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19/12/2002
Caixa reúne 40 CDs do compositor, um deles contendo raridades e
outro até agora inédito
M AURO DIAS
Caetano Veloso lançou seu primeiro elepê em
1967. O disco tinha o nome de Domingo e apresentava uma nova cantora, certa Gal Costa. De
lá para cá, foram 37 títulos. O último, Eu não Peço Desculpa, foi gravado a duas
vozes com Jorge Mautner e lançado no início do semestre. Esses discos, mais três extras
- a gravação ao vivo e até então inédita do espetáculo Bicho Baile Show (1978), uma
compilação de singles e outra de canções conhecidas remixadas no sistema Dolby 5.1, de
seis canais, estão reunidos na caixa Todo Caetano, que a gravadora Universal acaba de
lançar.
Além dos 40 CDs, Todo Caetano traz um
libreto de 62 páginas, intitulado Tantas Canções, com fotos e longo e saboroso
depoimento de Caetano (ao baterista e pesquisador Charles Gavin, coordenador do projeto e
responsável pela remixagem dos discos, e ao jornalista Luís Pimentel), que fala de sua
infância, influências musicais e detém-se na análise de cada título.
O preço sugerido (pela gravadora Universal)
da caixa fica entre os R$ 900,00 e R$ 1.000,00. Fora um compacto lançado na segunda
metade dos anos 60 pela RCA, Caetano teve todos os seus discos editados pela Universal
(que se chamou Philips, depois PolyGram). A mesma Universal havia lançado, em novembro de
1996, outra caixa com o mesmo nome de Todo Caetano, com 30 discos, edição já esgotada.
A nova oferece sobre aquela a vantagem de
reproduzir, em papel (tendência internacional) as capas originais, reduzidas ao tamanho
do CD, respeitados os encartes e detalhes como as tiras coloridas do histórico Barra 69,
gravado ao vivo por Caetano e Gilberto Gil, no Teatro Castro Alves, em Salvador,
imediatamente antes do embarque para o exílio londrino, e lançado somente em 1972. Em
duas das tiras lê-se a frase "Tanto faz no sul como no norte", extraída da
música Alfomega, de Gil, gravada antes por Caetano. No contexto da época, a frase
ganhava conotação debochada. Despachados para outro hemisfério, eles não foram
calados.
Outra delícia que o papel permite é a
reprodução em ponto menor da capa do disco Transa, de 1972, criada (com o nome de
discobjeto) por Álvaro Guimarães: dobraduras transformam a capa num pentaedro, sólido
de cinco faces, uma delas vazada. No texto do libreto, Caetano diz que foi o ator e
diretor baiano Álvaro Guimarães o responsável por ele ser compositor: "Ele queria
que eu fizesse músicas para uma peça de teatro que estava dirigindo, apesar de que
jamais me vira tocar nem cantar. Apenas conhecia minhas opiniões sobre música popular e
achava que eu devia compor."
Caetano atendeu ao pedido e, depois, em
1963, fez músicas para um documentário de Álvaro sobre meninos de rua.
"Influenciou também o começo da carreira de Bethânia, que queria ser atriz e ele a
colocou em peça cantando, ela impressionou todo mundo e começou a cantar", narra
Caetano.
Mais um detalhe: os CDs reproduzem o selo
dos elepês - a parte central dos discos de vinil, onde vinham nome do autor e obra e
título das músicas. "Foi um achado, tomara que faça escola", disse Caetano,
entusiasmado com a solução gráfica encontrada pelos designers.
Raridades - Em 1977 saiu o disco Bicho, que
emplacou vários supersucessos: Um Índio, Odara, Gente, Tigresa, O Leãozinho. Surgia, na
mesma época, o movimento Black Rio - e a Banda Black Rio, que tinha à frente o
saxofonista Oberdam Magalhães e, ao piano, o hoje especialista em canção de amor, samba
e choro Cristóvão Bastos, músico da banda fixa de Chico Buarque e Nana Caymmi.
