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03/09/2001

Folclore para o século 50

Souto Maior prepara livro "Informática: Antologia da Modernidade" para dezembro. Discípulo de Câmara Cascudo, etnólogo publicou 56 obras, entre elas o "Dicionário do Palavrão"

XICO SÁ
DA REPORTAGEM LOCAL

   O apanhador de coisas Mário Souto Maior, 80, filho de Bom Jardim, cafundó pernambucano, com 56 livros publicados -60 até o final deste ano-, não desgruda da flor de obsessão que lhe passou, em carta de 20 de janeiro de 1977, o mestre Luís da Câmara Cascudo: "O essencial é armazenar a documentação existente, para o século 50 e tantos".

   Souto Maior, o etnólogo mais gabaritado para honrar a faixa de sucessor do potiguar Câmara Cascudo (1896-1986), não pára um instante quieto, de tanta impaciência em recolher o que se pode chamar de um museu de tudo da sabedoria popular. Algo se mexeu, povo falou, o danado registra, armazena.
"Tem faro teimoso, comunicação clara e ágil, sabendo excelente ler e ver. É uma roseira credenciando a própria floração", adivinhou o mesmo Cascudo, em carta de dezembro de 1978 endereçada ao discípulo, para carimbar as afinidades eletivas e reconhecer o herdeiro do método.

   Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, do Recife, onde auxiliou Gilberto Freyre em muitos dos seus achados, o etnólogo levou tão a sério o apontamento futurista do amigo potiguar que prepara o seu livro mais radical: "Informática: Antologia da Modernidade". O livro, que deve ser lançado até dezembro -nem que para isso se utilize de dinheiro do próprio bolso, como foi obrigado em várias ocasiões-, segue a trilha de quem guarda coisas para o século 50 e tantos.

   "Com suas correntes, frases, aforismos anônimos que lembram tanto a filosofia grega quanto os pára-choques de caminhão, a internet já tem o seu folclore", conta Souto Maior à Folha, de Olinda, onde mora e ouve o barulho do mar, sempre com a alma mais sertão-veredas possível.

   O autor do "Dicionário do Palavrão" (lançado em 1980 pela editora Guararapes, no Recife, depois de esperar a liberação da abertura lenta e gradual do regime militar) avalia que a internet, na sua multiplicação doida de mensagens, acabou por propagar uma coisa rara: o folclore de classe média, uma vez que o populacho ainda não tem acesso de verdade "à brincadeira" da dita rede mundial de computadores.

   Com reflexões que derrubariam da cama o cético e apocalíptico estudioso francês Paul Virilio, o homem fala da guerra real, a velocidade: "Já pensou se tivesse mensagem eletrônica quando pesquisei os palavrões? Noves fora o apanhado de campo, tive que mandar milhares de correspondências para toda gente de língua portuguesa, tanto do Brasil como para outros países". (Folha de S. Paulo)


Pesquisador pernambucano Mário Souto Maior completa 3.500 palavras do maldizer do brasileiro e português

"Dicionário do Palavrão" ganha 500 verbetes

DA REPORTAGEM LOCAL

   O pesquisador Mário Souto Maior é hoje o Aurélio ou o Houaiss, para evitar confusão na guerra dos lexicógrafos, da língua "errada" do povo, mania que também marcou a vida e obra do erudito Câmara Cascudo.

   O cabra é doido por juntar vocábulos e sentidos. Engordou recentemente o seu "Dicionário do Palavrão e Termos Afins" (7ª edição pela Record), que já mantinha 3.000 verbetes, com mais 500 novos impropérios, do português do Brasil e do português de Portugal.

   Aguarda, o sucessor de Cascudo, o despertar da editora para unir a nova pesquisa ao mundo dos palavrões e safadezas afins. "A cada dia, junto mais saudáveis safadezas", alerta Souto Maior. Tal ajuntamento de maldizeres nasceu de proposta de Gilberto Freyre nos anos 70: "Os alemães fizeram uma reunião de coisas mais ou menos imorais, por que não fazes a versão portuguesa?".

