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30/11/2002
Por Tárik de
Souza
Alceu Valença celebra 30 anos de
carreira no CD De janeiro a janeiro e reafirma sua singularidade.
Além de lançar o disco fora da chamada grande
industria musical, em seu selo Tropicana, nas bancas junto com a revista Música de
Atitude, ele investe num diferencial estético e ideológico.
"Já houve muita fusão até gerar a confusão.
O país ficou refém de um só timbre, uma postura e um comportamento únicos. Para ser
diferente hoje a música brasileira tem que se voltar para si mesma. Para a sua
generalidade.
Quando você parte de uma personalidade, essa
personalidade já fez a síntese. Até por uma atitude política e econômica é preciso
mostrar a cara do Brasil como ela é", discursa.
E não há disco mais parecido com Alceu Valença que
De janeiro a janeiro. Foi ele quem escolheu a tessitura, os timbres, com Paulo
Rafael, o produtor, guitarrista e sócio do Estúdio do Tempo, onde tudo foi gravado a 50
metros de sua casa, no bairro carioca do Leblon.
"Ia gravar de bermuda e chinelo", brinca
ele. Alceu perdeu a conta do tempo (sem trocadilho) que passou esculpindo o CD. Além do
meticuloso apuro na guitarra, também a bateria foi descartada em troca de uma
utilização variada dos timbres da percussão.
"Quis evitar uma uniformidade rítmica",
garante ele. Algo que se reflete no leque de gêneros empregados, toada, coco, frevo,
maracatu, xote e até um Bluebaião.
"Blue aí entrou mais no sentido de triste, sem
a característica "blue note", embora a toada seja irmã carnal do blues do
Mississipi", separa.
Levado pela guitarra em terças, Bluebaião
faz parte da memorabilia da carreira que o disco rebobina. Foi composto em 1970, mas não
entrou no primeiro disco de Alceu porque coincidia com o tema de Planetário, o
interiorano vagando na cidade grande.
Preterida, ela ficou esquecida até recentemente.
"Não sou muito organizado, nem registro minhas músicas. Atualmente tenho um
gravador, mas está sem pilha", debocha ele.
Espelho Cristalino, composta em 1976, que
homenageia o ecologista capixaba Augusto Ruschi, entrou como lembrança do pioneirismo de
Alceu na matéria através de bela releitura ralentada.
Agalopada na nova versão, Estação da luz de
1985, enfatiza o disco que ele considera mais bem produzido e teria passado em branco por
ter ficado numa transição de mudança de gravadora.
Do mesmo repertório é a embaladora Balanço de
rede, composta no começo dos 80, inspirada nos porres e na tentativa de comprar um
bar chamado Querubim, situado no topo da ladeira da Misericórida, em Olinda.
Já a lânguida toada Quando eu olho para o mar
(de Cinco sentidos, de 1982) ele considera um de seus poemas mais bem concebidos. Ao mesmo
tempo remete para o impacto que a visão do mar causou a seus olhos de pernambucano
nascido e criado na interiorana São Bento do Una.
Sua primeira visão concreta do mar na casa de uma
tia na rua do Sol, em Olinda, era a partir de um beco, uma perspectiva estreita. "O
mar é muito menor que o açude velho de São Bento!", reclamou com a mãe que o
levou pela mão até a praia para a epifania total.
Um recente encontro com Dorival Caymmi na orla de
Copacabana o despertou de novo para o tema que umedece a maioria das faixas deste De
janeiro a janeiro.
"Mas eu não estou parado, tenho umas 300
composições", exagera antes de abordar as oito inéditas do CD, a começar pelo
aromático Flor de tangerina, composto há um ano num assobio (que ele manteve na
gravação) nas entrequadras de Brasília.
Ele define a composição como "um xote com
pinta de fado e jeito de samba-canção". Mesmo sem ser adepto do video-clip, sua
parceria com Herbert Azul o coco Vai chover já nasceu roteirizada.
"Imagino uma grande trovoada com muita gente
dançando debaixo da chuva abençoada", decupa. Destaque no clip para "uma
mulher linda com os cabelos e vestido molhados delineando as formas do corpo", que
ninguém é de ferro.
Outro coco, este praieiro, Pra embalar você
"baixou" no meio das gravações de seu anterior Forró lunar. Saiu de
improviso, letra e música num só impulso.
Já o belo e noturno maracatu Triste comédia
(reparem a introdução percussiva) sem qualquer instrumento harmônico foi arquitetada no
estudio como ponte no enredo para o célebre frevo Vassourinhas que a imaginação
(na versão com letra) de Alceu transportou para as águas.
Até porque o seguinte Pirata José (também tramado
no estúdio) desembarca numa nau, em pleno carnaval de Olinda à procura de uma tal Maria
das Dores.
