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14/12/2002
Está fazendo 90 anos que a sertaneja Santana deu à luz Luiz Gonzaga do Nascimento, ante o olhar alumbrado e assustado do pai, o sanfoneiro Januário. Quem quiser saber como foi esse parto vá a uma loja de discos e compre qualquer registro fonográfico que o próprio nascituro tenha feito do causo 'Sá Marica Parteira', de autoria de seu parceiro Zé Dantas. Pode também adquirir o CD que o Quinteto Violado gravou para a gravadora Atração e lança hoje em Recife, Pernambuco, berço do Rei do Baião e dos intérpretes que o celebram. Quanto ao autor destas linhas, mais do que essa história tão sertaneja e tão presente na memória desde a mais tenra infância de menino nascido e criado nas brenhas da Paraíba, fascina-lhe outro parto: em que momento preciso aquele mulato robusto, com cara de lua e voz de trovão, terá sido ungido rei, não só pelos ouvintes de um ritmo, o baião, mas por uma diáspora inteira, a dos nordestinos de todas as classes, todas as cores e originários de todos os Estados, que conduziram as próprias raízes quando arribaram, acompanhando um volumoso e impressionante fluxo de migração, e desembarcaram na periferia das metrópoles brasileiras do Sudeste, onde encontraram abrigo e se reuniram para celebrar a saudade do lugar de origem no lugar que os abrigou? O Quinteto Violado, que o próprio Lua comparou com manifestações da mais autêntica cultura sertaneja - tais como o Padre Cícero do Juazeiro, o violeiro Cego Aderaldo e a "sustança" de um "tutano" (que ele chamou adequadamente de "corredor de boi") -, deu a resposta no título de seu lançamento, 'Retirantes de Sanfonas e Violadas', que tem 13 faixas assinadas por Gonzaga em pessoa. A 14ª, 'São João de Seu Luiz', de Toinho Alves, é uma homenagem (da qual também participam 22 artistas, entre eles Chico César, Elba Ramalho, Silvério Pessoa, Patrícia França, Xangai e a Banda de Pau e Corda) ao sanfoneiro de Exu. Em parceria com o advogado cearense Humberto Teixeira, o aniversariante do dia pegou um modo de viola dos poetas populares, adaptou-o ao sacolejo da sanfona rústica do sertão e inventou o baião, que se tornou um veio criativo da Música Popular Brasileira - tais como o samba de Noel Rosa, o choro de Pixinguinha, a bossa nova de Tom Jobim, o frevo de Capiba, o forró de Jackson do Pandeiro e a canção de exaltação de Ary Barroso. Usou sua voz, um instrumento poderoso, para levar às metrópoles as cantigas de beradeiros do interior. Por isso, ele mais do que merece as festividades marcadas para hoje e o fim de semana na agenda cultural brasileira, além do CD especial e do espetáculo comemorativo do Quinteto Violado, em Recife: o forró de pé-de-serra no SESC Pompéia da programação intitulada 'São Luiz Gonzaga' com os tradicionais trios de fole pé-de-bode, zabumba e triângulo Araripe e Forrómangseco; o CD 'Asa Branca Blues' do sanfoneiro paulistano Oswaldinho, filho de seu compadre Pedro Sertanejo, pioneiro dos forrós nordestinos na periferia de Sampa; no Rio, a festa dançante 'Gonzagão 90 anos', animada por Daniel Gonzaga, filho de Gonzaguinha, o menino do morro carioca de São Carlos que ele perfilhou e se tornou um compositor e intérprete importante da geração de Ivan Lins e outros egressos dos movimentos musicais de universitários; e a exibição amanhã na TV Cultura do documentário 'As Sanfonas do Lua', dirigido por Mário Rezende. O extraordinário talento que Gonzaga reconhecidamente tinha para sintetizar na voz forte e no resfolego da sanfona o inspirado cancioneiro popular do sertão nordestino justifica todas essas homenagens a 10 anos de seu centenário e o lugar de destaque que tem ocupado há meio século no panteão da MPB. Mas talvez seja necessário algo mais para justificar a contrição com que muitas vezes este escriba e súdito viu humildes (ou nem tanto) "conterrâneos velhos de guerra" lhe beijarem a mão. Essa condição real, que o autor de 'Asa Branca' (cujo magnífico arranjo de seu LP de estréia é adequadamente repetido no lançamento do Quinteto Violado) assumia com naturalidade de fazer inveja aos Windsors, talvez se deva ao fato de sua obra representar o elo que não se perdeu entre a roça seca da origem e o ambiente metropolitano inóspito que o sertanejo tem de encarar com coragem para sobreviver com dignidade. Lua reina de dia e brilha de noite até hoje, 13 anos depois de sua morte (aos 77 de idade), por se ter tornado o ponto de referência de quem saiu de casa, mas não abandonou no berço a raiz, transportando-a aonde quer que vá. A sanfona de Luiz torna essa retirada forçada uma permanente festa de chegança. JOSÉ NÊUMANNE (© Jornal da Tarde)
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