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21/10/2000 Um banho de socialidade na História do Brasil Quando a casa-grande e a senzala foram atingidas pelo progresso social, operou-se a passagem de uma sociedade rural para uma sociedade urbana, e se perdeu em parte o sentido do meio ambiente. Surgiram as cidades, que não eram mais a expressão da realidade tropical, mas algo que vinha influído da Europa. Teria havido uma volta à europeização. Há uma preocupação perene, em Gilberto Freyre, no sentido da busca de uma solução específica, quase que espontânea e natural, em razão do meio ambiente. Os ambientalistas encontraram em Gilberto Freyre o mestre antecipador de suas diretrizes doutrinárias, apontando a natureza como fator determinante por excelência da conduta humana. Mas, como estava explicando, existe, para ele, na civilização, um contraste contínuo, de tal maneira que nós podemos dizer que a metodologia de Gilberto Freyre, ao elaborar seus três livros, corresponda a uma metodologia dialética, a uma dialética de implicação e polaridade, procurando compor em unidade os antagonismos todos a que já fiz referência no decorrer deste ensaio. A apontada passagem da sociedade patriarcal e rural para a sociedade comercial e urbana, primeiro, e depois também industrial, demorou longo tempo para se realizar. Não foi uma coisa repentina, mas, ao contrário, uma adaptação que foi se desenvolvendo ao longo do tempo. O sobrado era quase sempre uma casa de dois andares, como a que Saint Hilaire viu em São Paulo, notando que algumas já tinham vidraças. Eram os sobrados a habitação das pessoas mais abonadas, comerciante e pequenos industriais, letrados e artífices mais capazes, que faziam uso da rua como se fosse prolongamento de sua propriedade. Foi aos poucos que a cidade foi impondo as suas leis, proibindo que a rua fosse dependência da casa para criação de porcos e galinhas, ou para realização das primeiras necessidades... Neles conviviam senhores e escravos, destinando-se estes à prestação de todos os serviços, inclusive o de despejar no mar ou nos rios os "tigres", grandes barris plenos de defectos. Gilberto Freyre dedica especial atenção à falta de higiene e às deficiências nessas cidades na época analisada, mostrando como então era penosa a convivência urbana. Cabe não esquecer que o sobrado de dois andares foi evoluindo, foi crescendo, à medida que o senhor de engenho deixava a casa-grande e passava a morar na cidade. No Recife chegou a haver sobrado com seis andares, e eu vou descrever esse edifício porque considero muito importante essa transladação da casa-grande para a cidade. No andar térreo ficavam o armazém e a senzala, o que quer dizer, que o sobrado absorveu a senzala. A senzala, em lugar de ser um apêndice da casa-grande, passou a ser a parte inferior do sobrado. No segundo, o escritório do senhor de engenho para contabilização de sua indústria e de seu comércio. No terceiro e no quarto andares, a família, mas adverte logo Gilberto Freyre, que não se deve pensar que a mulher exercesse um reinado nesse amplo espaço, pois sobretudo as moças viviam fechadas à maneira moura, olhando a rua através de gelosias, vendo a rua mas não podendo ser vistas pela rua. Era a imposição de uma tradição árabe-portuguesa que persistia na ensolarada região dos trópicos. Enquanto isso, no mucambo, o mulato, o caboclo, o homem sem posses e sem a riqueza dos senhores de engenho, viviam pobres, mas mais de acordo com a natureza. Eram casas precárias, taperas ou choças cobertas de sapê ou de ramos de palmeira, mas cheias de sol, expostas à ventilação, e não aquelas sombrias salas dos sobrados, onde o sol era proibido, porque se considerava tomar sol um mal para a saúde... Então, Gilberto Freyre se rebela contra essa tradição, e mostra como ela marcou profundamente o costume de se viver trancado na sociedade brasileira durante