E segue o enredo, Nas asas de um passarinho
(parceria dele com Don Tronxo) , crivada do flauteio de pífanos, continuação da saga do
pirata com referências aos fenômenos musicais locais, coco de roda, maracatu e
cabocolinhos.
E tudo acaba fervendo na carnavalesca faixa título,
orquestração de Mestre Duda, sintoma da arte diversificada de Alceu.
"Quase sempre os artistas tem um estilo único,
mas eu sou plural", proclama ele entre desculpas por falar em causa própria. E
enumera as facetas de astro dos forrós juninos, dos shows para platéias de rock (quebrou
tudo no Rock In Rio), espetáculos "clássicos" voltados para um público mais
cult e o irrecuperável folião, descendente dos Irmãos (Raul e João) Valença, autores
do frevo Mulata transformado por Lamartine Babo no clássico atemporal O teu cabelo não
nega.
"Eu gravei os maiores sucessos do carnaval de
Pernambuco dos ultimos anos", estufa o peito com razão. Na lista, entram Bom
demais, Me segura senão eu caio, Voltei Recife, Bicho maluco beleza,
Diabo louro, O homem da meia noite, Beija-flor beijando a flora, Maracatu,
Bloco de saudade, Roda e avisa.
Pelo andar do carro alegórico, pode acrescentar De
janeiro a janeiro à pilha. E o CD do Alceu Valença ,trintão de carreira, ao pódio
dos astros cuja arte cintila cada vez mais, burilada pela passagem do tempo.
(© Revista Atitude)
| Entrevista com Alceu Valença |
| Alceu Valença, aos 56 anos, comemora
trinta anos de carreira, lançando De Janeiro a Janeiro, seu 26º CD. Tantos trabalhos depois, milhares de espetáculos realizados
Brasil afora, com milhões de espectadores no currículo, ele está sentado em torno de
uma piscina no bairro paulistano de Alto Pinheiros quando começa a fazer uma livre
pensata sobre MPB, poesia, companheiros de viagem enfim, sobre a vida de criador. |
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| Bom, desde o começo,
Alceu... |
| Quando eu vim para o Rio de Janeiro, em
1970, eu não tinha certeza do que eu iria fazer naquela cidade, ou seja, se seguiria a
carreira musical, mesmo porque eu não tinha certeza do meu talento para música a ponto
de me profissionalizar. No Recife eu tinha participado e tinha ganhado diversos festivais
universitários, inclusive em um deles eu classifiquei três músicas para a final. Mas eu
mesmo achava minhas próprias músicas meio medíocres e dizia: como eu vou viajar para o
Rio e seguir uma carreira dessas, de cantor?. Além disso, no Recife, eu me dividia. Eu
fiz Direito, me formei, mas não consegui trabalhar porque eu saí fora na primeira causa
que apareceu no escritório... |
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| Por que? |
| Porque era um escritório de cobrança e
chegou um gari da Prefeitura dizendo que não podia pagar as prestações de uma
televisão que ele tinha comprado na ProLar, cliente do escritório. Eu perguntei a ele
porque não havia pagado, expliquei que caberia uma ação de execução e tal e coisa.
Ele disse que era gari da Prefeitura, ganhava uma miséria e tinha sete filhos para
"dar de comer". Aí eu refleti sobre o sistema, vieram à minha cabeça Marx,
Engels, que não tinha lido, mas de tanto ouvir citações no movimento estudantil
terminei pensando que dominava aqueles assuntos. Até as barbas de Sierra Maestra passaram
pelo meu pensamento - eu acreditava nas utopias - e revolucionariamente falei: "olha,
não vou ser eu que vou lhe cobrar, vá embora e não pague mesmo". Encerrei minha
carreira de advogado e fui ser jornalista. Consegui um estágio de um ano nas sucursais
pernambucanas da Editora Bloch e do JB. Nunca ganhei um tostão. Eu estava fazendo isso e
concomitantemente terminava meu curso de Direito. Veio então uma lei de regulamentação
da profissão de jornalismo e eu dancei porque não pude ter a carteira assinada. |
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| E o que você cobria nas
suas matérias... |
| Qualquer coisa que Ricardo Noblat ou
Bernardo Ludimyr, os diretores das sucursais, mandassem. |
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| Crime também? |
| Não, crime não. Só se eu tivesse
coberto a minha própria prisão no DOPS por causa de uma farra política quando
comemorávamos a tomada do Diretório da Faculdade de Direito por José Tomaz Nonô, na
época uma liderança de esquerda. Ó tempos, ó amores. Depois eu vim para o Rio munido
de uma carta de apresentação do meu amigo José Humberto Patú, jornalista pernambucano,
verdadeiro gênio da raça que previu a Perestroyka quando nem sequer se sabia o que era
isto e que, por esta razão, foi expulso do Partidão. Cheguei com essa carta debaixo do
braço sem saber muito o que fazer. Ao chegar aqui, eu compus a "Blue Baião",
que só agora gravei e sai neste disco De Janeiro a Janeiro. Ela ficou na minha gaveta
