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30/11/2002
João Pessoa - A Bahia tem o acarajé e as fitinhas do Bonfim; Pernambuco, os guarda-sóis de frevo; o Ceará, as jangadas; e o Rio Grande do Norte, as dunas e buggies. A Paraíba ainda procura um ícone para chamar de seu. E opções não faltam em um lugar que se orgulha de ver os primeiros raios de sol das Américas (Ponta do Seixas), de ter a primeira praia nordestina destinada à prática do naturismo (Tambaba) e de ter até trilha sonora (e não se trata de "muié macho sim senhor"). As animadíssimas festas de São João e os sítios arqueológicos que se espalham pelo interior são também boas fontes de inspiração. Não bastasse a "falta" de uma marca registrada, o litoral do Estado segue menos badalado que o dos vizinhos. Uma injustiça que merece ser corrigida ainda nesta temporada. Afinal, são 130 quilômetros de areia branca, águas cristalinas, vastos coqueirais e falésias de beleza singular. E é exatamente a "falta" de badalação que confere charme a alguns pontos da orla, que seguem praticamente desertos, agitados apenas pelo balanço da rede de pescadores no fim do dia. De hábitos simples, os paraibanos levam para a atividade turística aquilo que falta, em alguns momentos, a seus pares: o sossego e a tranqüilidade. A vida boa pode começar pelo litoral sul, pelo distrito de Conde, mais especificamente por Tambaba. A 20 quilômetros de João Pessoa, a praia de naturismo ficou ainda mais acessível depois da inauguração da Via Litorânea, que liga a capital à divisa com Pernambuco. Isso reduziu em cerca de meia hora o tempo do percurso, livrando os turistas do tráfego pesado da BR-101. A primeira praia do Nordeste destinada oficialmente ao naturismo é conhecida também como santuário ecológico. Ornamentada por uma mata praticamente virgem e por um labirinto de areia colorida, resultado da ação do vento nas falésias, Tambaba é um verdadeiro paraíso. Só entra ali quem obedece ao código de ética imposto pela Sociedade Naturista Tambaba (Sonata), expresso numa placa amarela bem na entrada do local. São proibidos, entre outras coisas, topless e a presença de homens desacompanhados. "Não toleramos o hedonismo e expulsamos quem vier com outras intenções", explica a paulistana Rosângela Arantes Corrêa, de 40 anos, presidente da Sonata. Tambaba conta com uma pousada, a Don Quizote (0--83-246-5462), e um bar-restaurante. Atualmente, os associados fazem uma campanha para arrecadar dinheiro para a construção de um poço artesiano e para melhorar a área de camping. Ainda no distrito de Conde, outras praias que merecem atenção são Coqueirinho e Tabatinga - ideais para quem quer sossego antes de tudo -, Carapibus e Jacumã - com melhor estrutura e quiosques que disputam a atenção dos banhistas. Ali o forró rola na areia mesmo e o som, sempre alto, incomoda um pouco no fim do dia. Na Praia do Amor, a última de Conde, é inevitável posar diante da Pedra Furada (ou do Buraco), uma formação rochosa que emoldura casais de namorados, grupos de crianças e marmanjos que gostam de levar uma lembrança divertida para casa. Diz a lenda que o casal que passar junto por baixo da fenda viverá apaixonado para sempre. Urbanas - A partir desse ponto, começam as praias de João Pessoa. São 30 quilômetros de uma privilegiada combinação de infra-estrutura com movimentadas praias urbanas. As mais visitadas são Penha, Ponta do Seixas (Ponto Extremo Oriental das Américas, onde o sol nasce primeiro no continente), Cabo Branco, Tambaú, Manaíra e Bessa. Tambaú funciona como um centrinho à beira-mar. Tem de tudo por ali. Bons hotéis, como o Caiçara e o Tropical Tambaú, ótimos restaurantes, um calçadão movimentado, feirinhas de artesanato e um posto de informações da Empresa Paraibana de Turismo (PBTur), entre outras coisas. Passeios, como para Picãozinho, partem de suas areias. Indo em direção ao norte, a cerca de 18 quilômetros de João Pessoa, chega-se à cidade portuária de Cabedelo, cuja população de 30 mil habitantes sobe para 100 mil na alta temporada. Lá estão algumas das praias mais