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14/12/2002
Discípulos e amantes da sanfona festejam o compositor Luiz Gonzaga, que completaria 90 anos Tárik de Souza Hoje (13.12) devia ser Dia Nacional do Baião. Há 90 anos, em 13 de dezembro de 1912, nasceu no Exu, em Pernambuco, Luiz Gonzaga do Nascimento, o cantor, autor, sanfoneiro que colocou o ritmo - e a música nordestina, em definitivo - no mapa da MPB, em meados dos 40. Há comemorações no Armazém 5, do Cais do Porto, com a veterana Marinês (e sua Gente), descoberta e apadri-nhada pelo próprio, seu neto Daniel Gonzaga, a longeva Banda de Pífanos de Caruaru e o recente Forroçacana. Em São Paulo, de hoje a domingo, o Sesc Pompéia exibe a série São Luiz Gonzaga, com trios como Virgulino, Araripe, Sabiá e o sanfoneiro Oswaldinho. De Pernambuco, onde iniciou carreira em 1972 gravando o hino Asa branca, o Quinteto Violado celebra seu criador no CD Retirantes de sanfona e violadas (leia abaixo). Mas a maior de todas as homenagens é a permanência da obra gonzaguiana tanto nas reedições de seus discos, como na recente montagem Duetos com Mestre Lua (incluindo de Jorge Aragão e Chico Buarque a Milton Nascimento e Chitãozinho & Xororó), quanto na influência de seu trabalho, que atravessa gerações. Dos contemporâneos, como Marinês, a rainha do baião Carmélia Alves, Ivon Curi, Sivuca, Emilinha Borba e a safra dos anos 60 unindo os antagônicos tropicalistas e Geraldo Vandré. Dos herdeiros setentistas Dominguinhos, Fagner, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Elba e Zé Ramalho a posteriores como Lenine e Chico Cesar. Isso sem contar a facção Mestre Ambrósio do mangue beat, a bastarda óxente music (Mastruz com Leite, Catuaba com Amendoim) e toda a retomada forrozeira (universitária), do Falamansa ao Rastapé, Forrozão etc. (© JB Online) Um músico ambulante Depois de colocar a MPB de pernas para o ar no tropicalismo, Gilberto Gil voltou às paradas recentemente a bordo da trilha do filme Eu tu eles, devotada a Gonzagão, e rebocada pelo sucesso Esperando na janela, de outro discípulo, o sanfoneiro Targino Gondin. Blindado contra o desgaste das modas, o monumento musical nordestino erguido por Gonzaga não foi obra do acaso. Retirante pernambucano do Exu que fugiu de casa e sentou praça no exército para driblar a fome, Luiz Gonzaga - que morreu no dia 3 de agosto de 1989 - passou o pires como músico ambulante na Zona do Mangue, entre valsas, boleros e sambas. Estudantes cearenses da instável platéia (entre eles o político Armando Falcão, que chegou a ministro da Justiça na ditadura) pediram-lhe um repertório da terrinha de origem. O então acordeonista viu que podia obter sucesso como safoneiro, mas a implantação da mudança foi longa. Seu contrato inicial na antiga RCA era como instrumentista (de valsas, polcas, choros, boleros), impedido de cantar porque a voz lamentosa de bluesman do São Francisco não atendia às exigências do dó de peito vigente. Liberado o gogó, obteve alguns êxitos em parceria com o fluminense Miguel Lima, mazurcas como Cortando o pano, Dança Mariquinha, o xamego Penerô Xerém e até um Calango da lacraia (com J. Portella). Tentou o ''projeto nortista'' (como o Nordeste era tratado nos 50) com o compositor cearense Lauro Maia, que recusou e indicou o cunhado Humberto Teixeira. Em minucioso depoimento ao pesquisador cearense Miguel Angelo de Azevedo, o Nirez, em 1977, Teixeira lembra que Gonzaga o procurou em seu escritório de advocacia da Av. Calógeras, no Centro do Rio, numa tarde de 1945. No primeiro encontro, que durou de quatro e meia da tarde até quase meia-noite, decidiram que o melhor ritmo para ancorar o projeto (ou ''campanha'', como diz Humberto) seria o baião, binário batido pelos cantadores no bojo da viola, por suas características ''mais fáceis, mais uniformes''. (© JB Online) Régua e compasso na música nordestina Asa branca foi rascunhada nesse primeiro encontro e gravada ainda sob o rótulo toada e o deboche do regional do Canhoto no estúdio. ''Vocês vêm cantar moda de igreja, moda de cego?'', ironizaram segundo Humberto Teixeira, fingindo pedir esmolas a ele e Gonzaga. O gênero dançante teve até manifesto (''eu vou mostrar pra vocês/ como se dança o baião/ e quem quiser aprender/ é favor prestar atenção''). O sucesso avassalador (Paraíba, Juazeiro, Qui nem jiló, Assum preto, Respeita Januário, No meu pé de serra), continuado na parceria seguinte com o médico Zé Dantas (A volta da asa branca, A dança da moda, O xote das meninas, Acauã, Vozes da seca) abriu espaço para congêneres como o xaxado, xote, toada, quadrilha, ritmos inventados como torrado e macapá e com menos ênfase coco (que seria explorado por Jackson do Pandeiro), maracatu e até frevo. As prensas da gravadora chegaram a trabalhar apenas para os discos de Gonzaga, que sintetizou sua caligrafia sonora no tripé sanfona (instrumento que formaria até bossanovistas como Edu Lobo, Eumir Deodato e João Donato), zabumba e triângulo. Parafraseando o epígono Gil, ele deu régua e compasso à música nordestina. (T.S.) (© JB Online)
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