Caetano quis fazer um show com a Banda Black
Rio. "Era um show para dançar e foi muito mal recebido pelo público e pela
crítica", lembra Caetano. "Eu estava voltando da África, tinha tocado na
Nigéria, na Costa do Marfim e via no movimento Black Rio o surgimento da 'nova favela
brasileira', a semente de tudo o que está aí hoje, o rap, o hip-hop; Bicho Baile Show
foi um espetáculo muito à frente de seu tempo, do qual eu guardava lembranças
agradáveis. Não sabia que existia registro sonoro do show, muito menos registro de boa
qualidade. Quem descobriu foi o Charles Gavin."
O dançante CD Bicho Baile Show traz
músicas do Bicho original mais, entre outras, London, London, Alegria, Alegria, Qualquer
Coisa, o frevo Chuva, Suor e Cerveja e, de Ari Barroso, Na Baixa do Sapateiro. Um tanto da
cobrança que se fez na época a Caetano foi pela ausência de alusões políticas -
vivia-se plena ditadura milita: uma postura que seria, no jargão dos anos 70, alienada.
Diluída a questão, é um belo trabalho.
A outra raridade é Singles - coletânea de
canções lançadas em compactos de 33 rotações por minuto, inédita em CD, no Brasil,
lançada, antes, no Japão, compilação (gravações feitas entre 1968 e 1981) feita por
Jim Nakahara. Traz uma leitura de Let It Bleed, de Mick Jagger e Keith Richards (1968), e
a marchinha Yes, Nós Temos Banana, de Braguinha e Alberto Ribeiro (1968); o batucado e
moderníssimo Samba da Cabeça, de Caetano (1978); a esquecida parceria de Caetano e
Torquato Neto Ai de Mim, Copacabana (1968) e outra esquecida parceria, de Jards Macalé e
José Carlos Capinam, Pula, Pula (Salto de Sapato) (1971) e passeia do fado (Uma Casa
Portuguesa) ao samba-funk de Jorge Ben Jor (Charles, Anjo 45, gravação de 1974, e Amante
Amado, 1978).
Os fãs foram convocados a escolher, usando
o site www.anocaetano.com.br, as músicas que seriam remixadas no sistema Dolby 5.1. Foram
eleitas 20 canções, de Tropicália a Não Enche, passando por Terra, O Leãozinho,
Queixa, Luz do Sol, Fora da Ordem. O sistema permite audição em seis canais, refazendo,
domesticamente, para quem possua a aparelhagem de DVD, o efeito que se tem no som do
cinema. As imagens, porém, são paradas.
Na última parte do depoimento de Tantas
Canções, Caetano Veloso elabora uma reflexão sobre a música popular brasileira e
lembra a sempre mencionada comparação de sua obra com a de Chico Buarque. Diz de Chico,
a quem admira, que sua ambição é a de "mexer na estrutura subjacente à criação,
no ambiente que possibilita a criação". Ele mesmo prefere, em vez de "criar
uma peça dentro do mundo dado, mexer nesse mundo dado". E assim tem sido.
(© O Estado de S.
Paulo)
| Cantor diz que sentia
inveja do envolvimento de Gil na política |
Caixa reúne 40 CDs e raridades de
Caetano
XICO SÁ
ENVIADO ESPECIAL AO RIO
Enquanto o companheiro de
Tropicalismo Gilberto Gil engoma o terno para subir a rampa do Planalto com Luiz Inácio
Lula da Silva, a banda mais "bicho solto" do mesmo movimento, representada por
Caetano Veloso, 60, gargareja o desprezo -ainda a política do ídolo velho J.L. Godard?-
pelos poderes constituídos.
De crença mais liberal,
Caetano demonstrou certa simpatia pelo governo FHC. Na campanha eleitoral, manteve-se
posicionado no gelo baiano, sem maiores paixões. Diz que aprecia mesmo é "política
subterrânea", a que resultou, por exemplo, no "Bicho Baile Show",
tertúlia que promoveu, nos anos 70, com os rapazes da Black Rio.
