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09/12/2002
O maior poeta vivo do país apresenta leitura de obras de artistas no inédito "Relâmpagos", que sai em 2003 CASSIANO ELEK MACHADO Desses poucos que conhece a palavra por dentro e por fora, como poeta e crítico que é, Ferreira Gullar, 72, pinçou o vocábulo justo para batizar seu próximo trabalho. "Relâmpagos", seu primeiro livro de ensaios em dez anos, que a Cosac & Naify lança no início do ano que vem, reúne textos sobre arte rápidos, claros e intensos como raios em noite de tempestade. Escritos ao longo de quase 50 anos, os quase 50 ensaios propõem um passo novo na trajetória do autor de trabalhos marcantes na crítica de arte, como o "Manifesto Neoconcreto" (1959) e os livros dos anos 60 "Cultura Posta em Questão" e "Vanguarda e Subdesenvolvimento" (recém-reeditados pela José Olympio). Se relâmpagos nascem no choque de duas nuvens, estes "Relâmpagos" são filhos do embate do ensaio e da poesia. "São ensaios que ficam no meio do caminho entre a crítica e a poesia", diz a voz barítona de Gullar. Os escritos, quase todos inéditos, não seguem uma ordem rigidamente cronológica. O volume começa com ensaio sobre o pai dos móbiles, Alexander Calder (1898-1976), "um de meus prediletos", e termina com análise da "Casa da Flor", construção em São Pedro da Aldeia (RJ) do arquiteto "naif" Gabriel Joaquim dos Santos (1892-1985). Nessa trajetória, Gullar vai cruzando com ensaios que expressam "vivências" marcantes, "deslumbramentos poéticos" que teve com obras específicas de boa parte dos nomes do panteão artístico dos últimos 200 anos. Os brasileiros ganham quase metade dos "clarões". São temas de ensaios desde três expoentes da chamada arte do inconsciente -um deles, Emygdio de Barros, tratado como "um dos raros gênios da pintura brasileira-, até neoconcretistas como Franz Weissmann e Lygia Clark e o amigo Oscar Niemeyer ("ele nos ensina que a beleza é leve"). Para cada texto, o livro traz reprodução da obra sobre a qual ensaia Gullar. "São observações inteiramente originais as que reúno neste livro. Em alguns momentos você apreende coisas que há de essencial no artista", fala o ensaísta-poeta, afastando a modéstia. A modéstia também sai da sala quando o assunto é a poesia. Desde a morte de João Cabral de Melo Neto, em 1999, Gullar é classificado como o poeta número 1 do país. "É engraçado a coisa de o maior poeta vivo. Daqui a pouco vou morrer e vai ser outro o primeiro. O que sempre lembro nessa coisa é uma resposta dada pelo Drummond quando vieram lhe perguntar se ele era o maior poeta vivo. "O sr. mediu isso como?'", lembra risonho. E o criador de "Poema Sujo" e de "Luta Corporal", marcas da poesia nacional, anuncia que está produzindo bastante, de novo. Depois de ter enfrentado seca poética de 12 anos, de 1987 a 1999, ele diz que está de volta ao Reino da Poesia. "Outro dia fiz seis." Mas primeiro vêm os "Relâmpagos". E para que não se desafie a natureza, e cumpra-se a idéia de que relâmpagos procedem trovões, Gullar também faz barulho. Em entrevista à Folha, em seu apartamento em Copacabana, acompanhado do siamês Gatinho e das falsificações que pinta de Mondrian e Léger, o ensaísta fala mal das vanguardas, chama "Ulisses" de James Joyce de satânico e diz que "Lygia Clark ao colocar fios na boca e ficar tirando vira só sensorialidade", em "niilismo típico da vanguarda". (© Folha de S. Paulo) Livro reúne textos que "pegaram na veia" de Gullar Em suas análises curtas, poeta e ensaísta reafirma na obra a necessidade de fazer uma forma forte da arte DO ENVIADO AO RIO Folha - Os artistas de "Relâmpagos" são seu cânone ou são os artistas sobre os quais o sr. acredita ter feito melhores análises? Ferreira Gullar - Acho que uma coisa é
ligada à outra. Você sente quando escreve algo com muita identificação. O texto que
