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Sanfona generosa

14/12/2002

 Luiz Gonzaga foi o homem que colocou o Nordeste no mapa da música popular brasileira

Luciano Almeida Filho
da Redação

   Maior orgulho para um sanfoneiro nordestino era ser ouvido e aprovado por Luiz Gonzaga. Por onde andasse, tivesse um músico simples tocando seu pé-de-bode (a popular sanfoninha de 8 baixos) ou um acordeom surrado, acompanhado de zabumba e triângulo, ele fazia questão de conferir. Podia ser nas capoeiras sertanejas e calorentas do Nordeste ou nas praças das cidades por onde passava, lá estava ele de ouvido atento para o timbre do instrumento que popularizou no Brasil.

   Honraria maior ainda era ganhar uma sanfona novinha em folha das mãos do mestre Lua. Com toda sua enorme generosidade, Gonzagão não podia ver um talento promissor tocando num instrumento puído, velho e sem brilho. Ele prometia o presente e cumpria, mesmo que demorasse anos para voltar àquela localidade onde foi feita a promessa. Dizia ele que se lembrava de seus tempos de necessitude, quando sonhava ter uma sanfona nova para se transformar no artista que sonhava ser. Foram quase 300 instrumentos presenteados por todo o Brasil, como revelou ao amigo José Reginaldo Silva meses antes de morrer.

   Toda esta generosidade é o fio condutor do documentário As Sanfonas de Lua, dirigido por Mário Rezende, que será exibido no próximo sábado, dia 14, pela TV Cultura (retransmissão da TVC), às 20 horas (horário local). O especial foi feito especialmente para marcar o aniversário de 90 anos de Luiz Gonzaga. O diretor foi buscar o depoimento de músicos apadrinhados pelo mestre. Quase todos os depoentes, é claro, são sanfoneiros que revelam que a emoção de ganhar um instrumento das mãos do Velho Lua era uma 'benção'. Para eles, o presente não era um mero objeto. Parecia sim que a sanfona transferia para o abençoado um pouco do talento do criador do Baião, como fez questão de salientar Vital Barbosa.

   Por este motivo, os depoimentos são sempre carregados de emoção. A irmã Chiquinha Gonzaga, única dos irmãos artistas de Gonzaga ainda vivo, chega a se engasgar contando as histórias do irmão famoso, do pai Januário, da mãe dona Santana e dos irmãos Severino Januário e Zé Gonzaga. Dominguinhos, seu mais legítimo herdeiro, lembra-se do primeiro encontro com Luiz Gonzaga, num feira em Caruaru, quando este ficou abismado com o domínio da sanfona daquele meninote de 8 anos, tocando com seus irmãos. E de seus últimos momentos juntos, quando já bem doente, vitimado pelo câncer na próstata e a osteoporose, um debilitado Gonzaga começa a esquecer trechos das letras durante suas derradeiras gravações em estúdio.

   As Sanfonas de Lua começa com imagens da BR-112, no Vale do Araripe, na chegada a Exu. A equipe acompanhou as festividades do aniversário de Gonzaga, em dezembro passado. Mostrou todo o clima de festa na cidade e a reverência que os sanfoneiros têm por Gonzaga. Epitácio Pessoa, último deles a acompanhá-lo em shows, revela inclusive que ir ao Exu no dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, é uma forma de agradecer, uma retribuição por tudo que ele fez pela música do Nordeste e todos aqueles sanfoneiros ali presentes.

   Entre os depoentes estão os cearenses Zé de Manu, que trabalhou com seu Luiz por sete anos, Sirano e Waldonys, um dos últimos talentos a ganhar a benção do mestre. Zé de Manu conta inclusive a pitoresca história de um concurso de sanfoneiros, acontecido aqui em Fortaleza que teve Luiz Gonzaga entre os jurados e onde ele tirou segundo lugar. Acontece que seu Lua queria dar para Zé de Manu era mesmo o primeiro, dizendo isso em alto e bom som no microfone.

   O documentário revela sim que a memória de Luiz Gonzaga ainda está viva e pulsante no talento de tantos discípulos. Dominguinhos chega inclusive a afirmar que nenhum outro artista representou tanto para a música brasileira em termos de criação, inventividade e originalidade.

SERVIÇO:
As Sanfonas do Lua
- Documentário dirigido por Mário Rezende. Realização: TV Cultura e Companhia do Vídeo. Exibição no sábado, dia 14, na TV Cultura (TVC), às 20 horas (horário local).

