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30/10/2000 Uma tragédia nacional ignorada pelo poder No fim da 2ª Guerra Mundial, o mundo purgou, estarrecido, sua própria indiferença diante da sorte de 6 milhões de judeus massacrados pelos nazistas de Adolf Hitler. Os relatos dos sobreviventes dos campos de concentração, libertados pelas tropas aliadas de ocupação, sacudiram o planeta com frêmitos de indignação, que repercutem até hoje, inclusive no Brasil. No entanto, ninguém, nenhum branco urbano das elites dirigentes, políticas e econômicas, no Brasil, parou para pensar um minuto que morticínio semelhante vem sendo repetido, lenta, mas ciclicamente, nos ermos do sertão nordestino. Os alemães inventaram uma máquina mortífera ágil e eficaz, à altura de seu espírito burocrático. A insensibilidade de autoridades e ilustres personalidades da sociedade brasileira diante da tragédia que, nestes dois séculos, dizimou 3 milhões de miseráveis camponeses brasileiros, continua impávida e impune. Essa cifra é uma informação contida no livro Vida e Morte no Sertão - História das Secas no Nordeste nos Séculos XIX e XX, do historiador Marco Antonio Villa. Não é propriamente nova, mas impressiona. Eis aí a principal característica dessa obra a respeito de um fenômeno climático que mata os sertanejos de fome, mas tem sido alimento de excelente qualidade para a sociologia e a literatura, sem falar na política, que dela tem se servido com sem-cerimônia de sanguessuga. De certa forma, tudo o que o livro contém já era sabido, mas ainda assim, da forma como é organizado e narrado, seu material impressiona. A leitura desse texto se assemelha a um desfile de retirantes, cena que nos habituamos a ver, seja nas páginas dos romances, seja nas cenas de cinema ou dos noticiários da televisão. Vista de relance, ela parece familiar, quase bucólica. Se nos detivermos para enxergá-la em seus detalhes, ela nos assusta pela dimensão da brutalidade. Marco Antonio Villa é um historiador sério, que se apóia em farta documentação para resgatar os fatos que pretende apresentar ao leitor. Mas bem que poderia ser um narrador de ficção, pois mais do que a precisão salta aos olhos do leitor a força de uma narrativa viva e interessante. Historiador fiel e narrador competente, ele não doura pílula. Logo nas primeiras palavras da Introdução, apresenta armas: "Este livro narra o massacre de milhões de nordestinos, que acabou esquecido, como se fosse uma lembrança incômoda aos brasileiros, especialmente aos donos do poder." E o livro é isso mesmo: de um lado descreve o massacre com estatísticas e interesse e do outro registra a indiferença da autoridade diante dele. No segundo capítulo, ele descreve a "grande seca de 1877-1879, a maior do século 19, na qual morreu aproximadamente 5% da população brasileira, e que acabou transformando o Nordeste - então chamado de Norte - numa região problema". Elite local - O problema, aliás, vinha de mais longe ainda: no século 18, "as sucessivas secas enfraqueceram o processo de ocupação do sertão". E chega a nossos dias com poucas mudanças. Desde que, durante a Regência, foram destinadas as primeiras verbas para debelar o flagelo, elas continuam sendo absorvidas pela elite política e econômica local e ao sertanejo não resta alternativa à fuga. Raquítico, faminto, esquálido, resta-lhe fazer das tripas coração e passa a engrossar as levas de miseráveis de outras regiões do País: a Amazônia, durante a febre da extração da borracha; o Maranhão, na ampliação da fronteira agrícola; e o Sudeste, com a industrialização. Constitui mão-de-obra sem instrução nem especialização que, em troca de caraminguás, faz qualquer tipo de trabalho, é espezinhada, isolada em guetos e jogada na sarjeta social das metrópoles. Em sua rota de fuga, essa gente vê as filhas serem estupradas e os filhos atraídos para o crime sem recompensa. O historiador recorre ao anônimo poeta popular para descrever uma síntese pungente dessa situação: "O sol nasceu igual p'ra todos, / Mas o homem o dividiu; / Para o pobre o sol em pino / Foi o quinhão que caiu." É verdade que muitos desses sertanejos tresmalhados, que deixam os lares espantados pela fome, conquistaram lugar de destaque nas terras alheias para onde fugiram. O biólogo Zeferino Vaz, fundador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), dizia que o sertão era o maior banco genético do mundo, pois só os fortes sobreviviam a tantas privações. Daí, a antológica descrição feita por Euclides da Cunha no clássico Os Sertões, segundo a qual "o sertanejo é antes de tudo um forte". Euclides falava dos que tombaram na Guerra de Canudos e dos que sobreviveram para lutar pela vida ocupando as encostas dos morros cariocas, as favelas, nome da planta que, por resistir às intempéries da natureza, forrava um morro de seu local de origem. A Guerra de Canudos foi um subproduto brutal da ignorância das autoridades republicanas em relação à realidade do semi-árido. Mas essa insensibilidade vinha de mais longe no tempo. Villa desautoriza a lenda de que o imperador Dom Pedro II teria chorado e mandado vender as jóias da Coroa para evitar que os cearenses morressem de fome. De fato, Sua Majestade flanou 18 meses pelo primeiro mundo, enquanto os sertanejos sucumbiam à desnutrição. "Pedro Banana" teve imitadores: o general Médici também chorou lágrimas de esguicho, mas, indiferente à sorte da patuléia, mandou encher as burras dos coronéis locais, exploradores da "indústria das secas", atividade que consiste, desde há muito tempo até hoje, em entregar aos donos do poder os recursos que teoricamente se destinam a comprar alimentos para os flagelados. Villa é pródigo em narrar episódios do gênero, como o do pároco de Cachoeira, Ceará, vigário Belarmino, acusado em junho de 1877, de desviar gêneros alimentícios enviados pelo governo para serem distribuídos de graça para o povo faminto. Buchada - Apesar de ser um sociólogo respeitável, o presidente Fernando Henrique não tem comportamento muito divergente de seus antecessores. Seus contatos com a agonizante vida sertaneja limitam-se a montar em burrico para ser fotografado ou comer buchada de bode, prato típico da escassez, que ele confundiu com tripas de Caen - algo semelhante a chamar feijoada de cassoulet. Hoje, no limiar de mais uma seca terrível, o governo não tem política nenhuma para enfrentar o fenômeno, que, aliás, nem deveria ser definido assim, por ser tão previsível como visita de político em véspera de eleição. Nenhum desses políticos seria, contudo, capaz de entender o sacrifício de um trágico personagem da história de Villa, o geólogo americano Orville Derby, que se matou aos 64 anos depois de haver dedicado a vida inteira a tratar dos efeitos da seca e das formas possíveis de enfrentá-los. Afinal, eles se consolidaram nos Estados nordestinos não apenas como oligarcas, mas, sim, como verdadeiros sátrapas, como denunciava o crítico literário Sílvio Romero. A história que Villa conta em seu livro é uma vergonha. Mas para resgatá-la não é preciso levar esses sátrapas a julgamento, como foi feito com os nazistas em Nurembergue. Basta tomar conhecimento de sua existência e ter consciência de que em algum momento alguém precisa fazer alguma coisa para salvar os sertanejos da morte anunciada pela fome, antes que a saga dos retirantes corroa o futuro do País inteiro, como um câncer moral sem jeito nem cura. (José Nêumanne, OESP) |
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