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25/09/2001 O sertão virou mar de plugs
Atalho conceitual no mangue beat gera bandos como Lampirônicos e Os Cabra TÁRIK DE SOUZA O movimento mangue beat de Chico Science & Nação Zumbi e mundo livre s/a deu um sacode no cenário musical nordestino. Injetou tecnologia de ponta e atitude punk no maracatu, coco, repente e outras bossas locais. Esse pós-tropicalismo eletrônico abriu um atalho conceitual para novas experiências não exatamente na mesma direção exibidas em dois lançamentos recentes dos paraibanos Totonho & Os Cabra, no disco que leva o nome do grupo pela gravadora Trama, e dos baianos Lampirônicos em Que luz é essa? (Epic/Sony), produzido pelo pernambucano Paulo Rafael, guitarrista e produtor de Alceu Valença, que também participou do CD. Outro que mexeu nas carrapetas em três das 12 faixas foi o conterrâneo (deles) Carlinhos Brown, enquanto mais um pernambucano, Dominguinhos, enfiou a sanfona em duas outras. Assim como os Lampirônicos com suas guitarras turbinadas nada têm a ver com o axé baiano, Totonho é um paraibano antenado com o drum n bass que abre seu disco numa atmosfera de trilha de filme de James Bond. Em comum, os dois grupos preferem ser chamados de bandos no lugar de bandas. As vozes toscas e roufenhas de cabra macho que os lideram mostram que se o sertão virou mar como na profecia de Antonio Conselheiro, foi de plugs e chips. Meio fake - Bateria em levadas dance convivendo com zabumba, guitarra baiana (patente do trieletrizante Armandinho) roncando e linhas de baixo na travessia entre o regional, o pop e o eletrônico entram na proposta do Lampirônicos. O nome meio fake combina a luminosidade rudimentar dos lampiões com o sufixo da eletrônica para abrigar a guitarra e samplers de Bau Carvalho, guitarra comum e baiana de Robertinho Barreto, bateria de Ordep (não seria Pedro ao contrário?) Lemos, contrabaixo de Luciano Vasconcellos, vocal de Nikima e percussão de Robson Almeida. A faixa título é releitura de uma jóia obscura de Raul Seixas numa linha messiânica que pelo vocal tonitroante lembra mais Zé Ramalho na seqüência de um otimista Aboio nova era, cujas mensagens pacifistas foram pisoteadas pelo início da Terceira Guerra Mundial no último dia 11. Outros covers são do pop regional Seo Zé, de Carlinhos Brown, Marisa Monte e Nando Reis, e o agalopado Espelho cristalino, hit de Alceu Valença que incorpora vocal e aboio do próprio. A instrumental Forró dois irmãos abre com o clássico das bandas de pífanos Pipoca moderna, de Sebastião Biano, letrado por Caetano Veloso, mas não há referência ao autor original na ficha técnica. Fazendo jus a outro Lampião, o cangaceiro Virgulino Ferreira que inventou o gênero, os Lampirônicos castigam o zabumba (e eventual triângulo) no ritmo do xaxado (Céu de reis, Zeca diabo, Rochas estelares) costurando folk (Curupira) crossover (Pop zen, Mestiça raiz) e cosmogonia no mesmo pirão estético. Com um vocal de arestas que às vezes lembra o cearense Belchior, em outras o rei do pornoxaxado Genival Lacerda, Totonho & Os Cabra esquadrinham outros planetas poéticos. Em letras piradas como Babaovomidi (''conheço religião/ já visitei o Japão/ sei mexer com astrologia/ mexo com economia/ já fui produtor de Bach'') lembram o lendário repentista do absurdo Zé Limeira. Autor da maioria das faixas, ele e seu bando (outra referência a Lampião, o Virgulino) exploram com enorme talento a analogia entre repente, embolada e rap, xote e reggae, drum n bass e a pisada do coco. Cabe até um solo jazzístico de piano em Musicacubana. A contaminação cultural de tecnologia e tradição em faixas como Cabra pentium, Drumnbass na feira, Fax para cartomante atestam que o grupo tem o controle da mistura. E não perde o prumo do novo no angu de caroço da modernidade. (© O Globo) Que luz é essa?. Lampirônicos. Epic/
Sony. Com relação a este tema, veja também: |
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