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A vanguarda que vem do Sertão

17/12/2002

 

Luís Homero e Miguel Marcondes integram uma casta que poderia ter gerado um movimento semelhante ao mangue, se tivesse atraído atençaõ da mídia

JOSÉ TELES

   Por volta de 1990, enquanto, no litoral, uma turma entre Rio Doce e Candeias arquitetava o que seria o movimento mangue, no Alto Sertão, outra turma, longe demais das capitais, influenciada por Elomar, Xangai, os lendários repentistas da região, começou a fazer uma música que poderia ter gerado outro movimento em Pernambuco, se seus integrantes tivessem alguém que os liderasse, e atraísse para eles os holofotes da mídia. Entre esses artistas estavam Maciel Melo, Paulo Matricó, Anchieta Dali, Santanna, e os irmãos Luís Homero e Miguel Marcondes.

   Anos depois, se não chegaram à fama, pelo menos eles construíram seu nicho dentro da cena musical pernambucana. Correm por fora no circuito de shows do Estado, raramente são incluídos nas programações festivais oficiais, mas têm espaço certo e sabido.

   Um dos melhores exemplos, desse movimento “alternativo” são os irmãos Luís Homero e Miguel Marcondes, cabeças do grupo Vates & Violas. Eles acabam de lançar o terceiro disco, Tudo Qué Bom Presta, um trabalho independente na mais fiel acepção do termo, sem apelo às leis de incentivos ou patrocínio de algum mecenas: “Começamos no final de 2001. A gente foi fazendo aos poucos, com o dinheiro que entrava de direitos autorais”, conta Miguel Marcondes. A dupla tem músicas gravadas por Amelinha, Maciel Melo, Flávio José, Assisão. Anchieta Dali, Santanna, para citar os mais conhecidos.

   Vivendo no Recife desde 1993, Homero e Marcondes não perderam o jeitão de sertanejo. Na aparência - cabelos longos, jeans - lembram roqueiros da geração Woodstock, mas só escutaram rock adultos: “A primeira vez que escutei Led Zeppelin foi em Campina Grande, achei aquelas violas parecidas com as dos violeiros do Sertão”, revela Miguel Marcondes.

   Os dois nasceram no Alto Sertão do Pajeú, no sítio São Francisco, “Perto do Prata”, assinala Luís Homero, ressaltando que essa região é notória pelo grande número de antológicos repentistas que gerou: “Crescemos com a poesia de Pinto do Monteiro, Lourival Batista, Cancão, Zé Furiba, esse pessoal vivia na casa da gente”. Eles são filhos do famoso repentista Zé de Cazuza, que por sua vez era filho do cordelista Mané Cazuza, que por sua vez era filho do poeta Felizardo, ou seja, forma a linha evolutiva da poesia sertaneja.

   Embora sejam grandes conhecedores da poesia sertaneja (são capazes de passar horas recitando versos de cantadores), eles, que traziam o improviso nos genes, foram influenciados pelos poetas músicos: Elomar, Vital Farias, principalmente Zé Marcolino: “Uma música que pegou muito a gente foi Saudade de ôce, de Vital Farias. Esses caras cantavam o que a gente tinha vivido, faziam poesia como a gente gostava. Mas admiração mesmo têm por Zé Marcolino, Ele nem tocava bem violão, sabia apenas dois acordes, fazia o resto com a boca, mas foi um gênio como compositor”, diz Luís Homero.

   Embora com o Vates & Violas toquem músicos paraibanos, baianos, os irmãos fazem questão de que o grupo seja considerado como pernambucano. E nem precisava, o trabalho é recheado de estilos e gêneros do Estado. O disco é aberto com versos cantados por Miguel, com acompanhamento de violão e zabumba de barro, por Luís Miguel, para irromper num suingado baião, Fumaça de Pirão. O CD tem como contraponto a poesia dos cantadores. A faixa seguinte começa com Zé de Cazuza recitando versos de Zé Soares, contrastando com o peso dos acordes roqueiros da guitarra no início de O baque da porteira.

   Na próxima faixa o ritmo é quebrado por uma fala prescindível (“não sei quem disse que não o quê tá não sei por quanto” antes do rojão Instante feliz. Pecadilho que não macula o brilho do disco. Influências não-citadas de Alceu Valença estão no ótimo maracatu Mudança.

   Passarim (violão), Afonso (baixo), André Pernambuco (percussão), Tony Boy (percussão), Lico (Sanfona), Marcelo (bateria), formam o restante do grupo. Eles, assim como Luís e Miguel, não fazem firulas, nem jogam para a torcida.

(© Jornal do Commercio)

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