cobiçadas do litoral paraibano. A primeira a se destacar é a do Jacaré, praia fluvial cujo pôr-do-sol, por ser um dos mais belos da região, é também o principal responsável pela presença maciça de turistas nos seus bares, restaurantes e marinas. Do Jacaré parte-se para Formosa, Areia Dourada, Camboinha, Poço (que foi tombada pelo Patrimônio Histórico) e Intermares. Com exceção desta última - onde o mar é propício ao surfe -, todas as praias de Cabedelo são verdadeiras piscinas naturais de águas mornas e calmas, ideais para a diversão de crianças e idosos e para a prática dos mais variados esportes náuticos. A partir de Cabedelo, chega-se ao extremo norte do litoral paraibano, à tranqüila Lucena, de balsa ou barco. Junto das praias de Costinha, no estuário do Rio Paraíba, de Fagundes e da Ponta do Lucena, os pés de coco imperam absolutos na paisagem. A praia de Lucena é ainda a mais freqüentada do pedaço, quase triplicando a população em períodos de festas como o carnaval. Viviane Kulczynski (© estadao.com.br) Um giro pelo centro da histórica capital Uma parte do patrimônio é restaurada, dando vida nova à área antiga de João Pessoa JOÃO PESSOA - Um levantamento feito pelas Nações Unidas dá a João Pessoa o título de segunda cidade mais verde do mundo, perdendo apenas para Paris. Coloridas acácias e ipês ajudaram a dar fama ao município, o terceiro mais antigo do Brasil. Fundada em 1585 junto da foz do Rio Paraíba, João Pessoa já nasceu cidade, nunca tendo sido "vila", o que lhe conferiu um ar de arrogância durante muitos anos. A capital paraibana, que nasceu às margens do Rio Sanhauá, braço direito do Rio Paraíba, cresceu em torno da Mata do Buraquinho, onde está um manancial de mesmo nome, e que hoje ocupa uma área de 515 hectares de floresta preservada. O lado antigo da cidade pode ser visto no centro histórico, que passa por processo de revitalização bancado por brasileiros e espanhóis. Ali estão casarões do século 17, igrejas, palácios. As obras já deram cara nova a diversas áreas tombadas pelo Patrimônio Histórico. Entre elas, a Praça Antenor Navarro, com seus sobrados multicoloridos dos séculos 19 e 20. Originalmente, eles abrigavam lojas, cedendo espaço nos dias atuais a ateliês e bares, como o Parahyba Café, num sobrado amarelo e rosa. Com isso, a intenção é movimentar ainda mais a parte histórica da cidade, com atividades culturais. Eventos com música, dança e gastronomia costumam ocupar esses espaços de quarta a domingo, incluindo apresentações de grupos folclóricos. Na lateral da praça está o Largo São Pedro Gonçalves, com mais casarios antigos. Um dos destaques é a Igreja São Frei Pedro Gonçalves (ou Igreja dos Navegantes), pintada de ocre colonial e branco. Reaberto em janeiro, o templo ficou fechado por 30 anos e, nos últimos dois, foi reformado. As obras revelaram restos de uma antiga muralha que teria cercado João Pessoa no passado e a fundação da primeira capela de São Pedro Gonçalves, datada do final do século 17, protegidas agora por um vidro. Ainda no centro, o Teatro Santa Roza (Praça Pedro Américo, s/n.º), de 1889, ostenta estilo neoclássico com influência greco-romana em sua fachada. No seu palco, o poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914) deu palestras sobre a escravidão. A Casa da Pólvora (Ladeira de São Francisco, s/n.º), que no começo do século 18 era usada para guardar a munição das tropas paraibanas contra invasores, é outro monumento. Tombada pelo Patrimônio, hoje abriga o Museu Fotográfico Walfredo Rodriguez. Outra construção incluída na lista de restauração é o Casarão dos Azulejos, localizado diante da Igreja Nossa Senhora do Carmo (século 16). O prédio é um dos últimos a exibir azulejos portugueses na fachada. Barroco - O mais impressionante de todo o patrimônio é o conjunto barroco formado pelo Convento de Santo Antônio, pela Igreja de São Francisco, por seu majestoso cruzeiro, por um relógio de sol e pela Fonte de Santo Antônio, na parte alta da cidade. Uma visita ao local, cujo final da construção data de 1779, autentica uma viagem no