tanto tempo, a tal ponto, lembra ele, que a primeira festa pública, com a presença da mulher com certa liberdade, ocorreu no Rio de Janeiro, em 1845, ou seja, mais de 20 anos após nossa independência. Donde se conclui que nossa adaptação aos trópicos não foi tão forte até o ponto de libertar a mulher de antigos preconceitos mouros... Dito isso, voltemos à descrição do sobrado de seis andares. No terceiro e quarto vivia, como já disse, a família, com todas as lembradas restrições; a sala de jantar ficava no sexto andar com uma cozinha amplíssima, porquanto o senhor de engenho era homem de grandes apetites e sabia combinar todos os gostos para atender aos seus desejos. E, finalmente, no último andar, o mirante, o cocuruto donde se podia observar a cidade, para se gozar do azul do mar e do verde dos mamoeiros. Só lá em cima é que transitoriamente se podia "tomar fresco", ao contrário da vida livre e espontânea dos pobres habitantes dos mucambos, que lembram as atuais favelas, mas que com estas não se confundem. Em Sobrados e Mucambos, Gilberto Freyre analisa um período correspondente a quase um século da vida brasileira, até os últimos anos do Império. No fundo, o que fez Gilberto foi dar um banho de socialidade à história brasileira, porquanto a história do Brasil, até então, havia sido predominantemente a história dos acontecimentos bélicos ou dos fatos políticos mais relevantes. Ele preferiu penetrar na vida do homem comum, nos valores mais íntimos da sociedade, no que ela tem de mais próprio e expressivo. Gilberto Freyre é, repito, o libertador da História do Brasil no sentido da socialidade. É por esse motivo que ele se considera um psicólogo social à maneira proustiana, essencial à compreensão direta e intuitiva daquilo que o fato social pode e deve revelar. Esse livro Sobrados e Mucambos é de uma riqueza extraordinária. Infelizmente, sou obrigado a ser breve, pois, passado certo tempo, toda conferência é enfadonha. E, então, eu não posso fazer referência aos estudos que Gilberto Freyre dedica à alimentação, à vida sexual, às cerimoniais religiosas, mostrando em que consistia a cidade com todas as suas virtudes e perversidades. Às vezes ele entra em detalhes que causaram escândalo, como, por exemplo, ao fazer referência ao caixeirinho como pobre diabo à mercê dos desejos sexuais do português dono da loja. Quando publicou seus livros, foi Gilberto criticado por dizer a verdade, por contar as coisas como elas são, chegando a lhe ser atribuído gosto especial pelo fescenino. Gilberto Freyre foi vitima de toda espécie de acusações. Ele foi considerado conservador pela esquerda, sobretudo pela esquerda festiva, pelo fato de admirar o sistema social da casa-grande e senzala; e pela direita por ter misturado a crença católica com ritos africanos. Mas ele era, pura e simplesmente, um homem de ciência, que sabia que a verdade histórica não é absoluta, mas uma verdade que, como dizia Vico, "corre com o tempo", alterando-se ao longo das conjunturas de espaço e de tempo. A visão de Sobrados e Mucambos é penetrante e extraordinária, demonstrando as mutações sociais decorrentes da miscigenação, que, aos poucos, marca a ascensão do mulato e do bacharel, qualidades não raro reunidas em uma mesma pessoa. Mulato que deixava de ser mulato por ter-se tornado bacharel. O bacharelato é um instrumento através do qual se conquistam postos sociais. O mulato sabe que, estudando, sendo diplomado em Direito ou em Medicina, nesta ou naquela profissão superior, abre caminho na sociedade, deixando de ser visto como homem de cor. É a derrota da cor pela cultura, eis o tema que Gilberto Freyre desenvolve no capítulo expressivamente intitulado "Ascensão do mulato e do bacharel". Nesse capítulo ele escreve que no fundo, no fundo, o Império é o reinado dos bacharéis. E tem esta frase, um pouco exagerada, a respeito de d. Pedro II: "Porque