A gravação do remelexo,
encontrada por Charles Gavin nos porões da MPB, é a novidade do "Todo Caetano 2002
", caixa com 40 CDs embalados como se fossem mini-LPs. Os mais antigos reproduzem as
capas e encartes dos vinis originais. E os que nem saíram em vinil agora ganham ares de
antiguidade. Têm até aqueles saquinhos foscos que protegiam as bolachas.
No começo da noite de
anteontem, na sede da gravadora Universal, na Barra da Tijuca, Rio, um Caetano Veloso
modesto -"a gente se chateia da gente"- para o seu padrão de pavonices concedeu
entrevista à imprensa para falar sobre o lançamento. A seguir, os principais trechos:
Gilberto Gil/Lula
Aceitou? [o cargo de
ministro da Cultura". Deve ser bom pra ele. Ele foi pioneiro na campanha de Lula,
entrou desde o início da campanha. Eu tô pensando em entrar agora (risos). Isso aí nem
tenho acompanhado. Tem tantas caixas de disco para falar. Não entendo desse negócio.
Sinceramente eu tenho uma
reação assim de repulsa, uma vontade de me afastar de tudo que seja ou pareça poder
oficial. É um negócio que vem do meu pai. Falei tudo que poderia falar, com essa
ignorância e esse relativo desinteresse, mas muito interessado tanto na vida do país
como na vida dele (Gil). Eu disse que entendia o entusiasmo dele. Sempre gostei muito de
ele estar envolvido na campanha desde cedo. E às vezes tinha inveja de não estar
também.
"Todo o Caetano", a caixa
A primeira pessoa que
falou comigo foi o próprio Charles (Gavin, diretor do projeto). Gostei muito porque
quando a outra caixa saiu, tinha gostado muito de ver tudo junto. Mas quando botei para
ouvir... eu não achei que soasse muito bem. Não tenho muita paciência para ouvir meus
discos, acho um trabalho penoso. Acho aquele cara (ele mesmo) chato. A gente se chateia da
gente.
Show com Black Rio
Isso para mim é a
coisa mais maravilhosa de tudo. O Charles descobriu essas gravações lá na Warner.
Fiquei maravilhado pelo mero fato de haver um registro de um acontecimento que para mim é
de tão grande importância. Eu tinha muito orgulho de ter feito esses shows com a banda
Black Rio. Foi um disco muito agredido pela crítica... Eu tirei as cadeiras do teatro
Carlos Gomes para que as pessoas pudessem dançar. Queriam algo mais engajado. E eu via
que era uma coisa politicamente mais importante: o aparecimento do movimento Black Rio,
daquela vertente saiu o funk carioca e toda a cena hip hop do Brasil. Vem dessa
experiência. Outra coisa que teve muita importância nessa época foi uma visita que fiz
à Africa, a convite do Gil. Essa politica subterrânea me excita muito.
Músicas restauradas
Tive mais curiosidade
em ouvir logo o disco "Uns" porque na outra caixa soava tão mal! Tem muitas
coisas que viraram agora outra coisa, nessa caixa. A música do Péricles Cavalcanti virou
outra música. A música da Marina Lima, também, aquela "Bobagens, Meu Filho,
Bobagens". A voz com o pessoal tocando, soa um pop que parece gravado hoje.
Internacional Comunista
A censura implicava
com umas coisas e outras, nem notava, como a Internacional Comunista que botamos na
música "Enquanto Seu Lobo Não Vem".
Estética e cosmética
Penso muito no
Glauber a cada filme que se passa no Brasil. Mas não penso nesses termos, na dualidade
estética da fome x cosmética da fome, como propõem. É empobrecedor. O buraco é mais
embaixo. Acho, por exemplo, que há uma grande cosmética da fome em "Deus e o Diabo
na Terra do Sol", que é de outra natureza -é um filme estilizado,
espalhafatosamente estilizado...
O padrão Chico Buarque
O Chico tem um
controle de qualidade que ele mantém sempre lá em cima. E eu não. Eu acabo fazendo
outras coisas, penso no show, penso que sou cantor, penso que sou um personagem... Não é
na canção que está o produto final, é na composição dessas coisas todas. Não tem
encheção de linguiça, não tem coisa só pra preencher o pedaço da música como nas
minhas. Não tem rima feia, não tem rima que não seja plenamente justificada pela idéia
que está sendo enunciada. E nas minhas têm. Tem erro de prosódia, de tudo, e eu deixo.
