03/10/2001
Raimundo Soldado: não tem jeito que dê jeito

O Norte/Nordeste dá
adeus ao brilho dos dentes de ouro de Raimundo Soldado. A madrugada chegou e o cantor
brega teve que parar de dançar. Sua morte pegou todo mundo de surpresa, inclusive ele
mesmo. Estava em pleno banho de riacho
Thaís Aragão
A notícia se espalhou pelo rádio,
ninguém deu mais detalhes e quase a morte do ídolo brega Raimundo Soldado ficava no
boato. Mas, infelizmente, é verdade. O maranhense de Santa Inês passou, mesmo, dessa
para melhor. E não foi por causa de seus problemas de pressão ou da diabetes.
Estava tomando um banho num riacho onde morava, em Timon, no Maranhão,
quando sentiu uma grande febre. Foi levado às pressas para Teresina, no Piauí, onde foi
internado, mas não resistiu e faleceu às 21 horas da segunda-feira, 17 de setembro
passado, aos 55 anos. Diagnóstico: meningite.
Raimundo Teles Carvalho foi o Raimundo Soldado. ''Soldado'' por
causa da família. Seu pai foi soldado, seus irmãos também. Até mesmo Raimundo o foi,
por nove anos. Depois largou a farda pela música popular, com suas dores de cotovelo e
odes à terra natal.
Ele se balançava no galho mais baixo da árvore da Jovem Guarda, misturando
música romântica sessentista com forrós e carimbós, sotaque de gente simples,
mal-alfabetizada. Rendeu frutos desprezados pela ala chique, mas que sempre alimentaram
muito bem o povão.
Na década de 1980, Raimundo Soldado ficou conhecido por canções como
''Não tem jeito que dê jeito'' e ''Abraçando você'', e fazia parte do elenco brega da
extinta gravadora Copacabana. Foram seis vinis ao todo. Em CD, só há um trabalho,
lançado em março deste ano pela Gema.
Aliás, dois. 23 sucessos de Raimundo Soldado foi lançado sem
autorização aqui em Fortaleza. ''Nenhum centavo dos direitos foi repassado para o
Raimundo Soldado. Eu estava negociando o lançamento com a SomZoom, a Floral Music se
meteu no meio e o Emanuel (Gurgel, empresário) deixou de lado. Mas a SomZoom ia fazer 40
mil CDs'', lembra William Martins, empresário do cantor.
Segundo ele, está previsto para este mês de outubro o lançamento do
segundo disco. Só com faixas inéditas, o CD sai pela Gema, com quem o artista tinha
assinado um contrato de três anos e três discos.
''Quando se fala em referência no brega, não tem para onde correr. É
Raimundo Soldado'', diz o músico Hérlon Robson, que chegou a gravar a canção ''Você
gosta de mim'' no disco de sua banda de brega-rock Los Toros, em 1997. ''Ele era um cara
super humilde. É uma cultura que se espalha sozinha. A única coisa que sei é que aquele
disco, Abraçando você, foi disco de ouro. Vendeu mais de 100 mil cópias.
Acho que aquele vinil não foi passado para CD. Ele até fez algo em CD, mas também não
tem tanta graça. O engraçado é que não é feito com a intenção de ser brega'', diz
Hérlon.
''A população ficou super sentida, compareceu ao enterro.
Muitos amigos estiveram lá. Munção, aquele radialista que era da SomZoom, transmitiu ao
vivo através da EstaçãoSat, em Recife. A TV Meio Norte, daqui, também mandou via
satélite'', disse o empresário, de Teresina.
Agora ele vai tocar a vida junto a David (pronuncia-se ''Dêivid'') Soldado,
Frank Soldado e Johnny Soldado, que já estão seguindo a trilha do pai. Foram três
casamentos e 11 filhos registrados. ''Ele morreu pobre, pode-se dizer. Estava sustentando
a família com os shows que apareciam para fazer'', diz William Martins.
Mas, por aqui, as aparições do ícone brega não atraíam menos de três
mil pessoas. Na capital cearense, Raimundo fazia o circuito de casas como Pau de Arara e
Sítio Siqueira. ''No ano passado, ele reuniu mais de seis mil pessoas no Cajueiro Drinks.
Depois fizemos também The Kings of Brega, com o Genival Santos. O último show fizemos no
BNB e teve uma repercussão muito grande. Aí ele tinha muitos amigos, como o Falcão, o
Laitinho Brega, o Waldick Soriano'', conta Martins. (© O Povo)
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