pega na veia é aquele que reflete que a obra te pegou na veia também. Não fiz seleção
de meus artistas prediletos. Mas de alguma maneira os que estão no livro o são. Folha - Por que o sr. não escreveu nada sobre os modernistas brasileiros? Não te pegam na veia? Gullar - Não é isso, é que este livro
não foi escrito de caso pensado. Foi escrito pela emoção. Não fiz assim: fulano entra,
outro não. Entra quem me comoveu e me fez escrever coisas de que gostei. Folha - Em ensaio sobre Emygdio de Barros (1895-1986) o sr. chama esse interno do hospital psiquiátrico d. Pedro 2º, no Rio, de "um dos raros gênios da pintura brasileira". Quem são os outros? Gullar - A palavra gênio eu não gosto
muito de usar, não. Mas é que Emygdio é excepcional, e gênio conota uma
excepcionalidade que não está apenas no nível da qualidade da arte. Mas há artistas
que são muito talentosos. O Iberê Camargo é de um talento fora do comum. Siron Franco
também. Folha - Com seu texto sobre "Guitarra", de Picasso, o sr. volta a uma questão marcante de sua obra: "O material pode ser nobre ou pobre, não importa, mas a forma, qualquer que seja, tem que se impor à nossa visão por sua expressividade, tem que se destacar entre todas as formas pela força inusitada que só os verdadeiros artistas sabem imprimir à matéria do mundo". Não existe arte de ímpeto sem forma forte? Gullar - A emoção você tem em qualquer
situação. Mas para transformar uma emoção ou uma experiência de vida em arte é
necessário que isso ganhe forma. E aí está a originalidade da obra. Se você é
Picasso, vai criar uma forma contundente. Renoir criaria uma forma doce. A forma se impõe
por uma energia que está dentro dela. Folha - Falando em forma, por que
o sr. optou em "Relâmpagos" por ensaios tão curtos? Folha - O livro praticamente não tem citações. Citação é literatice? Gullar - Sou um leitor contumaz de teoria
artística e crítica, de história da arte. Posso dizer que ao longo de minha vida li
muito mais sobre arte do que sobre literatura. Mas só gosto de usar certos pensamentos
que são tão lapidares que ficam em minha cabeça, sobretudo frases de artistas. Folha - O livro é bastante claro. O sr. teve algum esforço por fazer algo simplificado, educativo? Gullar - Nunca penso nisso. Se você observar meus textos sobre arte, verá que são sempre muito claros. Não é que queira vender barato. É que eu procuro pensar claro. Aquilo que não está claro para mim acho que não ficará para o outro, então não embromo. Tenho lido textos sobre arte que duvido que quem fez entenda. (© Folha de S. Paulo) A ARTE NA MEDIDA DE GULLAR "A vanguarda está morta e só falta enterrar" DO ENVIADO AO RIO Leia a seguir trechos da entrevista com Ferreira Gullar. (CEM) Folha - Escrevendo em "Relâmpagos" sobre Degas, o sr. diz que a arte verdadeira é sempre nova. Existe arte verdadeira hoje? Ferreira Gullar - Existe, mas
certamente não é a arte conceitual. Eles ficam zangados quando dizemos que não é arte.
Mas o criador deles mesmo, o Duchamp, disse isso. É um artista importante, mas não me
toca. É cerebral. Costumo dizer que certas coisas meramente cerebrais são meio
satânicas. "Ulisses", de James Joyce, é uma delas. Demônio não tem afeto. É
só cérebro. A arte não, tem alguma coisa de anjo. Você faz uma obra tim, ton (imitando
sons) e diz que é arte. É nada. Há quem chame de gênio o John Cage e aquela coisa toda
da música feita de silêncio. Que gênio que nada. Vá tomar banho. Folha - E o que seriam as vanguardas de hoje? Gullar - A vanguarda está morta e
só falta enterrar. E não sou o primeiro a falar isso. A vanguarda é um fenômeno do
século 20, com um peso extraordinário na renovação das linguagens artísticas e na
revelação de novas dimensões da percepção. Mas se esgotou. Como o barroco se esgotou
e tantos outros movimentos também. Folha - A vanguarda pode ter morrido, mas existe algo de novo na arte, ou não? Gullar - A arte sempre é nova.