ninguém foi mais bacharel, nem mais doutor, neste país do que d. Pedro II, nem menos indígena e mais europeu. Seu reinado foi o reinado dos bacharéis." Diz ele que d. Pedro tinha uma caneta com a qual riscava os nomes das pessoas a seu ver inconvenientes ao exercício de cargos públicos. Adverte, no entanto, Gilberto Freyre, que o imperador jamais vetou um nome por preconceito racial, mas sim por amor à moral dominante. Vacilou até mesmo, um dia, em aceitar o pai do Barão do Rio Branco para determinada missão, porque na juventude tivera comentadas aventuras... Como se demonstra, Gilberto Freyre procura, através de exemplos extraídos da vida comum, colher e determinar o sentido da sociedade brasileira, mas não se pode deixar de reparar que, às vezes, sua opinião é a de um homem do Nordeste, a demonstrar que mesmo os homens superiores são influídos por suas circunstâncias pessoais. Será verdade que o Brasil foi dominado por bacharéis? Até certo ponto sim, mas tomando a palavra bacharel em sentido amplo, como Gilberto Freyre o faz, ao lembrar que também o seminário era um instrumento de emancipação, porque os clérigos mais dispostos às reformas sociais eram "bacharéis de batina", como se dava também com os que se diplomavam em Medicina, sendo inclinados a considerar os males sociais como espécies de doenças coletivas. Passemos agora à sua terceira obra, Ordem e Progresso. Ele sempre foi um estudioso muito atento às publicações científicas de seu tempo. O que impressiona, em todos esses três livros, é o número imenso de obras e artigos por ele consultados. Ele nunca escreveu sobre um assunto sem examinar toda a bibliografia pertinente à matéria. São centenas de notas que comprovam seu preparo científico, o cuidado de saber o que disseram os que já trataram do assunto. Essa informação bibliográfica minuciosa, que ele aprendeu a respeitar nos Estados Unidos, é, não nos esqueçamos, uma herança inglesa, uma herança européia. Armado dessa metodologia, quando chegou a hora de escrever sobre as duas últimas décadas do Império em confronto com as duas primeiras décadas da República, ele percebeu que havia algo a acrescentar à bibliografia dominante. Inventou, então, um método diferente, um método curioso, baseado em autobiografias. Nesse sentido ele elaborou um questionário, um inquérito profundamente inquietante, porque eram formuladas até perguntas comprometedoras ou indiscretas. Enviou esse questionário a grande número de pessoas. Cento e oitenta e três responderam a essa sondagem, inclusive Julio de Mesquita Filho, Plínio Barreto, Aureliano Leite e outras personalidades de prol. Vale a pena lembrar que ele, no seu ardor de pesquisar, resolveu ir a Petrópolis para entregar seu inquérito ao presidente Getúlio Vargas. Isso ocorreu em 1940, o que demonstra quanto tempo demorou para concluir Ordem e Progresso, obra só publicada em 1957. Narra Gilberto Freyre que Getúlio Vargas "observou maliciosamente, depois de ler o questionário a princípio com um meio sorriso, de certa altura em diante, sério e concentrado: `Esse inquérito descobre qualquer um, e eu não sou homem que se descubra, mas que deve ser descoberto'." Eis aí uma frase que é o retrato fiel de Getúlio Vargas. Até hoje Getúlio é uma esfinge, até hoje estamos à procura da imagem correspondente à sua imensa personalidade. Até agora o inquérito está de pé, à espera de resposta. Pois bem, na Introdução de Ordem e Progresso Gilberto Freyre volta a seu tema principal, a escravidão e suas conseqüências, chegando a afirmar que o patriciado agrário ainda não morrera. Já ferido de morte pela abolição, acomodou-se à República Federativa, quase tão simbioticamente como outrora o patriarcado escravocrata se acomodara ao império unitário. Havia, no seu entender, duas vias para superar o mundo patriarcal semi-feudal: a industrialização e a imigração. Ele declara, porém, que a