tempo, pela arquitetura do barroco no Brasil Colonial. Durante a invasão holandesa à Paraíba, o lugar serviu de quartel, danificando muito de sua beleza e parte da cantaria original em pedras. No local funciona o Centro Cultural São Francisco, nome dado em homenagem aos franciscanos que ali viveram, e conta com museus de arte sacra e de arte popular brasileira, além de promover exposições periódicas de artistas em começo de carreira. A construção impressiona pela imponência e riqueza de detalhes. Do lado de fora do complexo, chamam a atenção o cruzeiro e o adro em pedra calcária, um dos poucos da região que guarda o traçado original. O púlpito da igreja, todo em cedro policromado talhado e banhado em ouro, exemplifica bem o grau de rebuscamento pretendido pelo barroco. Infelizmente, o altar-mor não está mais lá para contar história. Foi destruído por cupins quando os franciscanos deixaram o local, em 1885. Atualmente, em seu lugar, há apenas um crucifixo. A galeria para novos artistas fica no térreo e dá acesso à sacristia. No primeiro andar do antigo convento fica o museu de arte sacra, com imagens dos séculos 18 e 19, a maioria em madeira. O museu de arte popular tem uma mostra permanente da produção de Norte a Sul do País, com mais de mil peças no acervo. Postal - Em um eixo de onde partem as principais avenidas da cidade - arborizadas com mangueiras, jambeiros, umbuzeiros e cajazeiras - está a Lagoa do Parque Solon de Lucena, cartão-postal de João Pessoa. Cercado de palmeiras imperiais, contrasta com o movimento ao seu redor, de ônibus, táxis e carros que circulam levando e trazendo os nativos em mais um dia agitado no centro da capital. Para quem não resiste às compras, aí vai uma dica. O melhor da rica arte local pode ser encontrado no Mercado de Artesanato Paraibano (MAP), na Avenida Rui Carneiro, 214, em Tambaú. Criado em 1991, oferece 128 lojas, duas lanchonetes e infra-estrutura para shows e exposições. As lojinhas trazem uma infinidade de produtos: de delícias da culinária local a bijuterias, passando por redes de dormir até roupas de algodão cru. Há também objetos feitos com conchas, couro, crochê, madeira, cerâmica e vime. Funciona de segunda a sábado, das 9 às 19 horas, e aos domingos, até as 17 horas. (V.K.) (© estadao.com.br) Balneário fluvial tem pôr-do-sol com trilha sonora de Ravel 'Bolero' embala o crepúsculo em bares da Praia do Jacaré, que reúne turistas e moradores JOÃO PESSOA - Paraíba, música de Luiz Gonzaga em parceria com Humberto Teixeira, tinha tudo para compor a trilha sonora mais executada no Estado. Mas foram os acordes de Bolero, do francês Maurice Ravel (1875- 1937), que ganharam a preferência na região metropolitana de João Pessoa. A música é tocada diariamente ao pôr-do-sol, num espetáculo que reúne turistas curiosos e moradores à beira do Rio Paraíba. O rio nasce na região dos Cariris Velhos, bem no centro do Estado da Paraíba, e chega ao litoral proporcionando um belo fenômeno no encontro com o mar, na cidade portuária de Cabedelo. Para os amantes da natureza, o que mais chama a atenção em seu percurso é a praia fluvial do Jacaré. As pequenas ilhas do Stuart, Restinga, Tiriri e Andorinhas constituem um cenário exótico. Com uma vegetação densa, boa parte de mangue, a área está livre da depredação humana e mantém intactas as mais variadas espécies animais. Apesar das encantadoras fauna e flora, quem ganha a preferência do público é o pôr-do-sol do lugar. Sempre que o tempo permite, o poente ocorre de mansinho, saudado pelo Bolero de Ravel, executado - em som tirado de toca-discos e ao vivo - pelos bares instalados às margens do Paraíba. O ritual é mantido há 12 anos, pois os cerca de 17 minutos que leva o show natural coincidem com a duração da obra. No Jacaré Bar (o último da rua à beira-rio, no sentido do fluxo dos carros), o bolero é apresentado ao vivo por Jurandy do Sax, de 46 anos. Ele interpreta a música no instrumento de sopro há três anos e pretende entrar para o Guinness Book - O Livro dos Recordes. "Toco mesmo em dia de chuva e quando não há ninguém