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Silvério contamina frevo com batidas urbanas

22/12/2002

Silvério Pessoa

A música de Jackson do Pandeiro ganha roupagem do século 21 em Micróbio do Frevo, que tem participação de artistas como Naná Vasconcelos, Marco Polo, Almira Castilho, Eddie, Via Sat, Re:combo e Mônica Feijó

JOSÉ TELES

   Jackson do Pandeiro nunca teve compromissos com raízes daí a razão de ter sido o inovador que foi. Ele cantou do coco ao samba, com os mais diversos arranjos, e foi pioneiro ao fazer o frevo pular fora da ortodoxia recifense. Sua impecável divisão de frases caía como uma luva nos compassos complexos do frevo, mas ele não se restringia a cantá-lo como queria o figurino. Depois de Jackson do Pandeiro, somente no final dos anos 70 foi que Carlos Fernando e seu projeto Asas da América voltou a radicalizar com um frevo novo, letrando-o com temas contemporâneos, embora os arranjos ainda permanecessem mais ou menos dentro da tradição e estivesse muito próximo à MPB corrente. Agora chega Silvério Pessoa, com Micróbio do Frevo, retomando as ousadias de Jackson do Pandeiro, dando-lhe roupagem do século 21, aproveitando a abertura escancarada pelo movimento mangue beat.

   Capiba ao escutar músicas do Asas da América resmungou para Carlos Fernando: “Pra mim isso é rock”. O que resmungarão agora os puristas ao escutar Silvério Pessoa e comparsas? Eles reinterpretam esta coleção os sucessos carnavalescos (nem todos frevos) que Jackson do Pandeiro fez o Brasil inteiro cantar entre 1954 e 1967 (época que coincide com a decadência da música para Carnaval).

   Com ajuda de especialistas, como seu amigo José Manoel, Silvério Pessoa recolheu os números mais representativos da veia carnavalesca de Jackson do Pandeiro (que se valia de compositores inspirados como Paquito e Romeu, Sebastião Lopes, Edgar Ferreira, Genival Macedo), mas não se limitou a prestar uma simples homenagem (até porque desde que pertencia ao Cascabulho que ele reverencia o mestre).

   OUTRAS INFLEXÕES – Micróbio do Frevo é um disco conceitual, foi concebido como uma revista em que o folião Jackson do Pandeiro é o principal personagem. Daí em diante ele tomou as liberdades que arte permite.

   O disco abre com um poema (de Silvério Pessoa e Wilson Farias) A voz da terra no planeta dos urbanóides, uma espécie de manifesto, e segue com Micróbrio do Frevo (Genival Macedo) com um arranjo quase convencional (metais arranjados por Spok). Mais uma vinheta, com Carnaval em Nova Orleãs (Silvério e o Bate Mancá), um conhecido poema de Ascenso Ferreira e entra o clássico (de Sebastião Lopes) Me dá um cheirinho. Os versos hoje têm claramente outras conotações, que Silvério Pessoa torna óbvias com os convite de “Let’s fly, Let’s trip, e alguns “sniffs sniffs” depois que canta: “Me dá um lenço mandarim/Bota um pouquinho desse cheirinho para mim”. A faixa ficaria melhor se prescindisse desses adereços desnecessários.

   Pegou melhor a etiqueta “Original Olinda style” no frevo Minha marcação (Jackson/Alventino Cavalcanti/Ulisses Silva), a cargo da Eddie. Fábio Trummer e o grupo dão a inflexão vocal e o compasso cafajeste que a música pede: “Olha o rebolado que ela faz/ Não posso mais, eu vou atrás/ Pra ver”.

   Silvério Pessoa é nominalmente o dono, mas na realidade o disco é uma criação coletiva,dele, músicos, e convidados: Marco Polo, Mônica Feijó, Almira Castilho, Jaiminho, do Matalanamão, Devotos, a turma do Re:combo, Ataque Suicida, Via Sat, Naná Vasconcelos, enfim grande parte de quem faz a música moderna pernambucana.

(© Jornal do Commercio)

Projeto causa mais um abalo na estrutura dos ritmos pernambucanos
 

   Duas das faixas mais radicais de Micróbio no Frevo são Elaboração frevo (letra Zé Brown, programação Lagarto), um frevorap que emenda com Tá como o diabo gosta (A. Garcia e Enoque Figueiredo), com o Re:combo. Aí qualquer resquício de pudor de mexer com o sacrosanto ritmo venerando de Pernambuco foi para as cucuias, e bem encaminhado. Micróbio do Frevo não está longe da recriação feita em cima do repertório de Luiz Gonzaga no CD Baião de Viramundo, com uma diferença: o próprio Luiz Gonzaga encaregou-se de modernizar o forró, atualizando-lhe os temas e as ferramentas com as quais ele era tocado. Silvério Pessoa arrisca-se a enfrentar as críticas do muitos que consideram o frevo “imexível”.

   Se é verdade que a culpa por a nova geração de foliões não se interessar pelo frevo deve-se a ambos falarem línguas diferentes, então Micróbio do Frevo veio solucionar o conflito. No Carnaval, este disco não pode ficar fora das ruas de Olinda.

(© Jornal do Commercio)

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