   "Do palavrão, pode um pesquisador valer-se como um dos elementos que o auxiliem a concluir que, no comportamento sexual de uma sociedade, é ecológico e culturalmente condicionado", justificou o mesmo Freyre.
Surgia então, véspera dos 80, o "folclorerotismo", lição de safadezas populares, tema frequente nos livros de Souto Maior. "O velho Giba (Freyre) ficou entusiasmado, como sempre, e caí na vida para colher as palavras", relembra o autor. Freyre, que havia carregado o seu "Casa-Grande & Senzala" de expressões como "jurar pelos pentelhos da virgem", celebrou a chegada do "Dicionário do Palavrão" com fogos.

   "Curioso encontrarem-se palavras de uso ou abuso obsceno no Brasil, como boceta, que em Portugal têm apenas o sentido de descrição de objeto nada ligado a sexo. O inverso acontece com a palavra tomates: em português de Portugal, na sua conotação sexual, é o mesmo que testículos", registrou o sociólogo.

   O amontoado de safadezas levantou o moral de muita gente. "Posso publicar que o "Dicionário do Palavrão" está retido na censura desde 1974", indagava, em telegrama de 3 de abril de 1976 -enviado para o amigo Souto Maior-, o poeta Carlos Drummond de Andrade, dando conta da proibição, imposta pelo regime militar à obra. (XICO SÁ) (Folha de S. Paulo)


Editora lança obra rara de Cascudo

CYNARA MENEZES
DA REPORTAGEM LOCAL

   Uma obra rara de Luís da Câmara Cascudo está sendo relançada agora por uma editora de Manaus: "Em Memória de Stradelli", livro em que o folclorista potiguar traça um perfil do conde Ermanno Stradelli (1862-1926), italiano que trocou seu país pelo calor e vida selvagem do Norte do Brasil.

   Stradelli viveu no Amazonas durante 43 anos, de 1879 até sua morte, entremeados de curtos períodos na Itália. Publicou alguns trabalhos sobre a região, mas sem rigor científico; são relatos e impressões de viajante que deixaram Cascudo encantado pelas descrições "literárias e amorosas" dos costumes e do dia-a-dia dos nativos da região.

   Chega a ser engraçada a maneira como o escritor tenta definir as narrativas de Stradelli, expostas, por exemplo, na introdução a seu "Vocabulário Nhengatu-Português e Português-Nheengatu", espécie de dicionário da língua falada pelos povos indígenas do Norte, ainda hoje utilizado como referência por pesquisadores.

   Além do "Vocabulário", Stradelli publicou, em italiano, "La Leggenda dell'Jurupary", sobre o demônio mitológico que assombra os índios, "Rio Branco" e "L'Uaupes et gli Uaupes", todos fora de catálogo no Brasil.
"Como narração de viagem, Stradelli é desconcertante", escreve Câmara Cascudo. "Não traz um só episódio sensacional. (...) Nem serpentes, jacarés e onças aparecem nas páginas tranquilas da história singela. (...) O extremo valor de sua jornada está justamente na nobre simplicidade com que a fotografou."

   A vida do conde Stradelli, morto pela hanseníase (Cascudo usa a palavra "morféia" para a doença) aos 64 anos, foi pesquisada por Câmara Cascudo durante 18 meses, por meio de cartas e informações que vinham da Itália e dos lugares do Brasil por onde passou. É de se imaginar como seria hoje pesquisar a biografia do conde, cuja trajetória daria, sem dúvida, um filme e tanto.

   A edição traz alguns problemas, como a falta de tradução para os trechos que Cascudo transcreve em italiano, diretamente dos livros de Stradelli.
Fazem falta também notas explicativas sobre termos como "tariano" (povo indígena do Alto Rio Negro) ou "ameraba" (para "ameríndio"), fartamente utilizados no livro. Causa estranheza ainda a manutenção do prefácio um tanto ufanista escrito pelo historiador Arthur Cezar Ferreira Reis, que governou o Amazonas durante o regime militar. (Folha de S. Paulo)


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