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02/10/2001

Daniela Mercury agora quer ser "de qualquer lugar"

Artista reúne cinco produtores e experimenta com a eletrônica e o forró

PEDRO ALEXANDRE SANCHES

   É curioso ouvir Daniela Mercury, 36, falar de seu passado. Rainha do trio elétrico baiano, abre-alas da geração musical mais tarde conhecida como a do axé music e sobrevivente nos escombros dessa mesma moda, hoje divulga "Sou de Qualquer Lugar", seu sétimo disco. Nem sempre ela teve tanta carga nas costas.

   Sua escola não foi o Carnaval, mas a cantoria de barzinho em Salvador, da qual ela espontaneamente vai se lembrando. "Quando comecei cantando na noite, era engraçado porque havia essa ditadura do que os outros gostam. Sempre alguém imprime isso, seja um amigo ou meu pai pedindo para eu gravar um disco de bossa nova. Que diacho. Todo mundo tem de desejar tanto de mim?"

   Devia obediência à freguesia, é isso? "Não, eu não tinha de obedecer. Tomei raiva de algumas músicas. Por que todo mundo queria ouvir sempre as mesmas? Mesmo que gostasse delas, tinha uma raiva grande de chegar para cantar e encontrar dez bilhetinhos pedindo a mesma música."

   Confessa que, mais tarde, passou a alimentar esse tipo de sentimento pelas canções de seu próprio repertório: "Passei anos cantando "Pega Aqui, Ó", um sucesso meu ainda com o grupo Companhia Clic, e depois me libertei. Já driblei "O Canto da Cidade" várias vezes. Vou colocando outros arranjos, saindo pela esquerda, deixo para o segundo bis -se alguém pedir segundo bis".

   Mas e no barzinho? "Eu cantava cada coisa na noite que ninguém acredita. Usava as músicas de que o público gostava para fazê-lo prestar atenção nas que não conhecia: "Atrás da Porta", "Bárbara", "Upa, Neguinho". A gente faz o jogo, alterna um hit e uma inédita."

   Revela, enfim, as da "raiva", que precisava cantar sem escapatória: ""Dia Branco", de Geraldo Azevedo, "Canteiros", de Fagner, "Andança"... Alguma de rádio da qual não gostava dizia que não havia aprendido a letra. Houve um episódio em que um cara jogou dinheiro no palco e eu, arretada, desci, devolvi e disse que eu não estava ali a serviço dele nem minha voz tinha preço. Naquele tempo já era brigona".

   É hora de transpor a relação de conflito entre os desejos da platéia e os da artista para seus discos comerciais e para o atual momento de redefinição do mercado musical pós-axé: "Todos os meus discos tinham músicas de que gostava. De algumas não gosto mais, mas na época gostava de todas".

   "Mas sempre tive a preocupação de achar coisas que pudessem chegar às pessoas em cada momento histórico. Hoje, o mercado está muito tenso com a pirataria, mas não acho seguro repetir fórmula, tentar sempre usar música de novela para alavancar disco. É uma besteira, desnecessário", diz.

O disco

   No Brasil pós-axé, "Sou de Qualquer Lugar" aposta na variedade. Agrupa cinco produtores, intervenções eletrônicas, faixas românticas nos moldes do hit recente em novela da Globo, uma releitura de "Mutante" (Rita Lee, 81), outra de "A Praieira" (Chico Science, 94) e um forró universitário de Gilberto Gil ("Quem Puder Ser Bom que Seja").

   Admite que a intricada faixa-título de Lenine e Dudu Falcão não deve ter a facilidade que no passado tiveram "Swing da Cor" (91) e "O Canto da Cidade" (92) para emplacar no alto do trio elétrico. "Mas hoje estou mais livre, estou sem cordas, estou independente no Carnaval", resigna-se.

   Sabe-se precursora, mas não se considera responsável pela explosão do axé: "Na segunda etapa da hegemonia do axé, quando surgiram É o Tchan e Banda Eva, dialoguei muito pouco com esse tipo de música. Mas segui um caminho particular, sempre fui mais altruísta que intimista. Muitas vezes me senti dividida entre fazer festa no palco ou ser agradável de ouvir em CD. Seja como for, sinto-me orgulhosa de ter participado daquele processo, que trouxe o samba de volta ao pé do país".

   Daniela responde se a diversidade de agora é teste de alternativas para definir um novo rumo, se se sente em crise na hora de criar.

   "Em crise, não, mas há momentos de esvaziamento. Que caminho seguir, se são tantas as possibilidades? Como transito por muitos gêneros, isso às vezes confunde. Mas sempre fui eclética, não me preocupo com unidade", explica-se a moça do barzinho, a moça do trio elétrico, a moça do samba-reggae que cobiça a MPB. (© Folha de S. Paulo)


DISCO/CRÍTICA

Atordoada, artista opta pela variedade por indecisão

DA REPORTAGEM LOCAL

   No xadrez das reviravoltas de mercado e do esgotamento da música baiana ultracomercial, a crise visitou Daniela Mercury. Isso fica evidente no deslocamento de registro que ela vive, da mulher que bradava "a cor dessa cidade sou eu/ o canto dessa cidade é meu" para a que proclama, na canção de Lenine e Dudu Falcão que dá título ao novo álbum: "Sou de qualquer lugar".

   Se o Brasil vive momento ímpar de quebra de hegemonias musicais, é inevitável que artistas-símbolo de períodos de hegemonia (como foram os anos 90 de Daniela e seus pares) fiquem atordoados. "Sou de Qualquer Lugar" é um disco atordoado, e isso se traduz particularmente na profusão e variedade de produtores convocados para concretizá-lo.

   É a aposta múltipla que explica, por exemplo, algum romantismo fora de foco, como na releitura indecisa de "Mutante". Ou a estranheza de uma adesão ligeira ao xote universitário em "Quem Puder Ser Bom que Seja", de Gil (em que ela parece mais Elba Ramalho do que Daniela Mercury). Ou até a suspensão, no final do processo, de uma faixa pop de Lulu Santos que ela cantaria em duo com Fernanda Abreu.

   Mas é o que explica, também, a singeleza tocante (e algo árabe) de "Aeromoça", que Daniela compôs com seu filho de 16 anos, e de "Nina", também de sua autoria. Ou a regravação dissonante, porém sincera de "A Praieira", um dos hinos do mangue beat.

   Entre prós e contras, Daniela se expõe como uma artista hoje indecisa, ainda que se esforce sempre por demonstrar rígida decisão. Indecisão não é problema, propriamente. É o que aparece de saudável e de humano em sua difícil tarefa de se recolocar no seio nem sempre nobre da MPB.

   Mais fora de lugar nesse mesmo processo é a metralhadora giratória apontada para mil alvos musicais -a ansiedade em se provar a um tempo comercial e conceitual, um cálculo obsessivo.

   Tente-se visualizar, nessa hora, a figura da cantora de barzinho, moça que se sujeitou aos humores dos outros para se impor e, talvez por isso mesmo, engrossou o vozeirão e saiu dali diretamente para o topo heróico do trio elétrico.

   O que ela parece não ter testado, ainda, é produzir um disco, um show ou uma vida que atendesse só e exclusivamente a seus próprios desejos e gostos íntimos. Talvez não vendesse muito, mas nada mesmo se tem vendido facilmente no Brasil hoje... (PEDRO ALEXANDRE SANCHES) (© Folha de S. Paulo)


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