Às vezes, achando que aquilo é bacana. Às vezes eu deixo como um negócio sujo, às
vezes deixo achando que é ruim mesmo.
(© Folha de S. Paulo)
CRÍTICA
Caça-níquel natalino tem só "Baile Show"
como novidade
DO ENVIADO AO RIO
O que diriam os filhos bastardos de Paulo
Francis -estas criaturas da imprensa que não vivem sem assentar o relho do escárnio no
lombo do baiano- se recebessem de Papai Noel uma caixa com 40 discos de Caetano Veloso? O
bom velhinho seguramente não sairia vivo desse trote.
E para os seres humanos que apreciam, qual a
novidade desse balaio? O que tem de inédito? Que diabo de comércio natalino é esse? E o
precinho, é bom? Uns cinco salários mínimos, rapaziada.
"Luxo" para os fãs da cumeeira da
pirâmide. De inédito tem o "Bicho Baile Show", ao vivo, disco dos anos 70, em
companhia da Banda Black Rio. Mandaram tirar as cadeiras do teatro Carlos Gomes e
promoveram o xenhenhém dançante. A tal da crítica caiu de pau na época: um disco
alienado, para dizer o mínimo.
Caetano acreditava nos deuses que dançam,
como havia sugado do cabecismo nietzscheano. Os Paulos Francis de então não perdoavam o
samba com a Black Rio em plena repressão braba. Houve quem também visse algum
oportunismo artístico do novidadeiro compositor baiano, que antevia, no momento, a
fundação do funk carioca, gênero que conta com o seu apreço e consideração.
O achado tem seu valor. Quem quiser agora,
porém, tem de levar todo o Caetano. Mais adiante é que a gravadora vai vender os discos
isoladamente. A caixa tem ainda o "Muito Mais", coletânea apresentada no
DVD-áudio que vem de lambuja. Supérfluo -tiragem de 3.000- para poucos.
O que há de novo, como esmiuça Charles
Gavin, músico que se firma como um apanhador vigilante do baú da MPB, é a ourivesaria
que foi feita com os discos. A remasterização e remixagem na safra pré-1987
reconstruíram algumas canções. A voz aparece mais firme, os instrumentos são mais
intensos e personalizados nos discos de 60 e 70, como no "Tropicália ou Panis et
Circencis" de tantos Mutantes. E Caetano & Chico Juntos e ao Vivo", no dia
do suicídio do poeta piauiense Torquato Neto (1972), segue velho e tão bom.
Independentemente dos adornos tecnológicos.
Mas aqui julga-se a caixa, a coisa, não a
obra do homem, que já estava, de alguma forma, na praça. É aquele tipo de produto que
nego diz assim: "Para colecionadores". E bacanas endinheirados que pretendem
fazer uma graça natalina para a noiva. Os que notarem o dedo de Gavin e suas
restaurações terão um papo-cabeça a mais -""você ouviu o "Transa"
restaurado?"- para sobremesas caras dos restaurantes metidos de Rio e São Paulo. O
resto, seu garçom, é café pequeno. (XICO SÁ)
Todo o Caetano 2002
Artista: Caetano Veloso
Lançamento: Universal
Quanto: R$ 950, em média
(© Folha de S. Paulo) |
| O saboroso jogo da memória
de Caetano |

João Pimentel
Ao falar sobre o relançamento da caixa de
CDs Todo Caetano (Universal), com sua obra completa, o cantor e compositor
baiano, ao mesmo tempo que se mostrou satisfeito com o resultado do bom trabalho de
remixagem e remasterização comandado por Charles Gavin, fez questão de exibir uma certa
indiferença com relação à sua vasta e irrepreensível obra. Disse, por exemplo,
estranhar sua voz nas primeiras gravações e não aprovar totalmente nenhum de seus
discos. Mas aos poucos confessou ter se surpreendido ao ouvir o novo-velho Uns,
lembrou-se da qualidade dos músicos de Transa, disco que marcou sua volta do
exílio em Londres, e confessou adorar sua primeira gravação de Coração
vagabundo. Enfim, um Caetano todo, que já se sentiu dividido entre a simpatia pela
luta armada da ultra-esquerda e o pensamento liberal.