durante muito tempo, não envelheceu porque a arte de verdade não envelhece, envelhecem
sim os subprodutos e as imitações baratas. Eu me lembro que fiz o meu primeiro disco,
com Geraldo Azevedo. A gente teve de dividir de uma certa maneira usando a seguinte
lógica: músicas antigas minhas e dele para mostrar a personalidade musical de cada um e
músicas novas mostrando um terceiro caminho, a parceria entre nós. Eu havia composto
duas músicas de chegada no Rio - uma delas era "Planetário" e a outra
"Blue Baião". Escolhemos a primeira e o "Blue Baião" foi para a
gaveta de minha memória. |
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| Você chegou no Rio sem
saber se seria músico e com uma carta de apresentação para trabalhar em algum jornal. O
que você fez primeiro? |
| Quando cheguei no Rio me lembro que fui
para uma festa na casa de um amigo, Wilson Lira, e fiquei lá tocando violão num canto da
sala. Eu sempre fui tímido diante de uma pequena platéia. Em 1968 eu já tinha cantando
no Festival Internacional da Canção, realizado em um Maracanãzinho superlotado, e não
tive a menor timidez. Quando a platéia era pequena, minha timidez se tornava gigante.
Acho que meu avô Orestes foi muito responsável pelo meu conhecimento e paixão pela
cultura do Agreste Meridional de meu Estado e ao mesmo tempo pelo meu trauma com relação
à minha capacidade de me transformar em cantor. Isso porque, quando eu era pequeno, ele
estava tocando com os amigos dele e eu fui acompanhar na percussão e não saiu muito
legal. Aí ele chamou Madalena, que era filha de Olindina e disse "Madalena, venha
cá tocar que esse menino não tem compasso não". Ou seja, ele disse que eu não
tinha ritmo. E eu fiquei com essa timidez. A família de meu pai era muito musical, mas
meu pai mesmo não era. Eu achei que tinha puxado meu pai, que não era da área... Já
meus tios eram. Daí, eu ficava pensando "puxei mesmo o meu pai. Então não posso
ser artista, tenho que ser promotor ou deputado". |
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| Mas mesmo no Rio já com
músicas no Balaio? |
| Apesar de ter colocado no Balaio três
músicas numa primeira triagem, de ter cantado no FIC de 1968, isso não significou nada
para mim porque eu não pensava em ser profissional, era uma curtição. Mas aquele meu
encontro com Geraldo Azevedo na casa de Wilson Lira foi fundamental para mim porque, de
uma certa maneira, Geraldo, um músico como Geraldo, avalizou meu trabalho. Depois da
terceira canção, Geraldo disse: "rapaz, suas músicas são muito boas". Era o
aval que eu precisava. Eu já conhecia Geraldo Azevedo de Pernambuco onde ele atuava no
Grupo Construção, ele era artista e eu não. Era um grupo de música e teatro, e ele
aparecia até na televisão. Eu sempre achei que ele tocava muito bem e ele me dizer que
eu tinha talento, que minha música era boa, serviu como um aval. Nesse momento, Geraldo
Azevedo tinha sido preso e torturado pela repressão e tinha deixado de tocar. Foi um
trauma terrível para ele, que não queria mais saber de música e se transformara em
artista gráfico. |
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| Geraldo foi preso? |
| Preso e torturado. Aí fui eu que tirei
Geraldo do baixo astral. "Vamos compor, vamos cantar. Você não pode deixar a
música. O seu caminho já está traçado." Nesse momento a gente começou a fazer
uma parceira. |
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| Então um fez bem para o
outro... |
| É. Tinha também Paulo Guimarães na
época, que veio de Pernambuco, muito talentoso, mas não aconteceu enfim. Geraldo e eu
começamos a procurar uma gravadora e acabamos encontrando uma chamada Copacabana, por
meio de Geraldo José, o legendário sonoplasta do cinema brasileiro. Ocorre que a
Copacabana tinha um problema sério de desorganização. Nós assinamos o contrato no Rio
e eles nos encaminharam para a matriz, que era em São Paulo. Evidentemente que quem pagou
as passagens fomos nós. Ao chegar em São Paulo eles nos devolveram para o Rio e ficamos
nesse lengalenga durante quase um ano até que um dia, quando estávamos mais uma vez nos
escritórios da Copacabana na Avenida Paulista tocando violão para ver se agradávamos
aos contínuos e secretárias, surge na sala Cesare Bievenutti, que por acaso nos ouviu,
se empolgou e nos acolheu na casa da sua mãe, na Rua Pamplona. Cesare foi uma espécie de
patrono para nós, ele pediu à gravadora para produzir o disco da gente. O disco teve uma
boa produção de Rogério Duprat, com arranjos para orquestras de Rogério. O que nos
faltava era tempo de estúdio, mas Cesare era amigo do técnico de som chamado Índio, que
deixava a chave do estúdio escondida embaixo da lata do lixo. Fizemos um disco bacana.
