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Nelson Ferreira 100 Anos

10/12/2002

O maestro e compositor Nelson Ferreira faria cem anos neste dezembro de 2002

Um dos maiores compositores do País, o pernambucano é autor frevos clássicos, como série Evocação

JOSÉ TELES

   Nelson Ferreira, um dos maiores compositores pernambucanos em todos os tempos, completa um século. Nascido em Bonito, em 9 de dezembro de 1902, Nelson Heráclito Alves Ferreira, era filho de uma professora e um vendedor de jóias. Do pai, violonista amador, adquiriu o talento musical, que despontou logo cedo. Aos 13 anos, já tocava profissionalmente como pianista em cafés recifenses. A primeira composição, feita de encomenda, uma valsa intitulada Victoria, foi o início de uma obra caudalosa. É de Nelson Ferreira o primeiro frevo a chegar ao disco: Borboleta não é ave, gravada em 1923 por Baiano (Manuel Pedro dos Santos, o mesmo intérprete do pioneiro samba Pelo telefone).

   Com o frevo definido como a música do Carnaval pernambucano, as gravadoras do sudeste, cientes de um público certo e sabido, passaram a solicitar composições de autores de Pernambuco, as quais eram gravadas por artistas por elas contratados. Assim, dezenas de frevos-canção de Nelson Ferreira foram interpretados por alguns dos maiores nomes do rádio. Dedé foi lançada, em 1930, pelo embolador pernambucano Minona Carneiro, Boca-de-forno (com Ziul Matos) foi lançada pelo Coro Victor (1939), Gostosinho (seqüência do antológico frevo-de-rua Gostosão) teve gravação de Zacarias e sua Orquestra em 1951.

   Como esses discos eram produzidos para o mercado pernambucano, a música de Nelson Ferreira é muito pouco conhecida fora do seu estado. Assim como o ‘rival’ Capiba, ele optou em não emigrar para o Sudeste. Houvesse tentado carreira no Rio de Janeiro, teria certamente alcançado notoriedade nacional, a exemplo dos conterrâneos Fernando Lobo, Antônio Maria e tantos outros. Nelson Ferreira chegou a passar uma temporada na então capital da República, mais por uma conveniência do dono do cinema em que trabalhava como pianista no tempo do cinema mudo. Ao fechar o cine Helvética para transformá-lo no Teatro do Parque, em 1929, a fim de preservar um dos mais conceituados pianistas da cidade, Severiano Ribeiro sugeriu que ele tocasse em uma de suas salas de cinema no Rio de Janeiro. Nelson Ferreira apresentou-se durante cinco meses no Cine-Teatro Central, que funcionava no mesmo prédio onde ficava o lendário Café Nice, ponto de encontro de artistas e compositores. No entanto, assim que foi chamado, ele retornou ao Recife.

   O cinema falado foi o grande culpado por Nelson Ferreira ter que se sustentar dando lições de piano, até 1931, quando ingressou na Rádio Clube. No rádio, ele exercitou seu talento das mais diversas maneiras. Foi diretor artístico, produziu programas, fez musicais. Sua carreira tomaria um rumo diferente com o surgimento da gravadora Rozenblit, em 1953. Não por acaso, foi com um frevo-de-rua dele, Come e dorme, que a gravadora inaugurou sua série de 78rpm (no outro lado do disco está Boneca, de Aldemar Paiva e Capiba, interpretado por Claudionor Germano).

   Paradoxalmente, depois de ter sido cantada pelos maiores ídolos do rádio, a música de Nelson Ferreira só seria popularizada quando gravada em Pernambuco. Relançados na Rozenblit por Claudionor Germano, Expedito Baracho, Meves Gama, seus antigos frevos-canção passaram a ser realmente conhecidos e tocados em todo o Nordeste. Em 1957, a música campeã do Carnaval carioca, maior sucesso naquele ano, foi o frevo-de-bloco Evocação gravado na Rozenblit, com sua Orquestra e o coral feminino do Batutas de São José. Nelson Ferreira tentaria repetir, em vão, o feito no ano seguinte com a Evocação nº2.