na platéia. É uma espécie de ritual", conta Jurandy, que se apresenta sempre vestido de branco. O bar cobra ingresso de R$ 3,00. No verão, a praia se transforma no point da juventude paraibana e dos turistas, que durante os dias de sol realizam tours em embarcações e manobras de jet ski. Algumas agências de turismo receptivo oferecem passeios pelo rio e suas ilhas, com preços que giram em torno de R$ 25,00 por pessoa. Os bares, simples e rústicos, dispõem de trapiches que aproximam ainda mais os clientes do rio e convidam à paquera. Eles oferecem também uma grande variedade de comidas e bebidas típicas do Nordeste. (V.K.) (© estadao.com.br) Passeios ao sabor da maré O nível do mar determina os horários de visita a Picãozinho e Areia Vermelha JOÃO PESSOA - Mesmo quem nunca ouviu falar em tábua das marés será apresentado a uma delas em João Pessoa. Detalhes sobre baixa-mar, preamar e fases da lua são fundamentais na hora de marcar dois dos passeios mais concorridos na região da capital paraibana. É que o nível das águas influencia não apenas a beleza de paisagens que se formam mar adentro, mas também as formas de acesso a locais como Picãozinho e Areia Vermelha. A cerca de dois quilômetros da Praia de Tambaú, Picãozinho, um conjunto de piscinas naturais em meio a plataformas de corais, encanta os visitantes num dos trechos mais belos do litoral de João Pessoa. Ali, a água mantém uma temperatura média de 28 graus e é tão transparente que os peixinhos coloridos e a vegetação marítima são admirados mesmo sem máscara de mergulho. O Picãozinho ainda é explorado de maneira ordenada, embora esteja crescendo o número de barqueiros que oferecem o passeio até o local. Há dez anos, apenas José Carlos Pessoa Jardim, de 36 anos, fazia o trajeto com os turistas. Zé Carlos (0--83-9981-6165) segue levando pessoalmente turmas animadas às piscinas naturais, acessíveis sempre que a maré baixa e nas noites de lua cheia, quando algumas pessoas aproveitam para fazer luau. Mas o melhor mesmo é fazer o passeio durante o dia, quando as cores do mar contrastam com as do conjunto de corais e os peixes ficam alvoroçados. Em barcos como os de Zé Carlos - Diego e Lucas -, encontram-se sacolinhas de pão velho, para a alegria dos cardumes. Eles não se fazem de rogados e buscam o alimento na mão, para alegria dos turistas. O trajeto entre a beira-mar e Picãozinho é feito em confortáveis catamarãs que partem da Praia de Tambaú, de locais próximos do Tropical Tambaú Resort. A bordo são vendidos bebidas e petiscos (espetinhos de coração de frango e queijo, R$ 1,50) e oferecidos aluguel de snorkel e máscara (R$ 2,00), fotos instantâneas (R$ 15,00) e bóias. Pelo passeio, paga-se, em média, R$ 10,00. Na praia de Camboinha, em Cabedelo, outra atração depende da maré para fazer sucesso e transformar uma porção de areia numa espécie de estacionamento de jangadas e lanchas. A formação submarina de Areia Vermelha emerge quando a água baixa e forma outro conjunto de praias e piscinas naturais. As cores da areia - avermelhada, é claro -, da fauna e da flora marinha nos arrecifes podem ser vistos de longe na baixa-mar. Os barcos que fazem o trajeto, de pouco mais de um quilômetro, partem da Praia do Poço e de Camboinha. (V.K.) (© estadao.com.br) A carne nobre do bode faz par com o milho na boa culinária sertaneja Cercada de preconceitos, a mesa regional ganha adeptos quando conhecida JOÃO PESSOA - Só pode torcer o nariz quem de fato já experimentou a comida sertaneja e não gostou. Quem jamais provou as iguarias pode até achá-las estranhas, mas não deve refutar a idéia de prová-las. Misturadas, as heranças lusitana e indígena desembocaram no que hoje se chama de cozinha sertaneja, uma das fortes vertentes da gastronomia paraibana, conhecida pela multiplicidade de opções.Para aqueles que não suportam a idéia de provar, por exemplo, guisado de bode ou galinha cabidela, a boa notícia: na orla, a culinária típica sustenta-se basicamente em peixes e frutos do mar. Há também opções que devem agradar aos paladares menos atrevidos, como tratorias