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02/10/2001 Sua excelência, Juarez Araújo Pouco conhecido pelo público, saxofonista que abre a série 'Os solistas', já foi considerado um dos melhores do mundo ANA CECILIA MARTINS Quando lançou o seu primeiro LP no começo dos anos 60, o pernambucano Juarez Araújo, nascido na pequena cidade de Surubim, teve a certeza que o seu destino havia mudado. ''Nunca tinha pensado que um pobre nordestino de cabeça chata como eu pudesse ir tão longe'', comenta Araújo, que testemunhou, perplexo, as músicas de Juarez - sua excelência o sax tocando nos rádio de todo o país. Mas o saxofonista foi além. Emendou diversas apresentações no exterior, lançamentos de outros álbuns, construindo uma carreira que acabou lhe rendendo reconhecimento mundial - traduzido em uma crítica na revista americana Downbeat, a bíblia do jazz, que apontou, nos anos 60, Juarez com um dos cinco maiores saxofonistas do planeta. Artista de bastidor, do tipo que colhe reverências no meio musical mas que não recebe o reconhecimento público merecido, Juarez Araújo abre a série Os solistas, coordenada pelo produtor e crítico Zuza Homem de Mello, que apresenta durante as terças-feiras de outubro, no Centro Cultural Banco do Brasil, instrumentistas como Proveta, Nestor Marconi, Paulo Bellinati e Antonio Adolfo. ''Busquei, acima de tudo, convidar músicos excepcionais, capazes de levar um espetáculo sozinho contando apenas com o talento'', comenta Zuza. História musical - Sem perder o acento pernambucano, Juarez, muito falante, conta com gosto sua história com a música. O enredo começa na cidade de Jaboatão onde, ainda menino, ingressou na banda do padre Cleomácio Leão tocando requinta. E foi seguindo: tocou em igreja, em praças, no exército e na zona. De banda em banda, de orquestra em orquestra, Juarez foi parar em São Paulo, na década de 50, depois de integrar conjuntos em rádios de Recife. ''Avisei a minha mãe que tava indo para o mundo'', conta Juarez, em plena atividade aos 70 anos. A vinda para o Rio, em meados dos anos 50, mudou o tom da carreira do músico, que chegou a estudar com Guerra Peixe. A cidade vivia um momento de efervescência musical. ''Foi quando conheci Tom Jobim, Newton Mendonça, Roberto Menescal. A gente se juntava para ouvir jazz, se encontrava em boates e bares em Copacabana e trocava muita idéia'', lembra Juarez, que integrou no Rio por cerca de seis anos a orquestra de Osvaldo Borba. Os discos de John Coltrane, Charlie Parker, Thelonius Monk não saiam da vitrola. ''Todos estavam muito ligados ao jazz e cada um tentava extrair alguma coisa daqueles mestres. Eu comecei tentando copiar Stan Getz'', afirma. Enquanto a turma de Juarez pendia para a bossa nova, o músico continuava mergulhado nos arranjos de Duke Ellington e nas composições de Gershwin. Mas a predileção pelo jazz não impediu que o pernambucano trabalhasse ao lado de expressivos intérpretes da MPB como Elizeth Cardoso, Maysa, Gal Costa, Maria Bethânia. ''São mais de 50 anos de carreira. Fiz de um tudo na vida'', diz Juarez, que se apresenta às terças-feiras num bar na Rua do Ouvidor, no Centro, e às sexta-feiras, na loja Modern Sound, em Copacabana. ''Participo também de algumas gravações com amigos e filhos de amigos meus.'' João Gilberto - ''Como todo grande músico brasileiro, Juarez anda um pouco fora de circulação. O mercado só quer a baba do quiabo'', observa Zuza, lembrando que ano passado João Gilberto convidou o saxofonista para tocar com ele. ''E Juarez tocou Desafinado melhor que Stan Getz'', opina Zuza, sem economia de adjetivos. ''Ele é um extraordinário jazzista e seu saxofone tem uma sonoridade ímpar, reconhecível, coisa que só ele e Zé Bodega conseguiram'', acrescenta. Para as apresentações, que acontecem em dois horários, às 13h30 e às 18h, Juarez selecionou um repertório que traduz o que de melhor sabe fazer. ''Resolvi apostar em uma mescla de samba novo e jazz'', comenta o saxofonista que apresenta, ao lado do piano de Dario Galante, músicas como Rio, de Roberto Menescau e Ronaldo Bôscoli, Round midnight, de Thelonius Monk, All blues, de Miles Davis, Billies bounce, de Charlie Parker, e Choro de Marcele, do próprio Juarez. ''Das coisas que ainda quero fazer na vida está um CD com contrapontos de Pixinguinha, além de mexer mais com choro'', diz o músico que ainda espera ver seus LPs, como O inimitável Juarez e Bossa nova nos States, transformados em CD. ''Pode ser que esses projetos levem um pouco mais de tempo pois fiz um cirurgia que me abalou financeiramente'', conta. ''Mas não tem problema. Vou fazendo aos poucos'', diz Juarez com a sabedoria de quem sabe levar a vida. (© Jornal do Brasil)Com relação a este tema, veja também: |
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