Foi ótimo. |
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| Bastou essa convivência
inicial com Geraldo Azevedo e essas suas dúvidas sobre a qualidade de sua música
sumiram? |
| Depois eu percebi que a minha música
estava no nível das coisas que estavam acontecendo aqui. Eu não era e não sou aquela
pessoa orgulhosa do trabalho, mas acho tudo muito natural. A minha música é a minha
cara, assim como a de fulano é a cara dele. Eu não vejo grande superioridade ou
inferioridade em relação a nada. |
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| Você já tinha um
pensamento de tudo o que você queria fazer de música nessa época? |
| A questão foi a seguinte: quando eu
estava dentro da universidade eu fazia música de tudo quanto é estilo. Inclusive eu
tenho uma música, que era de meu tio Rinaldo, chamada "Candango Sofredor". Isso
foi em 1966-1967, quando ele voltou de Brasília e trouxe um choro instrumental. Acabou
indo almoçar lá em casa. Logo em seguida, eu ia para a Faculdade. Coloquei uma letra em
dez minutos falando de uma limitação do tempo. Naquela época eu compunha choro, samba e
tudo que é estilo. Aliás, eu não tinha nenhum estilo. Eu participei do Festival
Internacional da Canção com um acalanto. No mesmo festival, ganhou um outro acalanto,
"Cantiga para Luciana", e a minha era "Acalanto para Isabela". Era uma
música que eu fiz para dar de presente para a filha de um primo que havia nascido. Eu
ainda estava fazendo estágio no escritório de advocacia. Ou seja, eu compunha em todos
os estilos etc. e tal. Até que eu fui para os EUA fazer um curso de verão, participar de
um programa da AUI, Associação Universitária Interamericana. Eu fui para Harvard com
várias pessoas que hoje são lideranças aqui no Brasil. Eles queriam fazer uma lavagem
cerebral em nós, todos de esquerda. Era um programa que mostrava o american way of life.
Eu fui para os EUA, mas não estava muito interessado em participar daquelas conferências
de Nelson Rockfeller. Interessei-me muito mais em me encontrar clandestinamente com
militantes dos Black Panthers, ou ir para as praças de Boston que tinham um movimento
hippie muito forte - era a época de Woodstock -, e eu chegava na praça e ficava tocando
o meu violão. Um dia, eu lá na praça com os hippies, inventei de tocar uma música que
meu avô tocava. Um coco, e as pessoas adoraram esse ritmo. Daí eu pensei: "por que
o Brasil não gosta disso, só gosta das coisas dos americanos sendo que eles nos adoram
quando têm oportunidade de conhecer?". Quando eu voltei dos EUA, a minha música
mudou; ela começou a ser uma coisa contemporânea, na medida em que ela usa instrumentos
pop, mas é absolutamente ligada a uma raiz. Os críticos não entenderam onde estava a
minha música. Os meus rifes de guitarra quase sempre são absolutamente brasileiros.
