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Muito barulho por quase nada

27/12/2002

O elenco da Cia. da Tribo contava a história de Delmiro Gouveia em O Coronel dos Coronéis

A Cia. da Tribo trouxe a Fortaleza a peça O Coronel dos Coronéis, fim de semana passado no teatro do Centro Dragão do Mar. Mas infelizmente a montagem pecou pelo excesso nos figurinos, adereços, cenário e até no uso de linguagens distintas

Emmanuel Nogueira
Articulista do Vida & Arte

   Tudo demais pode ser veneno, ensina o adágio popular. No teatro, a inflação, mesmo que simbólica, também é um pecado. O excesso de adereços, histórias, personagens, pode truncar, enfadar, fazer mal, ao invés de ajudar. A peça O Coronel dos Coronéis, da Cia. da Tribo de São Paulo, que esteve em cartaz no último fim de semana no Teatro do Centro Dragão do Mar, se perde pela demasia teatral, pela mistura não dosada de muitos gêneros (clown, melodrama, mímica, teatro histórico e de bonecos). São cerca de uma hora e meio de peça onde prevalece o excesso de figurinos - que provém o surgimento de dezenas de personagens, de cenários montando/ desmontado, de adereços dispensáveis, de uma saga que faz muito barulho por quase nada.

   Para contar a história de Delmiro Gouveia, a Cia. da Tribo também não economizou nas palavras. A história do homem que criou o primeiro modelo de shopping center do Brasil, a hidrelétrica de Paulo Afonso e outras raias do progresso no semi-árido nordestino, é contada desde seus ancestrais, antes mesmo do nascimento de Delmiro, passando pelos seus amores fortuitos, suas lutas contra as forças do atraso, até sua morte.

   Esse ritmo narrativo linear e previsível, faz d'O Coronel dos Coronéis, com direção de Paulo Ribeiro e texto de Maurício Segall, um teatro histórico enfadonho e fossilizado, que nem mesmo a recorrência à metalinguagem teatral, que é a trama central da peça, o livra do didatismo tacanho, desses que se aprende a duras penas nos bancos escolares, com seus valores e utilidades questionáveis.

   O que se propõe de mais inusitado em O Coronel dos Coronéis é a sua forma metateatral - o teatro dentro do teatro ou a metáfora da vida como teatro. A peça se desenrola quando, em suas andanças, um grupo mambembe, formado pelo trio Alegria, Ana e o Palhaço, encontra-se com dois matutos nordestinos: Zefa e Bastião - mãe e filho. Dona Zefa sabe de cor a vida e os feitos do Coronel Delmiro. Alegria fica entusiasmado para montar essa grande história, mas falta atores. Nessa lacuna, entra em ação os matutos para viver a vida da ficção, que parece ser mais doce que a aridez do sertão.

   No desenrolar dessa ação metateatral a peça também se perde. Porque, paralelo a encenação da vida do Coronel Delmiro, há a história de um grupo de teatro mambembe falido, há a história de uma família nordestina encurralada pela miséria, há a história de amor entre Ana, Palhaço e Bastião. Enfim, há histórias demais para o aprofundamento de menos.

   A percepção do espectador não é guiada, sugerida, mas jogada de um lado para outro, sem que este possa se concentrar em um tema, tensão ou emoção específica.

   A opção pelo uso dos vários gêneros não é ruim somente para o espectador, é prejudicial também para o trabalho da Cia. da Tribo. O Coronel... é uma comédia que não faz rir; um melodrama que não emociona, um clown que não encanta. Isso, ao que parece, reflete de maneira vistosa a pouca habilidade da Cia. para com os temas da cultura popular nordestina. A Cia. parecer viver o tempo do alumbramento pelas cores e ritmos da cultura popular, sem, todavia, conseguir adentrar por suas raízes.

   Um bom começo para um melhor conhecimento dessa cultura seria, por exemplos, os atores que interpretam os papéis dos matutos nordestinos deixassem de fala com aquele sotaquizinho arretado, pôrreta, que a gente só vê nos ''nordestinos'' da TV.

   O Coronel dos Coronéis serve para a gente pensar um pouco sobre qual a razão, ou mesmo se há alguma razão, na escolha dos espetáculos de outras fronteiras para se apresentar em nossos palcos. Isto porque 2002 foi ano de raros bons espetáculos vindo de outras praças. Os gestores e produtores culturais mantiveram-se em ritmo de fim de governo, contando os dias para acabar e quase nada mais. A supor por estas duas últimas curtas temporadas dos espetáculos Os Segredos do Pênis e O Coronel dos Coronéis - sem querer fazer nenhum tipo de comparação - fica a certeza de que o público cearense merece coisa mais arrojada e de melhor qualidade teatral. Mas isso é tema para futuros diálogos para com esse velho governo que se inicia.

(© NoOlhar.com.br)

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