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30/11/2002
Favorito da crítica e do
público, primeiro longa de Cláudio Assis ganhou cinco Candangos e outros prêmios
paralelos, como o Troféu Saruê, do Correio
Da Redação
Foi um
estreante o vencedor do 35º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Inédito no
circuito comercial, Amarelo Manga é o primeiro longa-metragem do diretor pernambucano
Cláudio Assis, que deixou a Sala Villa-Lobos ontem à noite com cinco Candangos: melhor
filme, júri popular, fotografia, ator (Chico Diaz) e montagem.
Exibido no último sábado, o longa-metragem conquistou aplausos do público
em cena aberta durante a projeção ao exibir algumas das seqüências mais ousadas do
evento. O filme, além das cinco estatuetas, rendeu outras premiações paralelas. O longa
que conta histórias de encontros e desencontros entre personagens ficou ainda com o
Prêmio da Crítica e o Troféu Saruê (do Correio Braziliense). No total, além da
coleção de estatuetas, a equipe de Amarelo Manga deixa Brasília com R$ 85 mil, sendo R$
50 mil como prêmio de melhor filme.
O longa de Cláudio Assis que já esteve no Festival de Brasília com o
curta Texas Hotel foi o mais celebrado da noite. O prêmio para a fotografia de
Walter Carvalho, funcional e eficiente, era previsível. Walter é nome praticamente
consagrado no evento. No ano passado, o fotógrafo foi responsável por dar a Lavoura
Arcaica a mesma premiação.
Chico Diaz, que além do açougueiro canibal de Amarelo Manga esteve também
em Lua Cambará Nas Escadarias do Palácio, levou a estatueta de melhor ator. Lua
Cambará, aliás, foi ignorado pelo júri e não ficou com nenhum prêmio.
Adaptação reconhecida
Dois Perdidos Numa Noite Suja chegou em
segundo lugar na 35ª edição do Festival de Brasília. Foram três prêmios, entre eles
o de melhor direção para José Joffily e melhor atriz para Débora Falabella, que no ano
passado já havia recebido o mesmo prêmio na categoria curta em 35 mm por Françoise. A
adaptação para o cinema de Dois Perdidos numa Noite Suja, cujo texto original é
assinado pelo dramaturgo Plínio Marcos, ficou a cargo de Paulo Halm, que levou ontem a
estatueta de melhor roteiro.
Cama de Gato, o longa de Alexandre Stockler que causou polêmica por conta das
sucessivas e banais cenas de violência, quase ficou de fora da lista de premiação.
Levou apenas o Candango de melhor ator coadjuvante para Rodrigo Bolzan. Já Desmundo, de
Alain Fresnot, levou apenas dois prêmios: melhor trilha sonora para John Neschling e
melhor atriz coadjuvante para a veterana Berta Zemel.
Curta-metragem
Na categoria curta em 35 mm, o vencedor
foi o paulistano No Bar, de Cleiton Stringhini e Paulo de Tarso Mendonça. Brasília
apareceu na lista de premiados com O Perfumado. O curta de Mauro Giuntini levou o Candango
de melhor fotografia, assinada por André Luiz da Cunha.
Entre as premiações paralelas o destaque foi para a da Câmara Legislativa,
a mais polpuda de todas com prêmios de R$ 50 mil para longa-metragem, R$ 10 mil para
curta em 35 mm e R$ 5 mil para filme em 16mm. Os brasilienses Celeste e Estrela, longa de
Betse de Paula que abriu a mostra, O Lobisomem e o Coronel, curta de Ítalo Cajueiro e
Elvis Kleber, e o filme em 16 mm Pra Onde, de Aurélio Aragão, foram os vencedores.
Os credores ficarão felizes com esse resultado, comemorou
Aurélio Vianna, produtor de Celeste e Estrela .Espero que na próxima vez
pelo menos a gente receba um crachá, reparou Ítalo Cajueiro, referindo-se à
falta de organização da Mostra Brasília.