e restaurantes de grelhados e de comida natural (veja quadro abaixo). Na cozinha sertaneja, a farinha de mandioca ocupa o mesmo lugar que o pão em outras culturas. É um complemento obrigatório em todas as refeições. Por isso, a casa da farinha, presente ainda hoje em várias propriedades do interior, funciona sem parar, nos moldes das que os índios usavam no passado. A mais, apenas a roda motora introduzida pelos portugueses. As receitas clássicas do cardápio paraibano servem de prova de que a cozinha sertaneja, se comparada com qualquer outra que lhe dê de ombros, não fica em desvantagem. Enquanto a cozinha baiana, por exemplo, é obra de escravos, a sertaneja foi criada pelos caboclos, descendentes de índios. E, por isso, é menos sofisticada, mas muito mais substancial. O milho é outra vedete da gastronomia, levando quase mecanicamente à canjica (feita à base de espigas de milho-verde raladas, chamada por essas bandas de cá de curau) e, mais ainda, ao mugunzá, temperado com leite-de-coco, erva-doce e canela. Tradição - As carnes nobres do sertão são mesmo a de carneiro e a de bode - e logo se pensa na buchada (o estômago do bicho recheado com as vísceras bem temperadas), na panelada (uma espécie de ensopadinho de tripas), no sarrabulho (à base de sangue coagulado). Sabe-se que o bode assado tornou-se tradicional quando, há algum tempo, às margens das estradas do sertão, era a única carne encontrada. Mesmo nos períodos secos do ano, dada a resistência e a capacidade de adaptação dos caprinos, sempre se encontrava um bom assado. O hábito então ganhou o meio urbano. Bem mais macia que a bovina e com menos gordura, a carne de bode vem normalmente acompanhada de todos os exóticos sabores das guarnições típicas. Tem feijão-verde, pirão de farinha de mandioca, rubacão (mistura de arroz, feijão, carne e queijo coalho). Muitas outras receitas se desfiam, como as de paçoca, de galinha cabidela (temperada com o próprio sangue), de doces caseiros, como o pé-de-moleque. Na versão paraibana, essa delícia tem a consistência de um bolo, com massa de mandioca, rapadura, cravo, canela, erva-doce e castanha de caju. Outra gostosura nordestina que encontra sotaque próprio na Paraíba é a tapioca, servida com recheios variados e, principalmente, na versão com queijo coalho. Um dos melhores lugares em João Pessoa para se provar essa diversidade sertaneja é o Restaurante Fazenda, que oferece um bufê cobrado por quilo. As quase 60 opções oferecidas no almoço e no jantar ficam devidamente instaladas sobre um fogão a lenha. O local, que também serve café da manhã típico - com macaxeira, canjica, queijo coalho, tapioca e frutas, entre outros -, abre diariamente das 6h30 às 22h30. (V.K.) (© estadao.com.br) De norte a sul, 130 km de praias Areias brancas e águas cristalinas do Estado ainda não são tão badaladas como as dos vizinhos VIVIANE KULCZYNSKI JOÃO PESSOA - A Bahia tem o acarajé e as fitinhas do Bonfim; Pernambuco, os guarda-sóis de frevo; o Ceará, as jangadas; e o Rio Grande do Norte, as dunas e buggies. A Paraíba ainda procura um ícone para chamar de seu. E opções não faltam em um lugar que se orgulha de ver os primeiros raios de sol das Américas (Ponta do Seixas), de ter a primeira praia nordestina destinada à prática do naturismo (Tambaba) e de ter até trilha sonora (e não se trata de "muié macho, sim, senhor"). As animadíssimas festas de São João e os sítios arqueológicos que se espalham pelo interior são igualmente boas fontes de inspiração.Não bastasse a "falta" de uma marca registrada, o litoral do Estado segue menos badalado que o dos vizinhos. Uma injustiça que merece ser corrigida ainda nesta temporada. Afinal, são 130 quilômetros de areia branca, águas cristalinas, vastos coqueirais e falésias de beleza singular. E é exatamente a "falta" de badalação que confere charme a alguns pontos da orla, que seguem praticamente desertos, agitados apenas pelo balanço da rede de pescadores no fim do dia. De hábitos simples, os paraibanos levam para a atividade turística aquilo que falta, em alguns momentos, a