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12/09/2001

Dori Caymmi homenageia seus "gênios"

Intérprete radicado nos EUA vem ao país para lançar "Influências" e fala sobre seu auto-exílio e sua melancolia

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
DA REPORTAGEM LOCAL

   Brasileiro-forasteiro, o músico, arranjador e cantor carioca Dori Caymmi, 58, está de passagem por seu país (ele mora em Los Angeles) para lançar o disco "Influências", em que presta homenagem aos artistas -quase todos também brasileiros- que ele julga formadores de sua personalidade musical.

   Quem bancou o disco foi a produtora japonesa Horipro, e a distribuição nacional acontece por iniciativa da major Universal. No universo de influências assumidas por Dori estão Noel Rosa, Braguinha, Jacob do Bandolim, Ary Barroso, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Baden Powell e, é claro, o pai, Dorival.

   "Tenho saudade de um Brasil que me prometeram e não deram. Meu disco é minha retribuição a esses homens importantes que me formaram. Sou filho de um homem importante, criado entre gênios que fizeram o que fizeram num país decepcionante como este. Sendo filho de meu pai, não poderia ser outra coisa. Mas não aconteceu, fui embora, me isolei. O lançamento de meus discos aqui é lançamento pela janela, na Paulista", brinca, melancólico.

   Há homenagens menos explícitas, também, à tradição de arranjadores a que ele se filia. O arranjo de "Pé do Lajeiro" é referência confessa ao que Tom Jobim fizera para essa canção de João do Vale. O maestro paulista Leo Peracchi, um de seus prediletos, frequenta as entrelinhas de "Influências".

   "Leo fez um disco lindo com meu pai, "Caymmi e o Mar" (57). Fez uma cortina cinematográfica por trás, eu era garoto e achei que era o que eu queria ser na vida. Estou longe de concretizar isso, porque não estudei. Sou intuitivo, hoje sinto falta do estudo. Mas existe um ponto de diferença. Você vai ganhar muito dinheiro e ser muito famoso ou vai gostar de acordes e harmonias. Leo Peracchi era assim, e eu também sou."

   Antes de migrar do Brasil (seguindo, também nisso, o exemplo de seu mestre Peracchi), Dori pôde solidificar aqui mesmo carreira de arranjador e orquestrador. Nos 60, conduziu LPs de Nara Leão e a estréia conjunta de Caetano Veloso e Gal Costa; nos 70, trabalhou com Tom Jobim (em "Matita Perê", de 73, por exemplo) e esteve por trás de trilhas sonoras antológicas de TV, como "Gabriela" (75) e "Sítio do Pica-Pau Amarelo" (77).

   "Fiz discos de Nara quando a Universal era Philips e lá trabalhavam João Mello, Armando Pittigliani, João Araújo. Era uma época em que diretor de gravadora andava de Volkswagen, não de Mercedes Benz. No outro tempo era melhor", lembra.

   "Depois se começou a definir a coisa do executivo. Os diretores são quase todos meus amigos, mas eles se vendem, se trocam. Muda o cocô, mas a mosca continua sempre a mesma. A gente era mais patriota. Patriotismo se perde aos poucos, mas no Brasil o perdemos "aos muitos'", avalia.

   Sem qualquer contato com o remake do "Sítio do Pica-Pau Amarelo", em andamento pela Globo, lembra-se do que moveu o trabalho da trilha original:
"Éramos nacionalistas, fazíamos discos nacionais para os programas. Chamei Sérgio Ricardo, Jards Macalé, [o produtor] Guto Graça Mello chamou Geraldo Azevedo. Era a intenção evidente de trazer para a Globo essas pessoas perseguidas. Não importava que fosse menos infantil, que não tivesse nada que ver com criança. Era complicado, mas deu certo".

   Fala da tarefa do arranjador, e nela já inclui o Brasil: "É uma profissão nobre a do arranjador. É preciso nascer com ela. Eu ouvia Sinatra cantar, adorava, mas o fundo instrumental é que me fascinava. Gostaria que fosse no Brasil minha atividade, mas me canso abrindo jornal e vendo essas coisas todas tão mal resolvidas. Desde o plano Collor, com aquele assalto aos cofres nacionais, passei a não tolerar o Brasil".