Durante a entrega do prêmio Saruê, concedido pelo Correio Braziliense para o
elenco de Amarelo Manga, as atrizes Conceição Camarotti e Dira Paes se abraçaram
emocionadas e avisaram à platéia que lotava a Sala Villa-Lobos: Foi muito
amor, muito amor. O filme, segundo o júri do Saruê, marcou a
35ª edição do Festival de Brasília não só pelo vigor da direção, mas pela
impressionante entrega dos atores.
No calor da hora, o júri criou ainda dois prêmios especiais: um de
revelação para o diretor gaúcho Renato Falcão, de A Festa de Margarette, e outro
destaque de atriz, concedido à atriz Dira Paes, considerada a musa dos filmes de baixo
orçamento.
OS GANHADORES DO
CANDANGO
Longas
Longa-metragem: Amarelo Manga R$ 50 mil
Diretor: José Joffily (Dois Perdidos numa Noite Suja) R$ 10 mil
Ator: Chico Diaz (Amarelo Manga) R$ 5 mil
Atriz: Débora Falabella (Dois Perdidos numa Noite Suja) R$ 5 mil
Ator coadjuvante: Rodrigo Bolzan (Cama de Gato) R$ 3 mil
Atriz coadjuvante: Berta Zemel (Desmundo) R$ 3 mil
Roteiro: Paulo Halm (Dois Perdidos numa Noite Suja) R$ 5 mil
Fotografia: Walter Carvalho (Amarelo Manga) R$ 5 mil
Direção de arte: Rodrigo Lopez (A Festa de Margarette) R$ 5 mil
Trilha sonora: John Neschling (Desmundo) R$ 5 mil
Montagem: Paulo Sacramento (Amarelo Manga) R$ 5 mil
Prêmio da crítica: Amarelo Manga
Prêmio do júri popular: Amarelo Manga
Troféu Saruê: elenco de Amarelo Manga
Prêmio especial do júri: diretor revelação, Renato Falcão
(A Festa de Margarette)
Prêmio especial de destaque de atriz: Dira Paes
CURTAS
Curta-metragem: No Bar R$15 mil
Diretor: Cleiton Stringhini e Paulo de Tarso Mendonça
(No Bar) R$ 5 mil
Ator: Pedro Paulo Rangel
(Cego e o Amigo Gedeão à Beira da Estrada) R$ 3 mil
Atriz: Patsy Cecato (Isaura) R$ 3 mil
Roteiro: Alex Sernambi (Isaura) R$ 2 mil
Fotografia: André Luiz da Cunha (O Perfumado) R$ 2 mil
Montagem: Philippi Barcinski (A Janela Aberta) R$ 2 mil
Prêmio especial do júri para diretor revelação : Ronald Palatnik Rangel (Cego e o
Amigo Gedeão à Beira da Estrada)
Prêmio da crítica: Dona Cristina Perdeu a Memória
Prêmio do júri popular: No Bar
Prêmio Andi: Dona Cristina Perdeu a Memória
16 MM
Filme: Tabaco R$ 10 mil
Diretor: Jerri Dias, A Vingança Cali Gara R$ 5 mil
Roteiro: Aleques Eiterer, Alexandre Muniz, Flavio Magalhães e Márcio dos Santos (Verdade
ou Conseqüência) 2 mil
Fotografia: Elcio Verçosa Filho (Terminal) 2 mil
Montagem: Aleques Eiterer, Fabian Remy
(Verdade ou Conseqüência) 2 mil
Menção honrosa: Mariah da Penha (Âmago)
Menção especial para o protagonista: Sanclair Hamilton (O Engraxate)
Menção especial: Candeias: Da Boca pra Fora
Prêmio especial: Pra Onde e O Metro Quadrado
Prêmio da Câmara Legislativa
Longa: Celesta & Estrela, de Betse de Paula R$ 50 mil
Curta: O Lobisomem e o Coronel, de Elvis Kleber
e Ítalo Cajueiro R$ 10 mil
Filme em 16mm: Pra Onde, de Aurélio Aragão R$ 5 mil
Prêmio Marco Antônio Guimarães: Candeias: da Boca pra Fora
Prêmio Conterrâneos (Fundação Cine Memória): O Engraxate
Prêmio Aruanda de Cinema Documentário: Candeias: Da Boca pra Fora R$ 4 mil
(© Correio Braziliense)
| Despudor criativo |
Sem
meio-termo, a estréia do pernambucano Cláudio Assis radicaliza situações e aponta para
um cinema visceral, feito de sangue, pêlos e carne
Ricardo Daehn
Da equipe do Correio
Bianor morreu, como nasceu: completamente
anônimo, comenta um dos personagens de Amarelo Manga, sobre outro, um
recepcionista de idade do Texas Hotel, que concentra a trama do longa-metragem de Cláudio
Assis. Justamente em defesa de notoriedade para estes habituais anônimos, o diretor
radicaliza nas situações e acentua os tons que colorem a vida da massa pernambucana.
