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10/09/2001

Orquestra Itiberê Família: presença de Hermeto

Hermeto Pascoal Foto: Ana Branco (O Globo)

Arnaldo Bloch

   O mundo está melhor desde que o contrabaixista, tubista e compositor Itiberê Zwarg — que há duas décadas integra a usina sonora de Hermeto Pascoal — reuniu 27 jovens músicos e começou a ensiná-los a mágica que aprendeu com o mestre albino. Não apenas ensinar, mas também adicionar ao idioma “bruxístico” as suas próprias idéias, multiplicando a matriz sonora da melhor música do Brasil numa estrutura que reflete suas cores em combinações ilimitadas. Respire fundo: piano, teclado, baixo, violinos, violas, cellos, contrabaixos, flautas, flautins, saxes, bateria, percussões, vibrafone, clarinete, clarone, trompete, melofone, guitarra elétrica, violão, cavaquinho, bandolim, viola caipira, sanfona e vocalise...

   Isto tudo soando junto se chama Orquestra Itiberê Família. É uma festa. A rapaziada — a média de idade é 20 anos! — está tocando o fino dedicando-se ao projeto quase em tempo integral.

Criação é coletiva e execução, sem partitura

   A flautista Letícia Malvares, de 18 anos, que tenta conciliar a faculdade de museologia com os ensaios, dá uma aula de como se veste a camisa de um desafio:

   — A gente aqui investe na música. Os nossos pais nem sempre gostam, mas o Itiberê segura a barra: faz reunião com eles e explica a importância do que fazemos.

   Nos ensaios, contagiantes, cheios de risos, gritos e balanços, entende-se o processo que Itiberê chama de “composição e arranjo de corpo presente”, e que extrapola o método da “escola de Jabour” (nome do bairro próximo a Bangu onde Hermeto mora e ensaia): os temas e a harmonia vão nascendo em sua cabeça e desenvolvendo-se coletivamente sem notação, tudo de ouvido. Ao fim do ensaio, cada músico escreve a sua parte em casa, mas é só para garantir... a execução é sem partitura. Fenômeno que o público vai conferir nos dias 10 e 17 de outubro, respectivamente no Tom Brasil (SP) e no Carlos Gomes (RJ), quando será lançado o CD “Pedra do Espia” (pelo selo Jam Music, de Jane Duboc), resultado de dois anos e meio de trabalho.

   — Esses meninos e meninas já são os netos do Hermeto. Somos uma família, a família da música. A missão continua — comemora Itiberê, durante um ensaio sob o poente de Santa Teresa, o Rio inteiro ao fundo, em 360 graus.

   O guru, por telefone, abençoa:

   — Nunca teve tanta gente jovem com tanto talento querendo tocar como agora. No meu tempo não era assim. É uma época privilegiada — sacramenta Hermeto Pascoal, reforçando a sensação geral de que a música instrumental vive um renascimento neste ano em que Moacir Santos e Meirelles ressuscitaram.

   A Orquestra Itiberê Família nasceu quando Hermeto disse para o pupilo:

   — Você está maduro. É hora de se colocar, fazer seu próprio som.

   Mas diferentemente de outros filhotes que seguiram trabalhos-solo, como Carlos Malta e Jovino Santos, Itiberê não abandonou o grupo. Tampouco iniciou imediatamente o novo trabalho. Preferiu esperar que ele surgisse naturalmente, o que aconteceu durante uma oficina que deu na escola Pró-Arte, em Laranjeiras.

   — De repente vi que não era mais uma oficina, mas um trabalho. Então, tive que aprender a desenvolver minhas idéias, o que não era fácil: tocar com Hermeto, para mim, sempre foi trabalho solo, pela liberdade e pelo senso coletivo que ele impõe.

   Hermeto, orgulhoso da paternidade espiritual, dá a entender que Itiberê é tutor preferencial de sua herança de milhões de notas e ritmos:

   — Entre os meus filhos, ele sempre foi aquele mais apegado ao trabalho. Estou feliz que nem porco na lama. Você sabe, porco na lama fica muito contente.

   O filho agradece, levando a justíssima rasgação de seda a níveis cosmológicos:

   — O Hermeto não é apenas o maior músico e compositor vivo do Brasil. É o maior da Terra em todos os tempos. Não é à toa que músicos do mundo inteiro o reverenciam, e que seus concertos são pirateados por uma multidão de seguidores que não se contenta em esperar pelas gravações. O próprio Hermeto não gosta muito de gravar, ele acha que veio ao mundo para algo maior: compor a sua música universal, estilo que abrange todas as cores.

Matriz sonora levada aos extremos da música

   As cores de Itiberê, de certa maneira, propagam a aquarela de Hermeto: nas 30 composições do repertório (apenas duas do mestre) o núcleo rítmico nordestino pincelado de samba e jazz prevalece na base; os lampejos de erudição comparecem; o atonalismo e a polifonia alternam-se com temáticas populares de grande simplicidade, que resvalam no medieval e no rústico; e o desafio de levar os recursos dos instrumentos às suas últimas possibilidades sonoras e técnicas é conduzido a extremos.

   A diferença básica está na formação — a orquestra decompõe a luz sonora em vários matizes — e numa vontade que Itiberê tem de levar as idéias de Hermeto a novas regiões, as que ele mesmo está explorando no seu coração devoto e na sua mente povoada de um lirismo feroz.

   A diferença está, também, em quem materializa as idéias: Vítor, João, Bruno, Joana, Pedro Cristiano, Cristiano, Pedro Paulo, Maio, Renata, Isadora, Carolina, Pedro Mano, Maria Clara, Pedro Albuquerque, Aline, Sidney, Mariana, Geórgia, Ajurinã, Mingo, Roberto, Joana, Thiago, Bernardo, Miguel, Luciano, Letícia. Estão de parabéns. (© O Globo)


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