   Diz que seu canto e sua música são tristes, e que tais características se devem a isso. "Minha música é reflexo de minha tristeza em relação ao Brasil. A música triste é mais bonita que a música alegre."

   Evoca, para falar de tristeza e alegria, o colega Dominguinhos, que canta no disco em "Pé de Lajeiro". "É triste a leitura que damos a "Pé do Lajeiro". Meu sonho é fazer um disco com Dominguinhos, meu grande ídolo nordestino. Uma vez estava tocando "Contrato de Separação" no apartamento de Nana Caymmi. Quando acabou, o prédio aplaudiu", conta, mostrando a pele arrepiada só por lembrar o episódio. (© Folha de S. Paulo)

CRÍTICA

Tristeza ácida infiltra as "Influências" do músico

DA REPORTAGEM LOCAL

   Estamos aqui no território do rigor. "Influências" é mais um disco em que Dori Caymmi exerce sua musicalidade tão íntegra quanto rígida, tão corpulenta quanto teimosa.

   Dori é da classe purista da MPB, daqueles que torcem o nariz para rock, dança, modismos e modalidades para eles acessórias na apreciação musical. Tal posição pode provocar antipatia e desdém, porque é polêmica mesmo, mas, isolada sua arte de todo o resto, nada há na música de Dori que possa magoar qualquer ouvido mais melindroso.

   "Influências" mostra Dori obstinado em seguir sua rota de declarar o mais melancólico dos amores pelo Brasil -é o que os filhos de Dorival parecem ter captado do pai, ao verem que o projeto de país da geração dele não se concretizaria. Gente bem-educada desde casa, pois não?
Como o próprio artista defende, a tristeza é a prova dos nove em seu trabalho, mesmo nas várias canções alegres que decidiu regravar, como "Faceira" (de Ary Barroso), "Pé do Lajeiro" (João do Vale, José Cândido e Paulo Bangu), "Lá Vem a Baiana" e "Acontece que Eu Sou Baiano" (ambas de Dorival) e "Conversa de Botequim" (Noel Rosa e Vadico), cantada em dueto lépido e fagueiro com Gal Costa.

   A transmutação de alegria em tristeza se dá em maior esplendor na faixa que Dori divide com a irmã Nana. "Linda Flor (Ai, Yoyô)", canção marota de Luiz Peixoto, Henrique Vogeler e Marques Porto que aqui reaparece transbordando desolação.

   Dori e Nana reafirmam sua tradição, que praticamente fundaram quando passaram a metabolizar Johnny Alf, Dolores Duran, Dick Farney (homenageado em cândida releitura de "Copacabana", de João de Barro e Alberto Ribeiro), Elizeth Cardoso...

   Nas canções propriamente tristes, Dori dá vazão a sua voz forte, trovejante, lustrando-as de emotividade taciturna, mas nunca chantagista ou abregalhada.

   Assim canta "Da Cor do Pecado" (de Bororó), "É Doce Morrer no Mar" (do pai, de novo), "Berimbau" (Baden Powell e Vinicius de Moraes), "A Felicidade" (Vinicius e Tom Jobim), mesmo da batida "Desafinado" (de Tom com Newton Mendonça).

   Assim canta, sobretudo, "Serenata do Adeus" (de Vinicius), em que conta com o auxílio arrepiante de Maria Bethânia, cantora que compartilha da tradição de alegria triste dos Caymmi, mas com o derramamento a mais de seu próprio e ardente drama.

   "Influências", ao final, é momento plácido, maduro e ainda rigoroso (mas não genial, como ele mesmo sabe) de Dori Caymmi. É ácido, porque conhece e repensa o absurdo do país de que seu autor fugiu. Mas guarda ainda tudo da candura com que esse mesmo homem ninava com seus arranjos e canções as crianças do "Sítio do Picapau Amarelo", 24 anos atrás. No rigor não há contradição, e é ali que moram a glória e a dor de Dori. PEDRO ALEXANDRE SANCHES- Folha de S. Paulo)

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