(© NoOlhar.com.br)

Babel de Luiz Gonzaga surge com novas e velhas verdades
 

Rei do baião, morto em 1989, ganha especiais na TV e no rádio com curiosidades e versões inéditas

XICO SÁ
CRÍTICO DA FOLHA

   Até os Beatles gravaram "Asa Branca". No famoso álbum branco, a avoante seria "White Wings". A lenda espalhada no final dos 60, em um programa de TV de Carlos Imperial (RJ), correu do litoral aos sertões. Em muitos lugares do Nordeste, ainda hoje, quando são celebrados os 90 anos de Luiz Gonzaga, a lorota resiste, mas é contada de outro jeito.

   "Os Beatles só fizeram fama depois que gravaram o rei do baião", jura o poeta e comerciante da feira do Crato (CE) Deusidete dos Santos. À maneira gozadora de um João Grilo ou Pedro Malasartes, anti-heróis do cordel, ele apregoa: "Todo mundo está cansando de saber disso por aqui".

   No Nordeste, para relembrar a velha boutade dos Beatles, o rei do baião, morto em 1989, é tão famoso quanto Jesus, embora perca, em autoridade moral, para o "padim" Cícero. Ganha também de Roberto Carlos, mas há controvérsias.

   Enquanto velhas lendas da carreira de Gonzaga se transformam no maldizer sertanejo, novas verdades são levantadas por ocasião dos 90 anos do homem de Exu, Pernambuco.

   Se os roqueiros de Liverpool não o gravaram -era um truque de marketing usado por Imperial para ajudar o rei do baião, que andava em baixa-, ninguém menos do que Dizzy Gillespie tirou jazz de "Pau de Arara" ("Quando eu vim, seu moço, do meu Bodocó...").

   "Ficou em ritmo de bossa nova", revela o pesquisador de cultura brasileira Assis Ângelo, autor de "Eu Vou Contar pra Vocês" (sobre Gonzaga, editora Ícone, SP, 1990), que juntou a música ao seu balaio de achados sobre o forrozeiro-mor.

   No seu programa "São Paulo Capital Nordeste" de amanhã (Rádio Capital AM, 1040, das 21h às 23h), Ângelo vai tocar gravações raras de músicas do rei do baião. Tem versões em árabe, em francês, em inglês, em espanhol, em japonês... Uma babel gonzaguiana.

   Outra curiosidade inédita apanhada pelo pesquisador: na Ilha de Páscoa, um grupo gravou "Xote das Meninas" e atribuiu a música ao folclore local. O flagrante também está no roteiro do programa, que festeja os 90 anos da majestade.

Mecenas

   A TV se renderá à mesma celebração. "As Sanfonas do Lua", documentário dirigido pelo jornalista Mário Rezende, mostra como Gonzaga incentivou a multiplicação de forrozeiros em todo o país. Quando notava que havia um talento dos oito baixos, presenteava o cabra com uma sanfona nova.

   Dominguinhos foi um deles, Oswaldinho do Acordeom, também. A vasta pesquisa de Rezende vai ao ar às 21h de amanhã, na TV Cultura, e tem depoimentos de sanfoneiros comovidos com o mimo de Gonzagão, coisa que mudou suas vidas.

   O documentário é essencial para quem deseja conhecer a geografia do forró no Brasil. A excursão tem ainda uma visita ao parque Asa Branca, em Exú, onde funciona o museu do rei.

Universitário

   A jornada dos 90 anos de Gonzaga exibe outro arrasta-pé documental. "Noites com Lua", produzido pela TV USP, conta a trajetória do homem-baião, mas a grande graça do programa é a reportagem com a invasão do forró na classe média paulistana. Uma geral nas principais casas e uma crônica de costumes sobre a mania.

   O que diria Gonzaga sobre o jeito como os fãs do Falamansa dançam o baião? Certamente iria notar que a principal lição foi esquecida: forró se dança com a pança, no xenhenhém dos umbigos. Não é lambada, como parece hoje em São Paulo.

   O documentário é dirigido por Eduardo Kishimoto, com pesquisa dele e de Carol Baggio. Passa no Canal Universitário (o 15 da NET ou TVA), às 12h e às 20h30 de amanhã.

(© Folha de S. Paulo)

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