seus pares: o sossego e a tranqüilidade. A vida boa pode começar pelo litoral sul, pelo distrito de Conde, mais especificamente por Tambaba. A 20 quilômetros de João Pessoa, a praia de naturismo ficou ainda mais acessível depois da inauguração da Via Litorânea, que liga a capital à divisa com Pernambuco. Isso reduziu em cerca de meia hora o tempo do percurso, livrando os turistas do tráfego pesado da BR-101. A primeira praia do Nordeste destinada oficialmente ao naturismo é conhecida também como santuário ecológico. Ornamentada por uma mata praticamente virgem e por um labirinto de areia colorida, resultado da ação do vento nas falésias, Tambaba é um verdadeiro paraíso. Só entra ali quem obedece ao código de ética imposto pela Sociedade Naturista Tambaba (Sonata), expresso numa placa amarela bem na entrada do local. São proibidos, entre outras coisas, topless e a presença de homens desacompanhados. "Não toleramos o hedonismo e expulsamos quem vier com outras intenções", explica a paulistana Rosângela Arantes Corrêa, de 40 anos, presidente da Sonata. Tambaba conta com uma pousada, a Don Quizote (0--83-246-5462), e um bar-restaurante. Atualmente, os associados fazem uma campanha para arrecadar dinheiro para a construção de um poço artesiano e para melhorar a área de camping. Ainda no distrito de Conde, outras praias que merecem atenção são Coqueirinho e Tabatinga - ideais para quem quer sossego antes de tudo -, Carapibus e Jacumã - com melhor estrutura e quiosques que disputam a atenção dos banhistas. Ali o forró rola na areia mesmo e o som, sempre alto, incomoda um pouco no fim do dia. Na Praia do Amor, a última de Conde, é inevitável posar diante da Pedra Furada (ou do Buraco), uma formação rochosa que emoldura casais de namorados, grupos de crianças e marmanjos que gostam de levar uma lembrança divertida para casa. Diz a lenda que o casal que passar junto por baixo da fenda viverá apaixonado para sempre. Urbanas - A partir desse ponto, começam as praias de João Pessoa. São 30 quilômetros de uma privilegiada combinação de infra-estrutura com movimentadas praias urbanas. As mais visitadas são Penha, Ponta do Seixas (Ponto Extremo Oriental das Américas, onde o sol nasce primeiro no continente), Cabo Branco, Tambaú, Manaíra e Bessa. Tambaú funciona como um centrinho à beira-mar. Tem de tudo por ali. Bons hotéis, como o Caiçara e o Tropical Tambaú, ótimos restaurantes, um calçadão movimentado, feirinhas de artesanato e um posto de informações da Empresa Paraibana de Turismo (PBTur), entre outras coisas. Passeios, como para Picãozinho, partem de suas areias. Subindo em direção ao norte, a cerca de 18 quilômetros de João Pessoa, chega-se à cidade portuária de Cabedelo, cuja população de 30 mil habitantes sobe para 100 mil na alta temporada. Lá estão algumas das praias mais cobiçadas do litoral paraibano. A primeira a se destacar é a do Jacaré, praia fluvial cujo pôr-do-sol, por ser um dos mais belos da região, é também o principal responsável pela presença maciça de turistas nos seus bares, restaurantes e marinas. Do Jacaré parte-se para Formosa, Areia Dourada, Camboinha, Poço (que foi tombada pelo Patrimônio Histórico) e Intermares. Com exceção desta última - onde o mar é propício ao surfe -, todas as praias de Cabedelo são verdadeiras piscinas naturais de águas mornas e calmas, ideais para a diversão de crianças e idosos e para a prática dos mais variados esportes náuticos. A partir de Cabedelo, chega-se ao extremo norte do litoral paraibano, à tranqüila Lucena, de balsa ou barco. Junto das praias de Costinha, no estuário do Rio Paraíba, de Fagundes e da Ponta do Lucena, os pés de coco imperam absolutos na paisagem. A praia de Lucena é ainda a mais freqüentada do pedaço, quase triplicando a população em períodos de festas como o carnaval. (© estadao.com.br) Aridez do sertão conserva sítios arqueológicos e paleontológicos Entre os destaques está a Pedra de Ingá, com 24 metros de comprimento por 3,8 metros de altura INGÁ - Sai governo, entra governo e o sertão segue invariavelmente relacionado à