Enquanto o povo pensava que eu fazia rock, pop, o diabo a quatro, Luiz Gonzaga, no ano de
1984, assistiu ao meu show, foi ao camarim e definiu melhor do que todos: "o seu som
é de uma banda de pífanos elétrica e a guitarra parece uma rabeca" derrubando
tantas teorias que procuravam localizar de onde vinha o meu som. As pessoas confundiram
isso aqui no Brasil. Foi assim no Recife. Uma vez eu fiz um show e as pessoas que estavam
no movimento tropicalista diziam que eu era um careta... |
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| Por que? |
| Quando eu peguei uma guitarra elétrica
para botar no meu som, eu a usei a serviço da minha música e não imitando ninguém. A
segunda coisa era que eu não tinha parâmetro nenhum, eu não fui um cara que ficasse
cultuando Beatles ou Rolling Stones. Eu não cultuei ninguém. Eu vim cultuar Luiz Gonzaga
depois, quando eu entendi a importância dele dentro da minha formação. Desde menino eu
gostava da música do Velho Lua como também gostava das toadas dos aboiadores. A música
para mim não tinha um dono, estava no ar. O que eu quero dizer é que a música de Luiz
Gonzaga, em si, eu conheço antes do próprio Luiz. A música dele é fruto dos
cantadores, dos emboladores, dos cordelistas, dos violeiros etc. Luiz Gonzaga, somado a
seu estilo e invenção, pegou isso e resolveu essa questão. Eu conhecia todos esses
elementos através de meu avô... |
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| Isso tudo na sua vida lá
em São Bento? |
| Tudo lá, apesar dos meus parentes de
São Bento não gostarem tanto das músicas da região. Meus tios eram seresteiros. Eu
aprendi essas histórias contra tudo e contra todos. O meu avô materno era eclético e
até mesmo urbano apesar de morar em São Bento. Ele tinha um aparelho de som bom para
época e tocava lá sons de todas as direções. Ele gostava de Carlos Galhardo a Orlando
Silva, passando por Luiz Gonzaga. Já o meu avô paterno era uma figura que a minha avó,
mulher dele, dizia que tinha um espírito atrasado. Isso porque ele gostava da terra dele
e dos mitos de lá. Minha avó tinha um gosto mais clássico - modinhas, valsinhas, essas
coisas. Então, eu tinha muito mais possibilidade de ser um cara direcionado pelo gosto de
meu avô materno e da minha avó paterna. No fundo, terminei gostando mais das coisas do
Velho Orestes, uma pessoa que amava sua terra e sua cultura. O engraçado é que meus
irmãos nunca se ligaram muito na cultura interiorana. Eram mais finos, mais urbanos. |
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| Essas coisas que seu avô Orestes
gostava - que no fundo eram a cultura popular nordestina e pernambucana - sempre foram
muito pouco valorizadas no Brasil. Aqui sempre se quis ser urbano e posteriormente europeu
e depois americanizado. A própria fala da sua avó já tinha ali um preconceito de chamar
seu avô de figura atrasada... |
| Pois é, a América já vinha nos
colonizando e depois do pós-guerra a coisa acelerou, através de Hollywood e da
indústria fonográfica. Orestes me salvou, mas eu sou um animal em extinção. |
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| Como era o seu
relacionamento com essa cultura popular? Seu avô te levava para ver cantadores, violeiros
etc. |
| Ele nunca pensou nisso, mesmo porque ele
dizia que não gostava de criança (risos). Teve 12 filhos, mas dizia que não gostava de
menino. Ele não passava a mão na minha cabeça para nada. Mas eu achava romântica a
figura daquele cara. Eu era pequeno e não entendia muito, mas admirava os gostos dele.
Cavalos, cordéis, histórias de cangaceiros. Eu adorava ir para feira, sozinho, menino de
quatro anos e meio, ver os caras tocando coco de embolar com pandeiro, olhar a sanfona
pé-de-bode, com oito baixos. Tudo aquilo eu achava o maior barato. Eu nunca contava isso
para ninguém lá de casa porque ninguém se interessava por isso. Quando eu fui para o
Recife, eu tinha saído de São Bento como um menino matuto que chegou na cidade grande
para estudar em um bom colégio, meu pai foi deputado e agora era procurador do Estado. Eu
tive até de esconder um pouco a minha cultura quando era adolescente. Apesar do mesmo
Estado, o sotaque são-bentense era estranho para o recifense. As pessoas gozavam como o
diabo do meu jeito de falar. Meu sotaque sempre foi bombardeado. Sempre me senti
pau-de-arara. Na verdade, o pau-de-arara do pau-de-arara. Mas isso teve um lado bom porque
eu adquiri um eterno olhar de turista onde morei. Mesmo no próprio Recife. Eu moro há 30
anos no Rio de Janeiro, por exemplo, e nunca me acostumei. Eu sempre sou estrangeiro lá,
apesar de achar que a cidade é maravilhosa mesmo. Já dava tempo para eu ser carioca, mas
não sou um carioca, assim como não sou um recifense. Eu sou um são-betense, sou de São
Bento. Agora, outra cidade que eu me relacionei muito bem, nesse sentido cultural, foi
Olinda, mas isso porque ela é o interior do Recife. |
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| Além de você conhecer a