imigração foi uma benesse apenas para o sul e não para o norte. Porque os homens do sul, com Antonio Prado à frente, se empenharam na imigração, mesmo ao tempo do império, e trouxeram levas e levas de imigrantes, "sob o estímulo e cuidados oficiais, com prejuízo para o desenvolvimento de outras regiões brasileiras, feridas nas raízes de sua economia e de sua cultura pela abolição repentina do trabalho escravo". Na realidade, além do desenvolvimento sulino ter resultado das boas condições de solo e de clima - o que Gilberto reconhece - não se pode esquecer o desprezo dos chefes políticos nordestinos pela imigração, talvez com receio de perder seu submisso eleitorado. Como descendente de italiano, eu não posso deixar de me referir aos elogios de Gilberto à imigração italiana, não somente por sua operosidade, mas também por não ter preconceitos raciais, sendo freqüente a união de italianos com negras, muito embora fosse rara a de mulheres italianas com pretos ou mulatos. Segundo Gilberto Freyre, a presença dos italianos na vida e na cultura brasileira constituiu o acontecimento sociologicamente mais significativo da época por ele evocada, principalmente sob os aspectos econômico, social e étnico, um aspecto difícil de ser separado um do outro. Dessarte, com observações agudas e análises sutis sobre o nosso desenvolvimento social - que não me é dado sintetizar - vamos, ao longo de Ordem e Progresso, vendo surgir a nação brasileira numa interpretação profunda e colorida de nossa vida religiosa, moral, política, econômica e artística, a cavaleiro dos séculos 19 e 20, quando, em verdade, adquirimos maior consciência de nossa identidade cultural. Mas há algo, ainda, a lembrar. É que Gilberto Freyre foi um democrata, mas não um democrata que cuidasse apenas dos valores políticos. Ele queria uma democracia social. Foi um dos primeiros brasileiros a falar em "democracia social", que não deve ser confundida com a "social-democracia". O termo "social-democracia" corresponde a uma teoria política alemã, quando Bernstein fez a revisão do marxismo, pregando a passagem do capitalismo para o socialismo mediante o emprego da democracia, isto é, pelo voto universal. Vamos inverter as palavras, e reservar o nome de democracia social àquela que não se contenta com o valor da liberdade individual, como o faz o liberalismo, mas a quer em correlação com a igualdade, em um todo inseparável de finalidades econômicas e culturais. É a democracia almejada por Gilberto Freyre, que acrescentava ainda o adjetivo "racial", tanto era a sua preocupação pelo problema da miscigenação. Ele jamais esquece o elemento racial no Brasil. Enquanto não houvesse democracia entre homens de cor e homens brancos, pretos ou pardos, enquanto não houvesse uma democracia étnica, não haveria, a seu ver, democracia no Brasil. Essa é, em largos traços, a figura admirável de Gilberto Freyre, de quem me tornei grande amigo, quando participei, durante 15 anos, do Conselho Federal de Cultura, ao lado de Afonso Arinos de Melo Franco, Gustavo Corção, Viana Moog, Pedro Calmon, Raimundo Faoro e outros mais. Foi um dos momentos mais ricos e felizes de minha existência, ao compartilhar, com homens desse jaez, de sua esperança e de seus esforços no sentido da projeção social, moral e histórica de nossa pátria. Por fim, é o caso de perguntar por qual razão Gilberto não pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Porque ele nunca concordou em se inscrever para pleitear sua eleição, muito embora convidado pela totalidade dos acadêmicos. Só iria para a Academia se fosse aclamado. E a Academia não podia modificar seu estatuto só para receber Gilberto Freyre. Não o critiquemos por isso. Ele tinha o direito de ter vaidade, e não a ocultava, assim como nós temos o direito de ter vaidade de Gilberto Freyre. (Miguel Reale, JT) |
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