seca, pobreza, sofrimento. Mas o mesmo sol escaldante que evapora as esperanças dos sertanejos e a mesma terra quebrada pela falta de irrigação preservaram uma riqueza de valor inestimável no interior do Nordeste. A Paraíba, por exemplo, abriga sítios arqueológicos e paleontológicos que, aliados a formações geológicas curiosas, convencem qualquer turista de que um roteiro alternativo pode, sim, passar ao largo da bela costa. Além do mais, o cariri pernambucano tem lá sua beleza, à margem dos padrões tradicionais.Inscrições rupestres feitas há milhares de anos, pegadas de dinossauros e ossos fossilizados são algumas das surpresas escondidas no interior do Estado. Só se alcançam tais lugares depois de se embrenhar pelo agreste, num trajeto puxado, por estradas às vezes estreitas, às vezes em obras. No caminho, é bom encontrar tempo para uma pausa, para observar bodes pastando e calangos cruzando a estrada, para experimentar o fruto do cacto xiquexique ou para fotografar uma flor exótica, como a do mandacaru (lindíssima!). Qualquer incursão a pé pela caatinga merece atenção. "É preciso se acostumar a andar driblando carrapichos que se grudam às roupas e urtigas que queimam a pele", ensina o guia local Ribamar Alves de Farias, de 20 anos. Itacoatiaras - O maior monumento arqueológico do Brasil, com 24 metros de comprimento por 3,8 metros de altura, fica num sítio arqueológico no município de Ingá, a cerca de 90 quilômetros da capital paraibana. A Pedra de Ingá completa um conjunto de rochas com inscrições rupestres, chamadas itacoatiaras (pedras riscadas, em tupi), e assenta-se junto das águas do Rio Ingá de Bacamarte. O imenso e intrigante monólito traz em quase toda sua superfície figuras humanas, animais, espirais, plantas, cruzes e estrelas, entre outros tantos desenhos, muitos indecifráveis, apesar do esforço de geólogos, historiadores e arqueólogos. As inscrições aparecem em depressões de quase 1 centímetro de profundidade. Na verdade, os sulcos já tiveram até 3 centímetros, mas as ações do tempo e do homem contribuem para sua degradação. O monumento foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mas apenas uma corda precária preserva o bloco das mãos curiosas de certos visitantes. Como a prefeitura de Ingá não tem verba e o governo do Estado parece desconhecer as necessidades locais, a conservação da pedra é feita por Renato A. da Silva, um agricultor aposentado de 74 anos, que vive no local há 15. Silva acompanha os curiosos, não cobra ingresso e ainda conta as várias versões para a origem da pedra - de histórias sobre extraterrestres ao legado indígena. Na década de 40, a Pedra de Ingá esteve prestes a ir pelos ares. Acreditando na lenda de que a região escondia potes de ouro, várias pessoas dinamitaram o local onde fica o enorme bloco de granito, colocando em risco um achado de quase 5 mil anos. Mais recentemente, a região passou por uma quebradeira - as pedras estavam virando paralelepípedos. Um absurdo que Silva ajudou a conter. No sítio arqueológico de Ingá foi inaugurado em 1995 um Museu de História Natural com cerca de duas dezenas de fósseis de animais que ali viveram, recolhidos no sítio Maringá e em Riachão do Bacamarte. O local é ainda uma reserva ecológica da biosfera da caatinga, onde se encontram diversas espécies de árvores, entre elas uma velha baraúna, com mais de 100 anos. Curiosamente, a ingazeira, espécie de árvore que inspirou o nome da cidade, desapareceu há mais de 40 anos. Que a pedra tenha futuro melhor! (V.K.) (© estadao.com.br) Lajedo do Pai Mateus serviu de cenário para filmes nacionais Local que deu abrigo para eremita no século 18 tem imensas rochas arredondadas CABACEIRAS - A cidade mais seca do País fica num pedaço "quase" esquecido do cariri paraibano. À minúscula Cabaceiras só se chega de carro, pela BR-230, 200 quilômetros sertão adentro, a partir de João Pessoa. Ali, os rios são pedregosos, a vegetação é retorcida. Gonzagão inspirou-se nessa paisagem para escrever os versos iniciais de Paraíba (aquela, de "muié macho, sim, senhor"), que dizem