cultura nordestina, você sempre teve uma relação muito forte com ela... |
| Conheço pela vivência, vivência
total. Vivenciei a cultura nordestina toda porque eu nasci em São Bento do Una e lá eu
encontrei a cultura ibérica, mourisca, que está no agreste, no sertão. Depois, quando
eu fui para o Recife, eu vivenciei a cultura litorânea, pernambucana, negra, que é outra
cultura, a dos maracatus, cirandas etc. e tal. Um dos maiores mestres de ciranda eu
conheci pessoalmente, o Mestre Baracho. Na frente da minha casa, na rua, passavam todos os
blocos que iam para o carnaval do centro da cidade. Então, eu digo que a minha rua era
como se fosse um "carnavalódromo". Quando se fala em cultura nordestina, eu
queria dizer o seguinte: a cultura nordestina não é só nordestina. A cultura nordestina
é a mistura das culturas africana, ibérica, espanhola e portuguesa. Sendo assim, é
mourisca, porque os árabes estiveram lá e influenciaram Espanha e Portugal. Quando eles
saíram de lá, a cultura deles ficou enraizada. Quando nós fomos descobertos, Portugal
era muito mourisco e isso veio para cá. A cultura africana também veio, a indígena já
estava aqui. Depois as culturas francesa e inglesa entraram no caldeirão e, finalmente, a
americana, que influencia o mundo todo. Acontece que a cultura americana que vem através
da indústria cultural chegou propondo o descartável e isso é péssimo porque se perdem
o fio histórico, a solidariedade e a união que a cultura quando vem do coração
propõe; enfim, a tribo. Quando falo "tribo" as pessoas podem vir a pensar que
eu sou nacionalista, mas muito mais nacionalistas são os americanos que impõem sua
música e seu paladar cafona, com gosto de plástico, ao mundo. Xenofobia? Não. Propomos
equilíbrio. Essa conversa de antropofagia cultural é válida até o momento que existe a
possibilidade de você ser diferencial, de você continuar com a sua identidade, no
momento em que os elementos culturais são muito mais de lá do que de cá. Nós é que
fomos comidos. Por isso eu nunca propus o fechamento dos ouvidos para as coisas que vêm
de fora. Proponho um equilíbrio nas relações. O grande problema é que a maioria dos
secretários de cultura não conhecem a cultura brasileira, as rádios são manipuladas
por uma promoção direcionada pela indústria do disco e a cultura não é tratada como
uma manifestação da alma livre e desconectada dessa mesma indústria. Hoje no Brasil as
pessoas não sabem mais tocar violão com todos os dedos, ficam com uma palheta tocando um
"xengo dengo" americanóide. Algumas pessoas que tiveram oportunidade citam
Jackson do Pandeiro. Certa vez num hotel aqui em São Paulo vi um camarada tocando uma
harpa paraguaia... Bicho, é uma competência incrível o paraguaio tocando sua harpa, mas
ele nunca vai acontecer. Seu som jamais será incorporado à nossa cultura. O country,
sim, terminou comendo o sertanejo. Comeu o seu som, mudou o cinturão, mudou suas botas,
mudou suas calças, camisas, não sei se cuecas, e ainda na cabeça meteu seu chapelão.
Da música importada eu gosto do rock, do blues, que são músicas viscerais, saem da
alma, do coração. É claro que os americanos também têm o seu coração, mas o que
pega mesmo é o descartável, o lixo cultural que nos é imposto. Propor que a cultura
seja aberta eu acho ótimo, mas é necessário que a cultura do mundo se abra para nós
também. É como a questão dos acordos que os americanos fazem: até o ponto em que os
favorecem está tudo bem. Quando toca de leve na sua economia, os acordos não são
cumpridos. Eles têm um cuidado tão grande com a sua cultura que inventaram essa tal de
"world music" para significar o resto, a sobra, as migalhas. O Brasil devia ter
uma política cultural que mostrasse a sua particularidade, o seu jeito de ser, sua
sonoridade. Aí sim começaríamos a ser cultuados. Olha a Jamaica. Quem lê Jamaica lê
reggae. Quem lê Brasil lê country? |
|
| Fale-me sobre o diferencial
e a modernidade. |
| Ser moderno é ter uma indústria que
promova o crescimento, bem-estar, bens de consumo. Ser pseudomoderno é aceitar as
indústrias que poluem e agridem a natureza. Não estou promovendo o regresso à roça,
mas há que se mensurar os benefícios disso tudo. Agora também é preciso procurar
entender a seguinte questão em termos de arte: a mistura da gente só tem sentido na
medida em que continua tendo um diferencial. Na medida em que o produto artístico
continue sendo uma invenção. Você perde o diferencial, ter uma marca, quando perde suas
referências. Em música, por exemplo, você começa a fazer um discurso sonoro do que já
foi feito. Passa a ser uma cópia, um gesto comandado. O hip hop, por exemplo, é bacana
porque ele expressa o sentimento de uma classe, um segmento da sociedade que está sendo
colocado à margem dessa sociedade. Para expressar essa revolta, contudo, essas pessoas
usam outra linguagem que não é deles e perdem o seu referencial. Se fossem um ou dois
casos, tudo bem. O problema é que essa expressão tomou conta do morro e das periferias.