Quando ouvi as primeiras coisas que gravei na vida, demorei para me
reconhecer ali. A voz que a gente ouve de dentro da caveira e o que as pessoas ouvem fora
dela são bem diferentes. Nunca o que aparece gravado é o que ouço quando estou cantando
disse, explicando em caetanês o seu estranhamento.
Mas esse estranhamento já foi maior. Quando a sua outra caixa foi lançada,
em 1996, Caetano não gostou realmente do que ouviu:
Quando ouvi, não achei que soasse bem. Ao invés de acrescentar,
muita coisa se perdeu ao ser passada para o CD lembrou. Agora, no trabalho
do Gavin me surpreendeu a presença das bandas. O tamanho do lugar que o som ocupa, a
individualidade dos instrumentos, que, em alguns casos, é mais sentida até que nos LPs.
Muitas vezes, ouvindo, eu senti a presença das pessoas, o clima da gravação.
Presente à entrevista, Charles Gavin explicou que o trabalho de remixagem,
feito nos discos anteriores ao formato CD, além de único, foi arriscado e meticuloso.
Pedimos opiniões, inclusive de Caetano. A chance de errar era grande.
Tivemos que estudar timbres, mexer sem descaracterizar conta Gavin.
Mas outras novidades, segundo Gavin, servem de explicação para o preço da
caixa sugerido pela gravadora (entre R$ 900 e R$ 1.000).
O investimento foi muito grande. Além do trabalho de remixagem e
remasterização, refizemos fielmente as capas e os encartes dos LPs no tamanho do CD. É
uma edição para colecionador mesmo.
Bicho baile show emociona o cantor
Dois discos da caixa são novidades. Um CD de singles lançado apenas no
Japão e Bicho baile show, uma gravação recuperada por Gavin de um show que
reuniu Caetano e a Banda Black Rio, no Teatro Carlos Gomes, em 1978
Fiquei maravilhado por existir um registro razoável desse show. Tenho
orgulho deste trabalho que foi muito agredido pela crítica.
Segundo Caetano, o encontro, mais que um trabalho musical, foi uma tomada de
posição:
Duas coisas me marcaram neste período: o aparecimento do movimento
Black Rio, de onde saiu o funk e a cena hip hop do Brasil, e a visita que fiz com Gil à
África, de onde voltei com Bicho. O show foi um fracasso do ponto de vista
jornalístico-empresarial. Mas, para mim, foi um triunfo. É esta política subterrânea
que me excita.
Ao falar de política, Caetano lamentou não conseguir desfazer as
mutilações impostas pela censura à sua obra.
Tentei achar os vinis europeus de Transa, que não tinham
sido cortados, mas não consegui. O pessoal da Censura era muito burro. A canção Enquanto
seu lobo não vem, do disco Tropicália, tinha uma referência à A
Internacional Socialista que o Rogério Duprat botou. Mas eles se preocupavam em
recolher os exemplares de O vermelho e o negro, de Stendhal, que não tinha
nada a ver com isso.
(© O Globo On Line)
Grandeza reafirmada
Não é preciso caixa alguma para se
confirmar a grandeza da obra de Caetano. Mas a reedição dos 37 discos que ele fez a
partir de 1966 mais o inédito Bicho baile show e as coletâneas Singles
(que fora editada apenas no Japão) e Muito mais (apenas para equipamentos de
DVD e DVD-Áudio) reafirma essa idéia. A remixagem, a partir das fitas originais,
de alguns dos LPs, melhorou bastante a sonoridade. Muito (1978) é um dos que
renascem com maior peso e nitidez do instrumental, tendo realçadas as suas belezas.
