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03/12/2002
No CD 'Mestre Capiba por Raphael Rabello e seus Convidados' - com participações de Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Paulinho da Viola - , o violonista presta uma homenagem ao compositor pernambucano ressaltando uma faceta pouco conhecida da sua carreira: a de seresteiro Nenhum brasileiro medianamente informado - seja de que região do País for - deixará de identificar na palavra Capiba uma espécie de senha que abre as portas para um gênero rico e fundamental na Música Popular Brasileira: o frevo pernambucano, garantia de animação em qualquer baile carnavalesco, do Oiapoque ao Chuí. Capiba está para o frevo como Noel Rosa para o samba carioca, Pixinguinha para o choro suburbano, Rita Lee para o rock paulista e Luiz Gonzaga para o baião sertanejo. O que poucos brasileiros que não nasceram no Nordeste natal do maestro sabem é que sua obra transcende ao gênero carnavalesco e ao próprio carnaval: de sua lavra são algumas das mais lindas valsas e canções de nosso repertório musical. O repertório dos seresteiros nordestinos está repleto do florilégio de apelos à mulher amada que o maestro compôs. Uma delas, 'Maria Bethânia', gravada por Nelson Gonçalves, caiu no gosto do menino Caetano em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, a ponto de ele convencer os pais - Zeca e Canô - a darem o nome da musa à irmã que acabara de nascer. Maria Bethânia, a menina batizada em homenagem à musa, tornou-se uma estrela maior da MPB e, nessa condição, foi convidada pelo violonista Raphael Rabello para pôr sua voz em outra obra-prima do mestre, 'Cais do Porto'. A gravação faz parte da coletânea 'Mestre Capiba - por Raphael Rabello e seus convidados', que acaba de sair a lume graças ao trabalho minucioso de familiares do violonista, que trataram com carinho e competência do acabamento do que ele havia produzido até ser surpreendido pela morte. Cada faixa recebe um tratamento especial Trata-se de uma obra de gênio para gênio. Com esmero de joalheiro de sons, Raphael Rabello cuidou de cada uma das 11 faixas como se fosse a única e o resultado é esplêndido. Falta "Maria Bethânia" na coletânea (a morte surpreendeu Raphael antes de ele convidar Roberto Carlos para cantá-la), mas ninguém há-de sentir sua ausência depois de ouvir Chico Buarque entoando "Recife, Cidade Lendária", Paulinho da Viola trauteando "Valsa Verde", clássico feito em parceria com Ferreira dos Santos, e sobretudo Gal Costa emprestando seu timbre ao belíssimo casamento de melodia e letra de "Resto de Saudade". O time, já está visto, é impecável: além dos intérpretes acima citados, Raphael Rabello, que os acompanhou ao violão e solou uma versão instrumental de "Valsa Verde", convocou Caetano Veloso ('Olinda, Cidade Eterna'), Alceu Valença ('Igarassu'), João Bosco e Paulo Moura ('Mesma Rosa Amarela') e Ney Matogrosso ('Serenata Suburbana') para dar voz às jóias musicais do mestre. Merecem menções especiais Milton Nascimento que, ao cantar 'Sino, Claro Sino' (rara parceria do maestro com um dos maiores poetas brasileiros do século 20, o recifense Carlos Pena Filho), registrou um dueto com o próprio violonista. Raphael nunca pretendeu ser cantor em sua carreira. Mas, para facilitar a vida de seus convidados, registrou cada canção em sua voz para lhes servir de guia. Milton, com a generosidade de quem tem na própria voz um dos mais bem dotados instrumentos orgânicos da música internacional, teve a idéia de deixar o registro dessa voz-guia na gravação final do CD. A outra menção especial vai para Claudionor Germano, nome mitológico do carnaval de Recife, que, acompanhado por um coro, se encarregou de interpretar o 'Pot-Pourri de Frevos', com que Raphael resolveu encerrar a coletânea, como se fosse uma espécie de assinatura. Algo do gênero: "olhe, querido ouvinte, o homem que escreveu essas sensíveis valsas e canções de amor era o mesmo que pôs fogo nos bailes carnavalescos que fizeram a alegria de várias gerações". Capiba morreu nonagenário em 1998, três anos depois do desaparecimento de seu fã instrumentista, cuja carreira foi brusca e tragicamente interrompida pela Indesejada das Gentes quando muito ainda podia legar para o público de MPB de bom gosto que ainda existe e resiste pelo Brasil afora. O CD - cuja capa reproduz em vermelho o sorriso aberto e franco do homenageado desenhado por outro gênio, o artista plástico Rubens Gerchman, e cuja contracapa mostra uma foto em preto e branco do músico absorto desempenhando o que de melhor sabia fazer na vida, tocar violão - é a história de um encontro de gerações no lugar comum do amor pelo belo. Raphael Rabello, segundo seu irmão, o jornalista Ruy Fabiano, escreveu no texto do folheto, tinha em Capiba uma das raízes mais profundas de sua formação. E o maestro encontrou no fã genial o instrumentista perfeito para mostrar ao Brasil de hoje a arte pouco conhecida que faz dele o "Caymmi de Pernambuco", como o classificava o violonista. (JOSÉ NÊUMANNE)SERVIÇO - 'Mestre Capiba - por Raphael Rabello e seus convidados'. CD em homenagem ao compositor pernambucano. Gravadora BMG. Preço médio R$ 20 (© Jornal da Tarde)
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