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09/12/2002
Apresentação dos Doces Bárbaros no sábado reuniu 80 mil pessoas, segundo a Guarda Civil Metropolitana PEDRO ALEXANDRE SANCHES O palco do parque Ibirapuera suportou tudo no sábado dos Doces Bárbaros, da distância emocional que Maria Bethânia, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa mantiveram uns dos outros ao dilúvio que quase afogou artistas e público já no bis, quando o quarteto cantava "Gente". Partituras voando e Gal correndo contra a chuva foram imagens inesperadas que coroaram o reencontro, após a já simpática versão de "Os Mais Doces Bárbaros", repleta de erros e desencontros de Caetano e Bethânia. O repertório seguiu à risca sem maiores surpresas, centrando-se mesmo nas canções do encontro original de 1976. Derrapada solitária aconteceu no solo de Gal, quando ela resolveu intrometer "Lanterna dos Afogados", dos Paralamas do Sucesso, dentro do repertório hippie-festeiro dos Doces Bárbaros. Bethânia, por seu turno, acertou ao trazer
para os colegas "Santo Antônio", de seu sobrinho J. Velloso, canção que
conquistou a gigantesca platéia com uma profissão de fé em Santo Antônio (Carlos
Magalhães?, podia-se provocar) contaminada de auto-ironia baiana. Foi, de fato, a única
do show todo que os quatro cantaram com igual (e grande) entusiasmo. Porque no resto eles estiveram pouco mais
que compenetrados, embora em graus variáveis. Gil destacava-se pela concentração de
regente do espetáculo inteiro, organizando o movimento e puxando a atenção de Bethânia
em todas as (várias) vezes em que ela esquecia suas deixas. Mano Caetano estava num dia esquisito.
Ultraprofissional o tempo inteiro, ainda assim não deixou de parecer mal-humorado,
distante. Talvez não se adaptasse ao tom excessivamente junino, meio Luiz Gonzaga e meio
"Refazenda", dos arranjos de Gil e de sua banda. Sobrou para Gal, portanto. Foi ela que, estando num dia particularmente inspirado, aproveitou a maior parte dos ganchos que a situação emocionante e o público disponível proporcionavam. Não só, é claro, porque ela própria foi à luta. Foi a única que enfrentou um figurino que dialogasse minimamente com o espírito hippie dos Doces Bárbaros, qual uma hippie-perua de maquiagem agressiva, quase Secos & Molhados. Concentradíssima, fazia o semblante sério compor um quadro com a roupa de furos e os olhos pintados de preto. Quando abria a garganta, os inesquecíveis agudos da doce bárbara voltavam joviais, tornando arrepiantes "Fé Cega, Faca Amolada" e, sobretudo, o jogral quatro por quatro "O Seu Amor". Foi Gal quem tomou para si a garra que podia justificar tal reencontro -o que é grata surpresa, dado o desânimo com que ela vinha se conduzindo nos últimos anos. Tentando interagir com os demais,
intimidou-se frente a Bethânia em "Esotérico" e encontrou a barreira da
rigidez de Caetano e de Gil. Um show que poderia ser histórico terminou redondo, mas não
mais que correto. Ainda assim parecia quase inacreditável ver os quatro unidos de novo,
tanta vivência junta num espaço só. Só podia chover mesmo. (© Folha de S. Paulo)
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