O resultado é um filme sem meios-termos, totalmente despudorado e criativo.
Na estrutura, assemelhada à de Robert Altman, Assis opta por não criar protagonistas. Um
elenco coeso responde, convicto, ao apelo do diretor. Tudo está disperso numa trama
recheada de bizarrices que compactuam com a realidade. Uma obcecada evangélica, seu
marido açougueiro (com fama de canibal) e uma ex-prostituta são alguns indivíduos da
fauna de Amarelo Manga.
As várias crônicas da narrativa, esbarradas ao longo da fita, abusam de
cenas desconcertantes que contrastam com a apatia compartilhada por um bando de
personagens coadjuvantes, agrupados em frente à tevê ligada, numa sala escura do Texas
Hotel.
A paráfrase de um dos extravagantes tipos de Amarelo Manga (um pastor
que tem por rebanho apenas três cães fiéis) o ser humano é estômago e
sexo é uma das propostas mais consistentes do filme. A qualidade
visceral de Assis ressona em sangue, pêlos, vômito (providencialmente lambido por um
gato) e carne crua, alguns dos elementos que tomam parte na história. Na mesma linha de
provocação, um nebulizador ganha um dos usos mais insuspeitos da história do cinema.
As performances fortes e equilibradas no conjunto de Chico Diaz,
Dira Paes e Conceição Camarotti dão vitalidade a Amarelo Manga. Outra interpretação
energética é a de Leona Cavalli, encarnando uma agitada dona de bar.
Matheus Nachtergaele, representando um cozinheiro gay, só não tangencia a
caricatura, por conta do seu perfeccionismo. Numa das cenas mais marcantes, ele lambe a
faca usada por Wellington, num vestígio de aproximação com açougueiro que deseja.
Grande parte da força de Amarelo Manga reside na preciosidade dos diálogos
do roteiro de Hilton Lacerda (co-roteirista de Baile Perfumado). Frases impagáveis, como
pudor é a forma mais inteligente de perversão, bicha
quer, bicha faz, as crentes são as mais safadas e
não tem ostentação, não tem Igreja, atravessam a tela, à toda
hora, com a mesma elegância usada na apropriação de trechos densos do livro Tempo
Amarelo, de Renato Carneiro Campos.
O fotógrafo Walter Carvalho abre mão de qualquer virtuosismo, e com
generosidade, entrega um trabalho funcional e eficiente. O máximo de rebuscamento a que
se permite são poucos planos aéreos que espionam (sem interferir) corriqueiras ações
dos personagens.
Todo o enredo do filme transcorre em um dia e uma noite, que é a
melhor parte (de acordo com a leitura de Amarelo Manga). No dia seguinte, vem
a ressaca, próxima à conclusão do filme. Com via documental, Cláudio Assis e Walter
Carvalho obrigam o olho no olho entre espectadores e a massa do cotidiano, por muitas
vezes, ignorada e marginalizada.
(© Correio Braziliense) |
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(arquivo NordesteWeb)
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