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24/09/2001
Historiador e documentário mapeiam a
babel da vida nordestina
XICO SÁ
da Folha de S.Paulo
Quando ouve falar de identidade ou imagem nordestina, o professor Durval
Muniz de Albuquerque Jr., filho de pai paraibano e mãe paulista, saca a sua peixeira
imaginária e diz o diabo. É o que se deduz da leitura de "A
Invenção do Nordeste - E Outras Artes", co-edição da Fundação Joaquim Nabuco,
do Recife, e da Cortez Editora, de São Paulo.
Doutor em história pela Unicamp, onde defendeu tese que originou o
livro-libelo, o autor pretende destruir as falas-clichês, com sotaques globais, que
originaram, tanto na cabeça sulista como entre os nordestinos, uma imagem estereotipada
da região.
Armado de Michel Foucault e Gilles Deleuze como um cangaceiro da Academia que
resolve enfrentar jagunços estereotipados, Albuquerque Jr. soma infinitos, mais de 2.000
Nordestes até, como na babel documentada no filme de Vicente Amorim e David França
Mendes.
Enquanto investigava as variadas imagens da região, o autor ouvia sentenças
que acabavam por ajudá-lo na vontade de destruir os muros simbólicos que separam a
"modernidade" do eixo Rio-São Paulo e o "atraso" dos povos do
Norte-Nordeste.
"Mas você não parece nordestino." Escutava repetidas vezes a
mesma assertiva de colegas "impressionados" com o seu jeito diferente, avesso do
homem-gabiru, dos velhos e novos baianos que trafegam, entre andaimes e desempregos, por
estas plagas.
A idéia que se tem de Nordeste e dos nordestinos, chão rachado na tela da
TV e sotaque fabricado pela fonoaudiologia "globeleza", é uma obra enviesada
para qual contribuíram, no dizer do autor, os próprios intelectuais burgueses da
região, o romance regionalista de gente como José Lins do Rego e Jorge Amado, a pintura
de Cícero Dias, o teatro medieval de Ariano Suassuna e os tantos cangaceiros do cinema da
Vera Cruz.
"Tais filmes abusam do uso de imagens-clichês do western americano. As
próprias locações escolhidas, quase sempre feitas em Itu, no interior de São Paulo, e
não no Nordeste, buscavam instaurar uma semelhança com o espaço do velho oeste
americano", diz.
Tudo isso serviu para desenhar o Nordeste como espaço da valentia e da morte
estúpida, por puro sadismo, prazer ou espírito de vingança, crava ele no livro.
Embora ache que Glauber Rocha também tenha se apegado à "imagética
hollywoodiana" para mostrar a cena nordestina, o autor anota a diferença entre o
diretor, grife de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", e os cangaceiros fake de
Lima Barreto. O primeiro, diga-se, épico, grande e barroco; o segundo, clichê de
terceira.
Nessa pisada no calcanhar do cangaço, temos no "Baile Perfumado",
de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, o contrário do folclorismo distanciado de Lima
Barreto.
A fita mostra um Lampião derrotado pela suposta modernidade. O triunfo das
primeiras rodovias, das quais tiraram proveito as volantes policiais, contra as veredas e
esconderijos do bando. Em "Bandidos", livro que retrata desajustados famosos do
mundo inteiro, com capítulo especial sobre Virgulino Ferreira, o historiador Eric
Hobsbawm já dava conta de tal entendimento, balas dialéticas na carcaça do cidadão.
No levantamento de Albuquerque Jr., essa idéia que temos do Nordeste tem
origem por volta de 1910, quando os coronéis consolidaram o discurso da esmola na
geopolítica dos tristes trópicos.
"O Nordeste e o nordestino miserável, na mídia ou fora dela, não são
produtos de um desvio de olhar ou fala, de um desvio no funcionamento do sistema de poder,
mas inerentes a esse sistema de forças e dele constitutivo", diz. "O próprio
Nordeste e os nordestinos são invenções de determinadas relações de poder e do saber
a elas correspondentes."
O historiador vê pura ficção na idéia de nordestinidade. "Tentar
superar esse discurso, esses estereótipos imagéticos e discursivos acerca do Nordeste,
passa pela procura das relações de poder e de saber que produziram essas imagens e
enunciados clichês, que inventaram esse Nordeste e esses nordestinos", prega o
livro.
Enquanto isso, nietzscheanos por excelência, os nordestinos, vide o filme
"2000 Nordestes", só acreditam nos deuses que dançam, xaxado d'alma. Seja no
semi-árido ou nos salões bregas do litoral, com o axé, dança de terreiro, Luiz Gonzaga
ou mangue beat, a oração possível é o amasso conforme a batida que vem de baixo,
debaixo do chão. (© Folha Online)
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