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Gal Costa aposta em mudanças artísticas

14/12/2002

 

Disco marca a estréia da cantora na gravadora Abril/MZA, após parceria com a BMG iniciada em 84

DA REDAÇÃO

   Sorridente, de braços abertos para o mar. Em imagens do encarte de seu novo trabalho, "Bossa Tropical", e nos bastidores, Gal Costa, 57, insinua uma fase de ansiedade por renovações, mudanças, disposta a aceitar o que vier pela frente. Em nova fase da carreira, a cantora diz-se renovada. Após interromper uma parceria iniciada em 84 com a BMG, este CD marca sua estréia em outra gravadora, a Abril/MZA.

   O disco evidencia também uma Gal que abandona produções mirabolantes com orquestras e shows superproduzidos. É, em certo sentido, um disco econômico musicalmente, marcado pela percussão de Marcos Suzano, pelo violão de Luiz Meira e participação de Armandinho no bandolim e na guitarra. "Pensei em radicalizar e gravá-lo apenas com violão. Não é um disco barato, pelo contrário, a mudança de gravadora não teve a ver com isso. Foi uma opção fazer um disco minimalista no sentido musical", diz.

   "Bossa Tropical" traz releituras de músicas díspares de gente como Arnaldo Antunes ("Socorro"), Beatles ("The Fool on the Hill"). Há uma guinada para o rock? "Nas canções estrangeiras, tentei trazer um sotaque brasileiro e moderno", explica. "O disco tem uma sonoridade moderna e internacional ao mesmo tempo que tem uma cara brasileira. Para mim, isso é a "bossa tropical'", diz.
Ela conta que o único critério na escolha das músicas foi a identificação com as letras. No caso de "Ovelha Negra", pediu autorização de Rita Lee para mudar a letra. Trocou o "pai" por "mãe" devido a razões afetivas.

   A empolgação com as mudanças de gravadora e de conceitos sonoros é acompanhada pelo otimismo com o novo presidente eleito. "Nós artistas somos o reflexo e a voz do inconsciente coletivo, somos missionários dessa energia. O atual momento político é fantástico, torço para que o Brasil mude e que dê tudo certo."

   A cantora, que votou em Lula, irrita-se quando questionada sobre seu polêmico apoio a Antônio Carlos Magalhães no ano passado. "Isso é passado", diz. Comenta, no entanto, o caso da atriz Regina Duarte, também alvo de polêmica na campanha presidencial deste ano. "As pessoas devem agir do jeito que pensam, patrulha ideológica é uma coisa ditatorial. Em uma democracia, você tem que conviver com pensamentos diferentes e respeitar isso."

   "Nunca tive uma postura militante. Durante o exílio de Caetano e Gil, o destino fez com que eu fosse a representante do tropicalismo. Tive uma atitude política no aspecto comportamental, não no sentido de subir ao palco e fazer discursos. Cheguei a apanhar na rua devido às roupas que eu usava, que eram as mesmas dos shows. Não tenho partido, gosto dos bons homens, dos homens honestos, corretos."

   Quanto à sua saída da BMG, Gal é diplomática. Diz que a solução foi melhor para os dois lados. "Senti uma certa preguiça deles em investir em mim, em apoiar idéias. Reparei que eles estavam mais interessados em promover o "Fama" (reality show musical da Globo)", conclui. A saída sinalizaria um novo tipo de relação entre artista e gravadora. "É ruim para os grandes artistas ficarem presos a uma gravadora, não vejo muito sentido." (BRUNO YUTAKA SAITO)

(© Folha de S. Paulo)

Volta, grande cantora
 

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
DA REPORTAGEM LOCAL

   O primeiro susto que "Bossa Tropical" causa é o de ser um disco de produção concisa, econômica, talvez pobre mesmo. Poderia significar uma fase de vento contra de Gal Costa, que de fato vinha vivendo uma sucessão de projetos equivocados.

   A economia, no entanto, aparece como trunfo inesperado. Gal está se despojando de artefatos, reevidenciando a voz acima de peripécias, esquecendo dogmas como os que resultaram no desastrado disco para Tom Jobim.

   Repertório e tratamento são inusitados, para bem ou mal. No geral são cafoninhas ("Ovelha Negra", fofa, mas toda forrada de tempero "tropicaliente"), abrigam obviedades ("Marcianita", "Desde que o Samba É Samba") e permitem coisas que não teriam por que estar num projeto que pende ao leve e descontraído ("As Time Goes By", injustificável).

   Mas há também um punhado de momentos inesperados, que, se por um lado se desencontram, por outro sopram ar livre nos cabelos revoltos da artista. É engraçado ouvi-la cantando versos desabrigados e bandeirosos como "socorro, não estou sentindo nada" ou "devia ter arriscado mais/ e até errado mais". A veterana sagrada se deixa flagrar detentora de incertezas, é bacana.

   Tudo se liquefaz nas duas únicas canções recentes, as mais amorosas, desamparadas e serenas do CD, "Onde Deus Possa Me Ouvir" (de Vander Lee) e "Quando Eu Fecho os Olhos" (de Chico César e Carlos Rennó).

   "Bossa Tropical" não é bossa, nem tropical, nem especialmente brilhante. Mas permite a Gal abrir a voz novamente. É hora de repetir: volta, grande cantora.

Artista: Gal Costa
Lançamento: MZA/Abril
Quanto: R$ 27, em média

(© Folha de S. Paulo)

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