Notícias

24/09/2001

Lampiões eletrônicos sacodem o pop baiano

Sexteto baiano Lampirônicos

Bernardo Araujo

   De bandas de forró “universitário” o Brasil está cheio; da mistura de percussão e guitarras popularizada por Chico Science & Nação Zumbi idem. O que mais podem apresentar, em matéria de música pop, jovens que falam com os “e” e os “o” abeeertos ?

   Uma boa resposta está em “Que luz é essa” (Epic/Sony Music), disco de estréia do sexteto baiano Lampirônicos. Apadrinhados por Carlinhos Brown e produzidos por Paulo Rafael (guitarrista e produtor de Alceu Valença), os rapazes dão um sotaque pop aos xotes, baiões e sambas de roda que correm em suas veias.

Nome da banda reúne o tradicional e o moderno

   O nome Lampirônicos vem da contração da expressão “lampiões eletrônicos”, mas as semelhanças com o som de Otto ou do DJ Dolores são poucas: o que se ouve em “Que luz é essa?” é basicamente um rock moderno, feito por quem cresceu no Nordeste.

   — Começamos a tocar juntos em 1998, com outra formação — conta o guitarrista Robertinho Barreto. — No ano seguinte estávamos próximos do som que queríamos e conhecemos o Paulo Rafael.

   Como se não bastasse um profissional de peso ajudando a banda, Robertinho, que tocava com a Timbalada, deixou algumas gravações com Carlinhos Brown, líder do grupo.

   — Nós já estávamos querendo gravar e ele disponibilizou seu estúdio em Salvador, com todo o equipamento — lembra o guitarrista. — Então fomos, aos poucos, registrando as músicas, de acordo com a disponibilidade do Paulo Rafael, que viaja muito com o Alceu. O Brown ainda aparecia quando podia para dar opiniões.

   Tudo ia bem quando altos funcionários da gravadora Sony Music viram a banda no Festival de Verão de Salvador.

   — Daí foi rapidinho — conta Robertinho. — Em 15 ou 20 dias estávamos contratados.

   “Que luz é essa?” tem as participações especiais de Dominguinhos (em duas faixas, “Logo eu” e “Mestiça raiz”) e Alceu Valença (“Espelho cristalino”, de sua autoria). O grupo gravou também “Que luz é essa?”, de Raul Seixas, e “Seo Zé”, de Marisa Monte.

   — Já temos um público na Bahia, agora vamos tocar no Sudeste — diz Robertinho.
(© O Globo)


Não tem inovação, mas sonoridade é irretocável
Antonio Carlos Miguel

   Dos tropicalistas à geração mangue beat de Recife, dos Novos Baianos a Alceu Valença, não faltam bons exemplos da simbiose entre a MPB e o idioma pop-rock. O grupo baiano Lampirônicos é mais um a trafegar por essa via de mão-dupla e, mesmo sem apresentar inovações, mostra em seu bom disco de estréia, “Que luz é essa?”, profissionalismo de veteranos. A sonoridade, dosando peso e variedade de timbres, é irretocável, o que também pode ser creditado ao trabalho de Paulo Rafael (veterano guitarrista do grupo de Alceu) e de Carlinhos Brown, produtores do disco, que foi co-produzido pelos Lampirônicos.

   Um forte cantor, Nikima — que em alguns momentos lembra de Falcão, do Rappa — e boa seleção de repertório, alternando convincentes recriações e composições originais, completam a receita do álbum. A faixa-título, de Raul Seixas — outro compositor que no melhor de seu trabalho fundiu repente e demais ritmos nordestinos ao rock — ganhou a dosagem certa. Assim como as versões para as músicas “Espelho cristalino” (com participação de seu autor, Alceu Valença) e “Seo Zé” (Nando Reis, Marisa Monte e Carlinhos Brown).

   O grupo acerta nas canções conhecidas, mas é no repertório inédito que prova ter direito a um lugar no cenário. “Pop zen” (Manuca Almeida, Alexandre Leão e Lalado) tem ritmo e melodia fortes e refrão grudento. Outras duas boas composições, que avançam mais fundo nos ritmos nordestinos, trazem o reforço da sanfona de Dominguinhas, “Logo eu” (Artur Ribeiro) e “Mestiça raiz” (Ari Moraes). A letra desta segunda funciona como definição estética do grupo — “Se toco funk e canto xote/ mambo, samba e foxtrot que mistura feliz” — e traz uma citação de “Paratodos” (Chico Buarque) reafirmando o elo com a MPB. (© O Globo)


Com relação a este tema, veja também:

Veja sites de bandas nordestinas na seção MÚSICA

Google
Web Nordesteweb