Já o inédito Bicho baile show, com o polêmico show que Caetano
fez, em 1978, com a Banda Black Rio, é realmente histórico. Se o encontro entre a
música de Caetano e a sonoridade do grupo é híbrido em alguns momentos, vale pela
participação da banda, que, em sua formação original incluindo os já falecidos
Oberdan Magalhães (saxofones) e Cláudio Stevenson (guitarra) e ainda Barrosinho
(trompete) e Cristóvão Bastos (piano) fazia uma simbiose de jazz, funk e MPB. Os
quatro números instrumentais Na Baixa do Sapateiro, Leblon via
Vaz Lobo, Maria fumaça e Caminho da roça mostram
que a BBR dava seqüência tanto ao samba-jazz dos anos 60 quanto à fusão com o funk que
o pianista Dom Salvador iniciara na primeira metade dos anos 70, antes de se radicar em
Nova York.
Agora é torcer para que os CDs sejam lançados individualmente. Afinal,
alguns títulos interessam apenas a colecionadores caso do precário, tecnicamente,
Barra 69, ou das duas coletâneas. Entre os senões, o fato de a entrevista
com Caetano (feita por Charles Gavin e Luís Pimentel, no livro Tantas canções,
que acompanha a caixa) ser interrompida após o disco Velô (de 1984). Gavin
justifica dizendo que Caetano não teve mais tempo. E na transcrição da entrevista, pelo
menos dois erros: a banda que Arto Lindsay tinha chamava-se DNA, e não No Wave (este era
o nome do movimento de vanguarda de Nova York em fins dos anos 70); e a grafia correta da
cantora baiana é Edith do Prato (e não Edite do prato). (Antonio Carlos
Miguel)
(© O Globo On Line) |
| Aos 60 anos, Caetano reúne sua obra em
caixa de 40 CDs |

Silvio Essinger
Repórter do JB
O fim do Ano Caetano, aquele em que o
cantor e compositor completa 60 anos com toda a sorte de homenagens pela sua gravadora,
termina agora com a edição de Todo Caetano, caixa reunindo seus 37 discos de
carreira em versões restauradas sonora e graficamente (em capinhas de papel, imitando
LPs), dois CDs bônus e um DVD áudio. Ela custa entre R$ 900 e R$ 1 mil, mas dentro de
algum tempo os CDs serão vendidos separadamente, em caixinhas normais de plástico.
- Aquela caixa de plástico
horrorosa... - comentou Caetano, em entrevista coletiva anteontem, na sede da gravadora
Universal Music.
O trabalho de restauração
do som foi feito ao longo de um ano e meio pelo baterista dos Titãs, Charles Gavin. Um
reparo necessário à primeira caixa de CDs reunindo a obra do cantor, lançada em 1996.
- Quando aquela caixa saiu,
fiquei contente de ver tudo junto, mas quando botei pra ouvir não achei que soasse bem.
Ele acompanhou as primeiras
etapas da restauração.
- As músicas simplesmente
soaram mais bem gravadas, mais bem tocadas e mais bonitas do que antes - diz.
Nos discos de 1987 para
trás, Gavin optou por fazer também um trabalho de remixagem (que mexe em cada
instrumento), além da remasterização (que mexe no todo).
- É um trabalho complicado,
porque é muito fácil errar com mixagens tão conhecidas e importantes. A idéia era
fazer a música crescer sem descaracterizá-la. Nem sempre as mixagens originais
correspondiam ao astral das gravações - conta o baterista.
Caetano diz ter tido boas
surpresas no trabalho.
- Surpreendeu-me o som das
bandas. Fiquei impressionado com o tamanho que ele ocupa. Tem vezes em que você sente a
presença das pessoas tocando, mais do quando o disco ficou pronto - depõe.
Muitas vezes, Todo
Caetano envolveu um trabalho de detetive. As capas, em sua quase totalidade, são
fiéis reproduções daquelas das primeiras edições - como a arte original desapareceu,
Gavin e o estúdio de design Pós Imagem tiveram que ir atrás de colecionadores e sebos,
para muitas vezes achar apenas um original rabiscado ou rasgado, escaneado e não raro
recriado em busca da total fidelidade. Coisa parecida aconteceu com as matrizes sonoras,
algumas das quais perdidas. Caetano, por exemplo, lamenta não ter podido recuperar os
cortes da censura nas músicas A little more blue e Maria Bethânia, do
disco Caetano Veloso, gravado em Londres durante o exílio.
