|
|
30/11/2002
LUIZ CARLOS MERTEN Foram dois anos de preparativos. Primeiro, foi preciso convencer a família da seriedade do empreendimento e resolver questões de direitos autorais. Depois, remasterizar o áudio e selecionar os numerosos extras que um lançamento desse porte, ou com essas intenções, teria, obrigatoriamente, de ter. Finalmente, está tudo pronto, ou quase: uma coletiva no dia 4, no Rio, no Hotel Glória, e outra em São Paulo, no dia 5, na Cinemateca Brasileira, anunciam o surgimento da Coleção Glauber Rocha. É uma parceria da RioFilme com a Versátil para colocar em DVD a obra do mais polêmico diretor do cinema brasileiro. Dia 18 chega às lojas o DVD duplo de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Você nunca viu as imagens de Deus e o Diabo na Terra do Sol desse jeito. "Você se lembra das imagens de O Boulevard do Crime, do Marcel Carné?", pergunta Oceano Vieira de Melo. "Deus e o Diabo ficou ainda mais bonito: as imagens possuem um brilho excepcional, mas isso não amacia a luz dura do Nordeste; pelo contrário, ela ressalta com mais força, ainda." Oceano Vieira não está exagerando para promover a coleção que sua empresa está lançando. A Versátil vem fazendo um trabalho importante de recuperação de clássicos brasileiros e internacionais. Grandes filmes brasileiros, italianos, franceses constam do seu acervo. Deus e o Diabo é o primeiro de uma série de nove DVDs dedicados a Glauber. Na seqüência virá, provavelmente em março - "É um processo demorado, quando a gente quer fazer as coisas com capricho" , comenta Oceano -, Terra em Transe. A Versátil tem o know how na criação de DVDs de filmes que são obras de arte, mas Oceano diz que é preciso fazer justiça a quem de direito. "Foi o embaixador Carrilho quem nos procurou. Amigo de Glauber, grande defensor da cultura brasileira, ele queria garantir que a obra de Glauber, tão importante na definição de rumos para o cinema brasileiro, chegasse ao público com a maior garantia de qualidade possível. E nos chamou para que isso fosse feito", diz Oceano Vieira. Não é um DVD qualquer, ele acrescenta. É uma obra de arte, para muitos críticos e historiadores o maior filme da história do cinema brasileiro. Exigia cuidados especiais. Exigia, sim - e os teve. Incluindo o filme, que tem 125 minutos de duração, o lançamento em DVD de Deus e o Diabo na Terra do Sol alcançará uma minutagem excepcional, em termos de lançamentos do cinema brasileiro. Serão 460 minutos, no total, que a Versátil acomodou num DVD duplo e de camada dupla, já que dois simples não dariam conta dos numerosos extras. Estão lá os depoimentos de Othon Bastos e Yoná Magalhães, que fazem Corisco e Rosa, textos, roteiro, excertos de críticas e entrevistas nos jornais da época, um trailer inédito em cinema e o que Oceano Vieira considera mais raro: uma coleção de 200 fotos garimpadas na Cinemateca Brasileira e que foram escaneadas numa operação comandada por ninguém menos do que o diretor de fotografia e câmera do filme, Waldemar Lima. E não faltam os estudiosos da obra de Glauber. Eles são muitos, no País e no exterior. Glauber, entre todos os diretores do cinema brasileiro, é possivelmente aquele sobre o qual mais se escreveram livros. Seus filmes já foram objetos de todo tipo de análise - estética, política, sociológica, até teológica, como o estudo que fez o padre Roberto Francisco Daniel, de Bauru. Um recente ciclo de debates promovido (em setembro) pela Associação Paulista dos Críticos de Artes, a APCA, no Espaço Unibanco de Cinema, usou o lançamento de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles - que, a propósito, completa esta semana 3 milhões de espectadores pagantes e torna-se o filme brasileiro de maior sucesso de público da retomada -, para debater a estética e a cosmética da fome. Estética (anti)publicitária - É a tese da historiadora Ivana Bentes. A estética da fome criada por Glauber na eclosão do Cinema Novo, nos anos 1960, estaria sendo transformada numa cosmética da fome, com o embelezamentos das imagens do sertão e da favela pelos novos diretores vindos da publicidade, no limiar do terceiro milênio. Ivana analisa o fenômeno num livro ainda inédito, mas cuja influência já é tão grande que ele não pára de estimular debates como o promovido pela APCA, em São Paulo. Como especialista na obra de Glauber - compilou a correspondência do autor, reunindo-a num volume intitulado Cartas ao Mundo, que não deixa de ser uma biografia epistolar -, Ivana é uma das personalidades entrevistas no rol de extras que compõe o DVD duplo de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Sim, dona Lúcia, a incansável mãe de Glauber, sacerdotisa de seu culto - e que mantém o Espaço Glauber, como centro de catalogação, documentação e pesquisa da obra glauberiana -, não poderia faltar nesse DVD. Tão grande é a convicção que os sócios têm no empreendimento que Arnaldo Carrilho e Oceano Vieira de Melo, isto é, a RioFilme e a Versátil, estão bancando sozinhas a Coleção Glauber Rocha, sem recorrer às leis de patrocínio que poderiam ser utilizadas, já que se trata de projeto de indiscutível relevância cultural. É o que o embaixador Carrilho, presidente da distribuidora de filmes da prefeitura do Rio de Janeiro, não se cansa de dizer. Em qualquer fórum para o qual seja chamado, ele faz uma intransigente defesa do cinema brasileiro e de Glauber, em especial, como patrimônio não só do País, mas da própria humanidade. Glauber, qualquer pessoa sabe, está longe de ser uma unanimidade. Na primeira noite de debate no Espaço Unibanco, Fernando Meirelles esteve a ponto de ser queimado por ter dito, com toda honestidade, alto e bom som, o que alguns só admitem na intimidade - acha que Glauber é um chato. Pode ser um chato, embora esse adjetivo chulo - quase sempre empregado no sentido de maçante - não seja um critério sério de avaliação. Chato tem a conotação de pouco elegante e vulgar, o que não é o caso da obra de Glauber. Se ele é chato é porque é incômodo e aí a sua chatice é subversiva - retira o espectador da comodidade de uma estética tradicional e via de regra colonizadora para lançá-lo no centro de uma poética bárbara que bate na tela como expressão do transe latino. Glauber foi um dos principais artistas que, nos anos 1960, desenvolveram um projeto revolucionário de linguagem e de vida. O tempo passa e continua sendo impossível enquadrá-lo em normas acadêmicas. A Coleção Glauber Rocha começa sob o signo de suas obras mais importantes. Deus e o Diabo e Terra em Transe são marcos na história do cinema brasileiro, por mais que ambos os filmes possam desconcertar - as cenas em que os cangaceiros invadem o casamento em Deus e o Diabo e as da orgia em Terra em Transe. Glauber, com sua estrutura bipolar, criou uma estética nova e poderosa. Uma coleção em DVD, a ele dedicada, é mais do que uma necessidade. "É a certeza de que estamos preservando para a posteridade, com a mais avançada tecnologia possível, uma obra fundamental como afirmação de nossa identidade artística e cultural", diz Oceano Vieira de Melo. (© O Estado de S. Paulo)
|
|
||||||