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19/10/2000

Rio São Francisco: Minas ataca transposição

   BELO HORIZONTE - Projeto que se arrasta desde os tempos de Dom Pedro II, a transposição do Rio São Francisco, cujas obras estão previstas para começar em 2001, só terá o aval de ambientalistas, técnicos e até do secretário mineiro de Meio Ambiente, caso a União garanta a revitalização da Bacia do São Francisco antes da conclusão do projeto. O rio nasce na Serra da Canastra e 70% de suas águas estão em Minas Gerais.

   O projeto, orçado em R$2,7 bilhões, está tramitando no Congresso Nacional e prevê o desvio das águas do Velho Chico até o Ceará, passando por Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, através de mais de dois mil quilômetros de canais a céu aberto. "Se o governo tem recursos para fazer transposição, pode garantir a qualidade da água", assinala o secretário de Estado de Meio Ambiente de Minas, o ex-ministro Paulino Cícero.

   Praticamente todos os estudos sobre os impactos ambientais na região foram concluídos. Mas muitos ambientalistas e engenheiros mineiros ainda não se convenceram de que os benefícios da transposição valeriam, se comparados ao alto custo dos investimentos e aos possíveis problemas, como evaporação e a perda de energia elétrica. No leito do São Francisco estão as usinas de Paulo Afonso, Itaparica e Mossoró.

   "Não estamos negando o de beber a quem tem sede. Queremos uma discussão técnica maior, com consistência de projetos de engenharia e ambiental", diz José Flávio Mayrink, presidente da Comissão de Transposição do Rio São Francisco da Sociedade Mineira de Engenheiros. Mayrink é contra a transposição nos moldes em que está sendo proposta e adverte que a iniciativa sempre foi alvo de trampolim político.

   Oligarquias - "Temo que essa água pare nas oligarquias do nordeste. Para mim, os estados querem colocar doce na boca do ACM (presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães - PFL/BA) e Itamar quer usar o projeto como plataforma política, o que seria uma ótima idéia".

   O coordenador do projeto no Ministério da Integração Nacional, João Urbano Caning, reconhece que existem pressões políticas, mas pede aos mineiros que vejam a transposição com "um olhar menos bairrista". Ele salienta que serão beneficiadas 268 cidades, num total de oito milhões de pessoas. As áreas irrigadas também aumentarão significativamente, segundo Caning, passando de 110 mil hectares para 300 mil. "Se não fosse vantajoso, o mundo não estaria apostando na transposição de rios", observa, destacando oito programas semelhantes, entre eles o do Arizona (EUA), e do Rio Chavimochic, no Peru.

   Com a transposição, Minas irá perder grande parte do volume das águas do São Francisco, avalia o secretário-adjunto de Meio Ambiente de Belo Horizonte, Paulo Maciel, defendendo a revitalização da bacia do São Francisco, além da reconstrução das matas, proteção para as barragens e despoluição de trechos do rio.

   As medidas também são defendidas por Paulino Cícero, embora ele tenha se esquecido de inclui-las no documento final da Ecolatina, a Carta Belo Horizonte, formulado por representantes das secretarias do Meio Ambiente de 19 estados participantes do fórum. O secretário alegou distração e disse que até o fim do evento, as propostas serão acrescentadas ao texto. (Fernanda Odila, JB)

Colecionador de água

   BELO HORIZONTE - O historiador mineiro Antônio Carlos Maia, de 45 anos, é um colecionador incomum. Em garrafinhas de vidro, ele guarda mais de 40 amostras de nascentes de rios brasileiros. "A água vai acabar e eu vou ficar rico. Já pensou quanto vai valer uma gota do São Francisco daqui a 50 anos", brinca.

   Cacá, como é mais conhecido, abandonou o emprego de funcionário público há cinco anos para se dedicar exclusivamente à defesa do meio ambiente e a alertar a sociedade para os perigos que colocam em risco a própria sobrevivência do homem.

   O ambientalista se dedica a projetos de educação ambiental e trabalha atualmente no Projeto Manuelzão - de revitalização do Rio das Velhas - implementado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). As amostras de água de nascentes estão sendo armazenadas há quatro anos. A da nascente do São Francisco, colhida na Serra da Canastra, é a mais preciosa das mais de 40 de sua coleção que inclui águas de diferentes bacias nacionais. As amostras fazem parte de um projeto pessoal de montagem de um museu das águas, que seria erguido na Serra do Caraça, na zona metalúrgica mineira.

   O interesse de Cacá na coleção atípica não é, explica ele, científica. Com a iniciativa, ele quer trabalhar com a simbologia das águas e alertar as pessoas para a importância da preservação do bem: "Água é um bem em movimento e sua disponibilidade tende a diminuir." (F.O.)

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