   No antológico ensaio Frevo, Capoeira e Passo, Valdemar de Oliveira escreveu: “Compositor capaz de dominar qualquer dos campos, é Nelson Ferreira o que melhor consegue. Nas introduções da marcha-canção e da marcha-de-bloco (vejam-se suas Evocações) a marca justa, sem pretender introduzir nelas os matadores do frevo (que lá não cabem). Para o quê nasceu positivamente feito. E, do mesmo passo, um dos mais pessoais compositores de frevo”. Além de frevos-de-rua inovadores, Nelson Ferreira incursionou por praticamente todos os estilos e gêneros musicais, da marcha-de-roda ao jingle político, da valsinha ao bolero. Como orquestrador e arranjador, é praticamente impossível catalogar todos seus trabalhos.

   Infelizmente, seu sucesso declinou à medida em que o frevo declinava, por conta da falência da Rozenblit. Sem a gravadora da Estrada dos Remédios, os frevos não tocavam mais no rádio e não alcançavam o povo. Como se não bastasse, a partir do sucesso de Atrás do trio elétrico, de Caetano Veloso, os frevos baianos eletrificados tomaram conta do país. O jornal O Globo (em 1974) chegou a fazer uma mesa redonda com compositores pernambucanos para discutir o assunto. Era atribuída aos conservadores o enfraquecimento do frevo, Nelson Ferreira, um conservador, surpreende elogiando os frevos dos baianos: “Na minha opinião, isso significa a integração da música brasileira. Foi maravilhoso que Caetano tenha mandado de Londres um frevo-canção como Chuva, Suor e Cerveja, que muito toquei e orquestrei no Carnaval”.

   No ano da sua morte, 1976, nenhum clube pernambucano contratou a orquestra de Nelson Ferreira para animar bailes carnavalescos. Curiosamente, o convite que ele recebeu veio da Associação Atlética da Bahia. Foi em Salvador, portanto, que o grande maestro animou seu derradeiro Carnaval. Ele morreria, em 21 de dezembro, aos 74 anos, em conseqüencia de um aneurisma.

(© Jornal do Commercio)


Centenário do compositor é pouco comemorado

   A reedição em CD do LP Nelson Ferreira, série Compositores Pernambucanos, da Fundaj, é uma das raras homenagens que o compositor de Gostosão está recebendo no mês em que se completam cem anos de seu nascimento. O CD traz composições já gravadas e duas até então inéditas, Pedras preciosas e Valsa azul. Com arranjos e regência de Zoca Madureira, alguns dos melhores instrumentistas da cidade e supervisão de Renato Phaelante, o álbum realça um estilo pouco conhecido de Nelson Ferreira.

   O cantor Gonzaga Leal não conseguiu lançar a tempo de coincidir com a efeméride Minha Adoração Um Tributo A Nelson Ferreira. “O disco é o desdobramento de um antigo projeto meu sobre valsas em geral, que são a minha paixão. Como não consegui captar recursos para o projeto, preferi fechar o foco na obra de Nelson”, explica Leal. Como algumas da composições eram apenas instrumentais, o cantor pediu a alguns amigos que escrevessem letras para elas, como Oswaldo Montenegro e José Miguel Wisnik. Minha Adoração será lançado no dia 20, com um show no teatro Santa Isabel.

   A maior homenagem a Nelson Ferreira, tanto em quantidade como em qualidade, foi feita por Leon Barg, um pernambucano, radicado no Paraná,dono do selo Revivendo. Barg reuniu raros fonogramas para a coleção Nelson Ferreira 100 Anos. São 147 músicas distribuídas por seis CDs. Digna do legado e talento do maestro, a coleção vai dos frevos-canção lançados pela Casa Edison, na década de 20, até as últimas composições dos anos 70, com selo da Rozenblit.