que a lama virou pedra e o mandacaru secou, que ribaçã de sede bateu asas e voou. A cada longo período de estiagem, famílias inteiras migram para Campina Grande, João Pessoa ou outra capital do Nordeste e, volta e meia, acabam subempregadas no sul do País. A renda média da população é de R$ 172,41, um poço artesiano custa R$ 5 mil e muitas vezes a terra não vale tanto. A população não chega a 4.500 habitantes e um vereador é eleito com 134 votos (o recordista de 2000 ganhou a confiança de 233 viventes). Com apenas 405 quilômetros quadrados, o pequeno município teve seus dias de glória há quatro anos, quando os personagens João Grilo e Chicó apearam do jegue por ali, para parte das filmagens de O Auto da Compadecida. A peça escrita pelo paraibano Ariano Suassuna em 1955 foi adaptada para minissérie e cinema pelo diretor Guel Arraes e pela escritora Adriana Falcão, em 1998. Mormaço - O sol castiga a pele de quem não está acostumado ao clima do cariri - a média de temperatura beira os 34 graus. A brisa que sopra é insignificante. Logo na chegada à região, boa parte dos turistas que se aventuram fica entregue ao mormaço. O protetor solar vira arma contra as agressões da natureza. Garrafinhas de água são outra salvação. A maior atração do local, o Lajedo do Pai Mateus, fica a 20 poeirentos quilômetros do centro, na parte alta de Cabaceiras. Ali foi filmada a cena em que o cangaceiro Severino (papel de Marco Nanini) combina com outro salteador a invasão à cidade no dia seguinte. O local, impressionante por suas dimensões e pelos mistérios que guarda em suas rochas arredondadas, serviu de abrigo, no século 18, durante mais de 30 anos para o eremita que lhe dá nome. Pai Mateus era considerado beato e tinha a fama de curandeiro. Mas a história do lajedo é muito mais antiga e remonta a um período ainda incerto. Na região, foram encontrados ossos fossilizados de tatus gigantes e de tigres-dentes-de-sabre, que viveram na América do Sul em uma época da era cenozóica. As cerca de 600 pinturas rupestres espalhadas pela região indicam que tenha sido utilizada para rituais por antigas civilizações. Numa das maiores rochas, por exemplo, há 32 pinturas de mãozinhas. Sabe-se, por estudos, que os índios que habitavam o local só faziam esse tipo de inscrição em lugares que consideravam sagrados. O Lajedo de Pai Mateus ocupa uma área de 5 quilômetros quadrados de extensão e o piso granítico é coberto por líquen de coloração alaranjada, sobre o qual os turistas devem evitar pisar. O aclive que leva ao topo vai revelando as gigantescas massas rochosas, que chegam a pesar até 40 toneladas. Da Pedra do Capacete tem-se uma das melhores vistas. Vale sentar-se um pouco debaixo da formação côncava, para descansar e aproveitar o ventinho que corre ali. Hospedagem - Uma das catorze trilhas ecológicas da região leva a outro lugar curioso, a Saca da Lã. Com 40 metros de altura, a formação exibe oito blocos de granito empilhados. Se é obra da natureza ou se teve interferência humana, ninguém arrisca dizer. Ali, aventureiros fazem rappel e escaladas. Passeios como esses são organizados pela única opção de hospedagem próxima, o Hotel Fazenda do Pai Mateus. Em funcionamento há dois anos, o local também serviu de cenário para algumas tomadas de O Auto da Compadecida e de outros filmes, como São Jerônimo (1999) e Viva São João (2002). Em meio a um jardim de cactos e bromélias, típicos da caatinga, oferece 22 chalés para até três pessoas. Sete têm ar-condicionado e 15 apenas ventilador. Na antiga casa-grande da fazenda funciona hoje a administração da propriedade e o restaurante. No cardápio estão produtos dali mesmo, como ovos, frutas, legumes, leite e carne de bode. Para o lazer, a fazenda conta com piscina e sauna a lenha. Os passeios organizados diariamente ajudam os aventureiros a desbravarem a região. A caminhada que leva à Saca da Lã dura duas horas. Para o lajedo, gastam-se três horas em três quilômetros de andanças, quase sempre no fim da tarde. (V.K.) (© estadao.com.br)
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