O samba não é dança e música? Por que não se exprimir através do samba? Faça uma
coisa, mas também faça a outra. Estou cansado de ver clipes absolutamente copiados. É o
cara que está no pátio da prisão, o barulho de uma grade que se fecha, depois o cara
com uma namorada andando em um Cadillac pelas ruas da cidade. Estamos no Harlem ou em um
bairro da periferia do Recife? Na verdade, dizer isso é uma coisa perigosa porque daqui a
pouco começam a me taxar de careta e reacionário. Isso porque você tem de pensar de
acordo com a fórmula que a cultura pop americana nos impõe. |
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| É nesse momento em que o
mau gosto começa a imperar? É preciso que o dinheiro eleja somente uma "má
arte"? |
| A questão não é a arte ser boa ou
má. Inclusive é até bom que exista um espaço para a arte que a gente não considera de
qualidade, pois existe público para isso. É preciso que exista uma política cultural
plural. Afunilaram nosso ponto de vista. A indústria do disco acabou virando o que Dino
Braia chama de monocultura. Ou seja, um dia será o country-sertanejo, no outro o pop
descartável e assim por diante. Afunilaram tanto que o pirata chegou e quase destruiu a
indústria. É o feitiço virando contra o feiticeiro. |
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| E a poesia da sua música
que traz o seu conhecimento de métrica, mas tem muito da poesia dos cantadores... |
| Minhas circunstâncias foram essas: em
São Bento do Uma eu conheci a cultura popular. Esta vem da cultura clássica, da
portuguesa, da grega...Depois disso, o que eu aprendi foi de ouvido. Na universidade, eu
conheci os poetas urbanos, os poetas de gabinete, por assim dizer. Eu li Camões, Pessoa,
Castro Alves, Augusto dos Anjos, Bilac, Drummond, João Cabral de Melo Neto. Passaram
todos pelos meus olhos. Aconteceu que em um dado momento eu misturei tudo, o urbano com o
rural, a metrópole com o suburbano, e isso serve como base para a minha poesia, meu
estilo. |
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| E a parte musical como
surge? |
| Isso se dá de várias maneiras. Quando
eu estou na fase de gostar de violão, fico tocando no meu canto lá em Olinda ou no Rio
de Janeiro, mas houve épocas que eu enjoei do violão. Só que quando eu estou tocando
fatalmente vem uma música. Mas tem uma necessidade também. Eu penso um disco da primeira
à última música como uma coisa integrada, mesmo que as pessoas não notem isso, eu
viajo dessa maneira. Por exemplo, eu botei uma letra em "Vassourinhas", aquele
frevo de Pernambuco, que fala de um pirata que chega para brincar o carnaval em
Pernambuco, e coloquei no novo CD. Entre essa música e um frevo que eu havia composto, eu
senti que tinha que haver uma outra música para servir de ponte sonora para se chegar ao
Carnaval. Daí compus no estúdio a canção "Pirata José". Eu seleciono o
repertório dos CDs que gravo pescando músicas do baú, que já eu tenho umas trezentas,
entre atuais e canções que faço no estúdio. No fundo procuro criar uma história em
cada disco, mesmo que seja só para mim. |
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| Você falou desses seus
momentos... Mas alguma idéia te persegue? |
| Tudo o que faço é através do impulso.
