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24/09/2001 Jornada da Bahia entrega seus Exus ao cinema As adaptações literárias A Canga e Pagu conquistaram o Exu Jorge Amado no festival baiano. O Tatu de Ouro ficou com Urbânia e O Velho, o Mar e o Lago Salvador - A 28.ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia, edição dedicada ao escritor Jorge Amado, premiou o vídeo paulista Pagu, de Rudá de Andrade e Marcelo Tassara, e o filme paraibano, A Canga, de Marcus Villar, com o Troféu Exu Jorge Amado. O prêmio, criado por Calazans Neto, registra em placa de cerâmica vitrificada e esmaltada a figura de um Exu que paira sobre a Fundação Casa de Jorge Amado (no Pelourinho), tendo a imagem do escritor em seu ventre.O Prêmio Exu Jorge Amado, criado em caráter excepcional para a 28.ª Jornada da Bahia, destina-se a filmes e vídeos inspirados em obras literárias. Pagu baseia-se no livro de mesmo nome, da escritora Lúcia Teixeira Furlani, e A Canga recria trechos de romance do escritor W.J. Solha. Um "Exu Jorge Amado Especial" foi entregue, também, ao produtor Rex Schindler (de Barravento e A Grande Feira), por sua "grande contribuição ao cinema baiano". O Prêmio Glauber Rocha de melhor filme (39 títulos disputaram a láurea) coube também ao paraibano A Canga. O Prêmio Walter da Silveira de melhor vídeo (entre 40 concorrentes) ficou com Raiz Forte, de Maísa Mendonça e Aline Sasahara. Maísa é brasileira e trabalha nos EUA. Em parceria com Aline, ela documentou a luta (pela reforma agrária) de Sônia, Pedro e Antônio, trabalhadores sem-terra, por quatro estados (Pernambuco, Bahia, Pará e Paraná). Raiz Forte é uma co-produção Brasil-EUA. Já o vencedor na categoria "melhor vídeo estrangeiro de temática latino-americana", foi Cuban Roots, de Pamela Sporn. A realizadora conta a história de família negra cubana, que emigrou para o sul do Bronx, nos EUA, em 1962. A Canga, que rendeu também o prêmio de melhor fotografia a Walter Carvalho, mostra família de lavradores nordestinos atormentada pela seca. Por não dispor de junta de bois para lavrar a terra, o pai coloca a canga nos ombros dos dois filhos. Como se fossem bestas, eles puxam o arado. A mãe e a nora do autoritário lavrador ajudam na tarefa insana. A violência explode e o filme supreende o espectador. O curta paraibano triunfou no último CineCeará (melhor filme) e no Festival Gramado (Kikito do Júri Popular e Prêmio Canal Brasil). O júri de cinema da Jornada, presidido pelo escritor português Mário Ventura, premiou o longa Urbânia, de flávio Frederico, com o Tatu de Ouro de melhor documentário. O curta pernambucano O Velho, o Mar e o Lago ganhou os Tatus de melhor ficção, melhor direção (para Camilo Cavalcante), melhor montagem (André Sampaio) e melhor ator (Cosme Soares). O melhor filme de animação foi Patativa, de Ítalo Maia, cearense de apenas 17 anos (e já em seu segundo filme, pois estreou aos 13, com O Nordestino e o Toque de Sua Lamparina). Ao contrário do ano passado, quando o juri considerou os filmes como insatisfatórios e deixou várias categorias sem prêmios, este ano o juri se entusiasmou com a safra apresentada. Atribuiu quatro menções honrosas (a Retrato Pintado, de Joe Pimentel; O Polaco Nhanha, de Eloy Ferreira; Perdemosss de 1 a 1, de Patrícia Moran, e Bendita TV, de Marcelo Muller) e distribuiu troféus Tatu para Imperatriz do Carnaval, de Medeiros Schultz (melhor longa-metragem), Nanna de Castro (melhor roteiro, por História Real), Ignacio Hoyo (melhor som, por Mi Patio, da Espanha), Luiz Assunção (melhor música, por Adeus Praia de Iracema), e melhor atriz (para Célia Ribeiro, de Traste). Vídeo O Tatu de Ouro, prêmio oficial da Jornada, foi atribuído ao documentário paulista Silva, de Beto Sporkens; à ficção baiana Horizonte