- A edição inglesa do LP
não tem o corte. Eu poderia ter partido de um vinil, mas não achamos nenhum - diz
Caetano, que chegou a autografar um desses LPs-relíquia para um fã alemão.
Sobram alegrias, porém.
Como a de enfim ver lançadas, num dos discos da caixa, as gravações do Bicho
baile-show, espetáculo que fez em 1978 com a Banda Black Rio. Charles Gavin descobriu
a fita por acaso nos arquivos da WEA.
- Foi uma experiência
criticamente muito agredida, achavam que era alienação esse negócio de show para
dançar. Mas daquela vertente Black Rio saiu o funk carioca e toda a cena hip hop do
Brasil. Senti que aquilo era de grande importância. Foi um fracasso total do ponto de
vista jornalístico empresarial, mas, para mim, foi um grande triunfo - diz.
Na correria para lançar Todo
Caetano ainda em 2002, muitas gravações ficaram de fora. E projetos foram adiados.
- A única coisa que pedi
para sair este ano vai sair ano que vem. É o DVD de Cinema falado [único filme
que dirigiu]. Não ligo para fazer 60 anos. Mas aproveitei o aniversário como um
pretexto para pedir isso - lamenta Caetano.
(© JB Online)
Perfil musical quase completo
Coletânea não raspa o fundo do baú
Tárik de Souza
Crítico do JB
Todo Caetano? Nem
todo, apesar do volume de 40 CDs acondicionados na robusta caixa produzida pelo titã
Charles Gavin para a Universal, gravadora onde Caetano Veloso registrou quase toda a sua
obra desde 1967. Oficialmente, só deveria faltar o compacto simples de estréia do cantor
na antiga RCA (atual BMG) com Cavaleiro (da trilha do filme Proezas de Satanás
na Vila do Leva-e-Trás, de Paulo Gil Soares) e o manifesto Samba em paz (''O
samba vai vencer/ quando o povo perceber/ que é o dono da jogada''). Ou a gravação
caseira, ainda adolescente na Bahia, acompanhada ao piano pela irmã Nicinha com Feitiço
da Vila (Noel Rosa/ Vadico) e Mãezinha querida (Getulio Macedo/ Lourival
Faissal), anotada no inventário do livro Esse cara, de Heber Fonseca (Editora
Revan, 1993).
Ou ainda as (copiosas)
participações em discos alheios e songbooks. Mas há mais lacunas, especialmente no CD Singles,
compilado por Jin Nakahara e lançado inicialmente no Japão. Será que foi para ser fiel
ao título que ficou de fora o básico compacto duplo Caetano Veloso e Os Mutantes ao
vivo, de 1968, com versões incendiárias de Baby, Saudosismo, Marcianita
e A voz do morto?
A única peça rara de Todo
Caetano acaba sendo o inédito Bicho baile- show, gravado ao vivo em 1978, no
Teatro Carlos Gomes, com a Banda Black Rio. Sobra também um bônus para adoradores da
tecnologia, o DVD Audio (com clássicos tipo Tropicália, Sampa, Terra,
Podres poderes) em multichannel surround, também conhecido por sistema 5.1,
''uma mixagem organizada, distribuída em seis canais de áudio''.
Também não há - ao
contrário das duas caixas do comparsa tropicalista Gilberto Gil (da Warner e da própria
Universal) _ ''takes alternativos'', faixas bônus ou descobertas do fundo do baú. A
exceção é o mencionado Bicho baile show, um sincretismo bem caetânico do
rescaldo do movimento Black Rio (representado pela banda liderada pelo saxofonista Oberdã
Magalhães), com a era discoteque em plena efervescência.
