem, após encerrar o ciclo de shows de Noites do Norte. A aproximação do cantor com o circuito cultural nova-iorquino evolui para outras áreas artísticas. Ele está em cartaz na cidade também na trilha do filme Frida, de Julie Taymor, cantando com Lila Downs a canção Burn it Blue. Ele também tem convites para escrever para um musical. Por enquanto, seu show vai levantando platéias nos Estados Unidos. No dia seguinte, sábado, foi a vez de se apresentar no New Jersey Performing Arts Center. Caetano continua hábil em lidar com as expectativas da platéia, e agrada quando manipula o repertório, aproveitando-o de forma dialética. Faz isso quando introduz canções como Manhatã/Manhattan, ponte idiomática marota entre o inglês e o tupi, ou quando canta Língua. E mesmo quando se faz mais explicito, como em Rock´n´Raul. "Quando eu passei por aqui/ A minha vontade foi exibir/ Uma vontade fela-da-puta de ser americano/ (E hoje olha os mano...)." Acompanhado pela banda de carreira, com três percussionistas, o violoncelista Jaques Morelembaum, o guitarrista Davi Moraes, o baixista Pedro Sá e baterista Cezinha Caetano causou frisson na platéia nova-iorquina, como de hábito. Que cantou com ele Último Romântico, de Lulu Santos, e Desde que o Samba É Samba. E o show não é sucesso só para os expatriados de costume. No Beacon Theatre, uma espectadora pediu que falasse inglês quando se dirigisse à platéia, porque metade dela não entendia português. O discurso neo-abolicionista do disco de Caetano, no entanto, parece perder sentido no meio do gestual Carmem Miranda que o cantor adotou em cena e do ambiente festivo. Tanto que, quando ele acabou de cantar/recitar o excerto de um texto de Joaquim Nabuco, Noites do Norte, alguém da platéia gritou: Lindo. "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do País, e foi a que ele guardou." Não é nada lindo, assim como a letra de Haiti, de 111 mortos pretos, não tem o intuito de embalar jantar à luz de velas. Jotabê Medeiros (© estadao.com.br)
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