(© Jornal do Commercio)

Cem anos do mestre do frevo

Nascido em 1902, Nelson Ferreira é um dos maiores compositores de frevo

Olívia Mindêlo

        “Felinto, Pedro Salgado/ Guilherme, Fenelon/ Cadê seus blocos famosos? (...)”. Qual pernambucano nunca escutou esses versos pelas ruas do Recife, no Carnaval? Eles pertencem à música Evocação n° 1, de autoria de um dos mais consagrados compositores que Pernambuco já conheceu: Nelson Ferreira. Se estivesse vivo, completaria hoje cem anos de vida, fato que vem rendendo homenagens ao mestre do frevo desde as festas de Momo.
        Conhecido pelo apelido “moreno bom”, Nelson Heráclito Alves Ferreira nasceu em Bonito, no interior, e ainda criança se mudou para a capital, onde faria da música sua companheira para toda a vida. O piano foi o instrumento de estréia. Aprendeu a tocar na infância e, na adolescência, passou a divertir pensões, cafés, saraus, cinemas e casas noturnas e a mostrar à sociedade pernambucana o seu talento.
        O frevo não foi o primeiro ritmo tocado por Nelson, mas a valsa, presente em composições ainda inéditas para muitos.Victória foi uma das primeiras, feita aos 14 anos. Mas é a marcha Borboleta não É Ave, lançada no Carnaval de 1924, o marco inicial de sua discografia. Só por volta de 1930, quando o frevo, tal qual conhecemos, ganhou a denominação (antes era marcha), é que o ritmo passou a fazer parte definitivamente da obra do compositor.
        Até hoje, seus frevos fazem qualquer um cair na dança ou na nostalgia. É o caso, por exemplo, de Quarta-feira Ingrata, Frevo no Bairro São José e Evocação n° 1, que lhe trouxe reconhecimento nacional. “Nelson deixou um legado musical inigualável. Não há como lembrar dele sem lembrar da época de ouro do carnaval”, ressalta Luiz Guimarães, autor de um frevo em homenagem ao “moreno bom”.
        Mas a contribuição de Nelson Ferreira vai além dos frevos e das valsas. A Rádio Clube de Pernambuco e a antiga gravadora Rozenblit devem muito ao seu trabalho. Na primeira, mostrou versatilidade, ao exercer as funções de diretor artístico, produtor e ator de radionovelas, regente de orquestras, pianista e compositor. Na outra, como diretor artístico, deu uma contribuição histórica, ao produzir uma extensa discografia de autoria própria e promover a música pernambucana. Para Luiz Guimarães, as ausências da Rozenblit e do compositor fazem muita falta ao carnaval do Estado, escasso de composições atuais à altura.
        Nelson é um dos nordestinos com maior número de músicas gravadas do Brasil. Na sua discografia, estão cerca de 200 músicas, regravadas por músicos contemporâneos.         O cantor Claudionor Germano é um deles. Com 50 músicas gravadas de Nelson, Claudionor lembra a influência direta do compositor: “Conheci Nelson há uns 50 anos.         Ele foi um professor para mim. Me ensinou a não cantar maquinalmente e a transmitir o sentimento do compositor. Sem ele, não teria chegado onde cheguei”.
        Para se recordar Nelson Ferreira, não há só os frevos-canção, os discos, as adivinhações e os amigos que fez. O legado deixado por ele é de valor inestimável para a cultura pernambucana, embora poucos reconheçam isso. “O povo não dá valor, não liga para a memória”, lamenta o neto, batizado com o mesmo nome do avô. Há quem conte que antes de morrer, em 1976, Nelson Ferreira foi tocar no carnaval de Salvador, porque os clubes recifenses já não lhe davam o mesmo destaque.

Relançamentos saem do forno

        Todo centenário de uma personalidade rende homenagens. Estão chegando ao mercado várias coletâneas com uma nova roupagem não só dos seus frevos , mas das valsas de Nelson Ferreira. A Fundação Joaquim Nabuco, por exemplo, vêm celebrando os cem anos de nascimento de Nelson há algum tempo. Encerra as festividades na quarta-feira com lançamento de um CD com dez valsas, compostas no início do século e recuperadas, por Zoca Madureira.
        Chegou ao Recife, na semana passada, o quarto e último volume da série Frevos de Rua - os Melhores do Século, compilada pelo músico Luiz Guimarães e pelo maestro Duda. O disco é uma homenagem ao compositor.
        Além das coletâneas, há dois CDs com versões assinadas por cantores pernambucanos. O disco é uma reinterpretação de frevos por Claudionor Germano e já está à venda. Já o Minha Adoração - um Tributo a Nelson Ferreira só será lançado dia 20. Trata-se de uma releitura de valsas, feita pelo intérprete Gonzaga Leal.

(© Folha de Pernambuco)

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