Provocador, ele atiçava o
contraplano sociopolítico no hino Tigresa, a ''que gostava de política em 1966/ e
hoje dança no Frenetic Dancin' Days'', a casa noturna âncora do iniciante Shopping
Center da Gávea, pilotada por Nelson Motta com as Frenéticas como garçonetes/cantoras.
Do mesmo disco é outro petardo hedonista, Odara (''Deixa eu dançar/ pra meu corpo
ficar odara/ Pra ficar tudo jóia rara'') e a reivindicante Gente (''Gente é pra
brilhar/ não pra morrer de fome''). Há espaços para longas jams instrumentais da BBR,
que sola em cinco das 14 faixas (Baião, Na Baixa do Sapateiro, Maria
Fumaça, Caminho da roça e Leblon, Via Vaz Lobo). Na época, o grupo
ostentava músicos da estirpe de Cristóvão Bastos (teclados), Jamil Joanes (baixo) e
Barrosinho (trompete), além de Oberdã (saxes soprano, alto e tenor) e injetava
digressões de jazz no pulso funk, o que torna o show com Caetano um curioso exercício de
linhas paralelas que raramente se encontram.
No outro inédito do pacote,
o CD Singles, além das supracitadas, há outras ausências como a da farrista Barão
beleza (Tuzé de Abreu) do compacto triplo O carnaval de Caetano, gravado em
Londres em novembro de 1971 (com Macalé no violão e guitarra, Moacir, Tutti e Áureo no
ritmo), Massa real (outra face de Badauê, de 1980) e Pra valer
(Moacyr de Albuquerque), do compacto produzido por Roberto Santana, em 1983, com É
hoje (incluída em Uns, do mesmo ano). Em compensação, o disco recupera o
visionário Charles, anjo 45, com o autor Jorge Ben no insuperável violão samba
rock. Entram a gravação de estúdio de É proibido proibir e a da zoeira de vaias
ao vivo no ''ambiente de festival'', do FIC de 1968, onde Caetano questiona a platéia
estudantil: ''Se vocês forem em política como são em estética, estamos fritos''.
E mais uma pérola pouco
louvada do tropicalismo, Ai de mim, Copacabana (com Torquato Neto), o insinuante Samba
da cabeça (que mistura Elza Soares, Alcione e Joni Mitchell), além da stoneana
Let it bleed entre a marcha e o rocklero e uma curiosa fusão da toada Felicidade
(Lupicinio Rodrigues) com Luar do sertão (Catulo da Paixão Cearense).
Mais uma fusão matadora
agrega o pré-DNA Nega maluca (Fernando Lobo/ Evaldo Ruy), Billy Jean (de um
Michael Jackson pré-Família Adams) e a beatle Eleanor Rigby, do disco acústico
gravado por Caetano no Vanguard Studios, em Nova York, em 1985, e lançado aqui sem o
alarde do The New York Times que o colocou entre os dez melhores do ano. Claro, a
caixa tem também desde a estréia pós-bossa Domingo ao lado de Gal Costa a
títulos que abalaram/balizaram a MPB como Tropicália, Caetano e Chico juntos e
ao vivo (também incluído na caixa do Buarque), Transa, Araçá azul (que
confirmou a letra de Épico, ''coloquei todos os meus fracassos/ na parada de
sucessos'', com seu índice recorde de devoluções), Jóia (e seu dialético
antípoda) Qualquer coisa, Muito (dentro da estrela azulada), Cinema
transcendental, Uns, Velô, Estrangeiro, Circuladô, Fina
estampa (e respectivas versões ''ao vivo''), Tropicália 2 (com Gil) e até o
recentíssimo Eu não peço desculpas com Jorge Mautner. E ainda um livreto onde o
astro discorre sobre alguns dos discos e emenda política, cultura e postura como ''a
ambição de mexer na estrutura subjacente à criação, no ambiente que possibilita a
criação''. Pode não ser Todo Caetano, mas é mais que suficiente para rechear o
perfil do artista que dividiu a linha evolutiva em A/C e D/C.
Todo Caetano. Caixa com 40 CDs.
Universal. R$ 900, em média.
(© JB Online) |
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(arquivo NordesteWeb)
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