Vertical, de Lula Oliveira, e à animação uruguaia, El Jefe y el Carpintero, de Walter Tournier. O documentário Silva causou sensação na Jornada. Seu autor, um jovem formado pela FAAP, vive em Itatiaia e aguarda convite de Hector Babenco para atuar na equipe técnica de Carandiru. Afinal, seu trabalho, agora premiado, aborda temática afinada à recriação cinematográfica do best seller Estação Carandiru (Drauzio Varela). O "Silva" que dá nome ao vídeo é Roberto da Silva, ex-interno da Febem e do Complexo do Carandiru. Depois de uma vida de privações e furtos, Silva chegou à universidade e defendeu tese de mestrado (na USP) sobre sua (dolorosa) experiência no sistema correcional aplicado a crianças (e depois adultos) pobres e infratores. A Jornada tem fama de engajada demais. Seu slogan (por um mundo mais humano) segundo os críticos induziria suas comissões de premiação a laurear filmes e vídeos com temáticas sociais e políticas, em detrimento de qualidades estéticas. Não foi o que se viu desta vez. Silva é uma combinação perfeita de tema social com tratamento ousado e moderno. O júri de vídeo, presidido pelo cineasta Renato Tapajós, premiou também Choro Novo, de Henrique Gazolla (Tatu Revelação) e Presos, de Fernando Weler (Troféu Mercosul). Vídeo sobre o cinema de Vampeta ganha o prêmio de melhor produção baiana e arranca lágrimas da platéia A Resistência do Sonho, de Joel de Almeida, foi escolhido como o melhor vídeo baiano. O mais entusiasta de seus espectadores foi o cineasta e produtor Thomaz Farkas, que o assistiu com lágrimas nos olhos. Joel conta, ao longo de 22 minutos, a história do Cine Rio Branco, inaugurado na cidade de Nazaré das Farinhas, em 1927. O videomaker filmou a decadência da sala no começo dos anos 90. Por falta de recursos, o projeto permaneceu engavetado. Até que o jogador Vampeta resolveu comprar o cinema e recuperá-lo. Joel conseguiu recursos (com organismos culturais baianos) para novas filmagens e para finalizar o vídeo. O atleta, hoje no Flamengo, aparece discretamentee em A Resistência do Sonho. Ele é visto, entre autoridades (o governador César Borges e o então senador Antonio Carlos Magalhães) discursando na festa de inauguração do novo Cine Rio Branco. Ao lado, aparece o amigo Ronaldinho (da Inter de Milão), logo cercado pela população em busca de autógrafos. Ninguém pense, porém, que o vídeo tem caráter institucional. O que Joel, autor do ótimo Penitência, faz é documentar a glória e decadência de uma sala de cinema do Recôncavo baiano (no caso Nazaré das Farinhas, município de 27 mil habitantes). Dos anos 30 aos 60, as dependências do Cine Rio Branco eram ocupadas por moças apaixonadas por astros de celulóide e por namorados nazarenos. Muitas delas dão seu depoimento no filme. Ao final, depois de assistir ao processo de restauração do cinema, o espectador sente a nostalgia de um tempo que passou. Um tempo em que os cinemas viviam abarrotados. A realidade, hoje, é bem outra. Como bem demonstraram o cineasta baiano Pola Ribeiro e o pesquisador Hamilton Correia, a situação do novo Rio Branco (que consumiu R$ 400 mil de Vampeta) é difícil. O público acostumou-se de tal forma à novela das oito, que as sessões lá apresentadas (houve programa-teste com dez filmes, sendo sete brasileiros) não deram resultado. Só um filme testemunhou Hamilton tirou o pessoal de casa: O Auto da Compadecida, de Guel Arraes (curiosamente, um filme apresentado originalmente na TV). Vampeta, ocupado com sua carreira de atleta, deixou o futuro da sala nas mãos das autoridades do município e do Estado. Não tem tempo, nem experiência para programar o cinema. (Maria do Rosário Caetano, especial © estadao.com.br)Com relação a este tema, veja também:
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