Não existe obra de arte que não tenha algo de novo. Mas o novo não precisa ser
explícito. Não precisa ser paletó de três mangas. Pode ter duas e ser novo. Folha - O sr. foi um dos mentores de um movimento que propunha um novo explícito, os neoconcretos. Quando o sr. fala que a arte boa é a emocional e que o conceitual não tem valor, o sr. está descartando esses artistas? Gullar - Quando falo em arte
conceitual, não me refiro aos concretos. Mesmo a Lygia e o Oiticica, na sua fase final,
fazem uma arte muito mais sensorial do que conceitual. E isso é uma questão sobre a qual
eu ainda precisaria escrever mais. O movimento neoconcreto é extremamente radical. Parte
do fim da vanguarda. Se Malevitch pinta o branco sobre o branco, Lygia chega ao quadro em
branco, no qual nem se pinta mais. Ora, se o quadro está em branco e não quero mais
pintar, das duas, uma; ou vou embora ou faço o que ela fez, que é cortar o quadro. E
Lygia foi além. Entregou-se ao experimentalismo sem limite. Colocar fios na boca e ficar
tirando vira só sensorialidade. É um niilismo típico da vanguarda. Folha - E mais uma vez voltamos à "morte da vanguarda"... Gullar - A vanguarda questiona a
linguagem e a fantasia, e esse é o grande problema dela. Ela não foi adiante não é por
acaso. É porque depois disso não é mais arte. A época moderna tem a presunção de
achar que a ciência é mais importante que o sentimento e a emoção, de pensar que a
civilização industrial ia ser uma maravilha -e se viu que não é, deu em guerra e campo
de concentração. A ciência é formidável, a medicina evoluiu, o computador é
extraordinário, mas o homem não é só isso. É sonho, é fantasia e isso tem de ser
preservado. O que faz com que se leia hoje Homero é que ele comove as pessoas. Folha - Paulo Coelho comove as pessoas, mas não é considerado pelos críticos boa arte. Gullar - Paulo Coelho é um
escritor, não há dúvida. Mas o caminho pelo qual toca as pessoas envolve outras
questões, que dependem muito menos da qualidade literária do que do que está sendo
dito. Não é Machado de Assis, claro. Mas ele é um escritor. No fim, enquanto M. Delly
vendeu milhares e hoje ninguém lembra, Baudelaire saiu com 500 cópias de "Flores do
Mal" e virou best seller. Folha - Como o sr. se relaciona hoje com seus livros dos anos 60 "Cultura Posta em Questão" e "Vanguarda e Subdesenvolvimento", recém-relançados em um volume? Como o sr. interpreta, à luz da globalização, a tese de que os brasileiros não deveriam aderir às vanguardas mundiais? Gullar - O que digo no livro é
que a arte nasce do particular. Não existe arte cosmopolita. Mário de Andrade já dizia
que o internacional é nacional de algum país. Não existe o ser universal. Ele nasce em
algum lugar, tem uma história, e a arte nasce dessa história. Uma arte que parta das
influências externas, das influências cosmopolitas não é boa. Ela pode ser absorvida e
transformada, como no caso dos neoconcretos. Folha - E como a globalização influencia esse processo? Gullar - A globalização valoriza
minha posição de valores que não são cosmopolitas, porque até para defender o seu
país, economicamente, você tem de valorizar o que é próprio dele, de sua literatura e
arte. Valéry já dizia que não descobriu nada no mundo que não estivesse no seu
quintal. Folha - E como o sr. vê hoje "Cultura Posta em Questão"? Gullar - Esse sim, é um livro um
pouco da época em que foi feito, é um livro de luta, que defende engajamento político,
desejo de fazer da arte instrumento da conscientização social. Era um erro. Folha - Hoje a arte não tem função social? Gullar - Até se pode usar, mas você fará uma arte de segunda. (© Folha de S. Paulo) Poeta ganha prêmio holandês DO ENVIADO AO RIO Ferreira Gullar está conquistando a Holanda. O poeta e escritor acaba de ganhar o Prêmio Príncipe Claus, dado anualmente por uma fundação que também leva o nome do nobre holandês. Criada em 1997, a distinção é entregue a nomes "com conquistas excepcionais no campo da cultura e desenvolvimento". O valor do prêmio é de 25 mil. (CEM) (© Folha de S. Paulo)
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