Depois sou capaz de racionalizar a coisa. Terminando uma música, eu posso até - depois
de um tempo de maturação - ver de onde é que veio aquilo. Quando eu compus "Na
Primeira Manhã", eu citei "O Conde e o Passarinho", crônica de Rubem
Braga. Mas foi absoluto impulso. Depois eu lembrei de onde havia tirado a expressão. O
cronista de Cachoeiro de Itapemirim fez minha cabeça. |
|
| Mas você mexe na letra
depois da música pronta? |
| Às vezes, mexo. Tem umas coisas que
saem direto, mas às vezes tem uma palavra que não me agrada...Eu fico lapidando. As
palavras têm som e eu gosto da sonoridade delas e de brincar com isso. |
|
| Fale sobre este seu novo
disco. |
| Ele se chama De Janeiro a Janeiro. E é
o seguinte: eu tenho tantos projetos - tem um chamado Mourisco que eu ia fazer há quatro
anos e não fiz. Depois tem um de forró que eu acabei não fazendo. Eu faço vários
tipos de música. Faço um show clássico, um com uma sonoridade mais pop, faço um show
de carnaval com maracatu e frevo, shows absolutamente diferentes. A minha música é muito
diversa e eu tenho diversos projetos. Agora, quando eu faço um disco, ele tem de ter um
timbre, tem de ter uma historinha que eu invento para mim mesmo etc. Nesse disco agora,
dos 30 anos, eu procurei fazer um disco que tivesse canções novas minhas para não ficar
uma coisa estática. E algumas músicas antigas que nunca foram tão valorizadas pelas
gravadoras, que não saíram em CD. Por exemplo, tem uma música chamada "Quando Eu
Olho Para o Mar", que é de um disco de 1982 que nunca saiu em CD. Ou seja, só quem
a conhece é quem tem o vinil. "Balanço de Rede" é do Estação da Luz, mas eu
acho que esse arranjo novo que eu pensei caminhando no Leblon, pela beira mar, virou um
xote surfe. A própria "Estação da Luz" eu depurei, a batida antiga dela é de
um jeito que eu não faria hoje. Tem canções como a "Blue Baião", que eu fiz
assim que cheguei no Rio de Janeiro. |
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| E sobre o conceito do
disco. |
| É de um cara que vai para uma cidade
grande, chega no Rio e sente saudade da família e daí canta uma música triste, um
blues-toada, num quarto em Ipanema. Depois, ele começa a andar pelas ruas da cidade. Daí
desenrola-se uma procura dentro da cidade grande. |
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| Você acha que esse disco
traz uma síntese de seus 30 anos? |
| Eu procurei mostrar dentro desse disco
diversas faces minhas. Eu faço muitas músicas para o mar e isso está neste disco. A
minha adolescência em Recife e a minha estada no Rio são reflexos de toda minha
vivência. E sonoramente eu procurei fazer isso também. |
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| A gente pode dizer que
você é um cara bem-sucedido na música brasileira. Você tem seu trabalho e é sucesso
de crítica e público. Agora, olhando para trás, tem alguma coisa que você deixou de
fazer, algo que você tenha deixado escapar? |
| Não. Eu não olho muito para trás. A
minha questão é seguir em frente. Não olho muito para o que não foi feito, não me
lamento muito pelos amores que eu perdi, senão eu não teria outros. |
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| Dá para perceber que o seu
entusiasmo é o mesmo... |
| Agora ainda mais. Essa questão de fazer
esse disco assim para mim é gratificante e é algo que eu queria fazer há um bocado de
tempo. Eu procurava uma maneira de levar o meu produto em locais nos quais os CDs não
chegam mais. Realizei centenas de shows no interior onde não existem mais lojas de
discos. Gravando meu próprio CD por meio da Tropicana eu teria mais mobilidade para levar
essa música a esses rincões. Além do mais eu vinha gravando no Estúdio do Tempo uma
infinidade de músicas de minha autoria. O estúdio é vizinho da minha casa. Um dia me
flagrei gravando de pijamas. Até que surgiu a possibilidade de meu disco sair
distribuído pela revista. Foi a fome com a vontade de comer. |
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| Esse trabalho novo seu, De
Janeiro a Janeiro, é fruto da sua total inspiração? Não tem ninguém dando palpite? |
| Sim, mas dentro da grande indústria
eles nunca chegaram a me impor nada. Chegaram a dizer que o caminho não era aquele. O meu
caminho quem sabe sou eu. Eles diziam que aquela canção não comunicava. Esses assuntos
são tão desagradáveis porque eu sei o que comunica.Afinal, sou eu que estou no show e
vejo a reação das pessoas à minha música. |
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| Você já tocou para mais
de um milhão de pessoas ao vivo durante este ano. Só que você não está quase tocando
em rádio...Há uma dissonância cognitiva entre a indústria e a população, não? |
É lógico que existe. Só que o grande
problema é que as pessoas da indústria, sem querer agredir ninguém, sempre estão
atrasadas do movimento. As pessoas ficam encasteladas em seus gabinetes e não vão até
onde o povo está. Aí, através de promoções, ficou mais fácil entrar num segmento.
Por isso fica parecendo que só há um tipo de música, mas o Brasil é sonoramente muito
rico e tem mercado para todos.
Eu me lembro daquele festival que você colocou "Coração Bobo"... |
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| Foi desclassificado. |
Pois é. E o José Nêummane
Pinto escreveu dizendo que a sua música tinha sido desclassificada e que com certeza - ou
quase toda certeza - aquele festival não ficaria na memória, mas sua música sim.
"Coração Bobo" foi desclassificada. Logo após eu a gravei no meu primeiro
disco pela Ariola, tocou bem no rádio e depois desapareceu. Quem ouviu foi passando de
boca em boca e o boca a boca tornou a canção eterna. Zé Nêummane tinha razão: o que
é consistente só precisa de um empurrãozinho. |
(© Revista Atitude) |
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(arquivo NordesteWeb)
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