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18/10/2001

Lírio Ferreira: um irrequieto artista nordestino

O diretor Lírio Ferreira, cinco anos depois de 'Baile perfumado', faz planos sobre seus próximos projetos e prepara novas filmagens no sertão

TELMA ALVARENGA

   Lírio da Silva Ferreira Neto, 36 anos, está ansioso. Quase cinco anos depois de concluir o premiado O baile perfumado, o diretor não vê a hora de começar a filmar seu segundo longa. Já tem duas idéias na cabeça. Mais que isso. Tem um roteiro prontinho e outro quase concluído. Depois de um mergulho no sertão nordestino - para contar a história de Lampião e do fim do cangaço -, e de mais de 30 videoclipes no currículo, ele volta sua lente para o Rio de Janeiro, o samba, o morro da Mangueira. Escreveu, junto com Hilton Lacerda, uma mistura de documentário e ficção sobre a vida de Angenor de Oliveira, o Cartola. Não significa que tenha virado as costas para o sertão. Morando no Rio há cinco anos, o pernambucano não perdeu o sotaque nem o interesse pela terra onde nasceu. Vai voltar ao Nordeste para filmar Árido movie, que está terminando de escrever, com três parceiros. ''É um filme sobre o excesso de informação e a falta dágua'', resume. ''Hoje em dia, você tem telefone celular, internet, TV a cabo e não tem a coisa mais prosaica, que é a água.''

   Se depender dele, filma os dois longas já no ano que vem. ''Fiz o Baile há quase cinco anos, estou muito agoniado'', diz. Não que ele seja uma pessoa calma. Lírio fala rápido, gesticula muito e fica desconcertado quando é flagrado em sua ansiedade. ''Sou um pouco ansioso'', admite, desviando o olhar. Ele culpa os astros pela ansiedade. ''Acho que é porque sou pisciano com ascendente em peixes'', explica. ''Cinema é o meu tratamento, minha terapia'', diz.

   Marieta - Ele garante que sua ansiedade não transparece no set, no trabalho com os atores. ''Fico agoniado, mas por dentro. Por fora, sou calmo, não me estresso muito com as coisas.'' Ele também é tímido. Cabelos negros, olhos verdes, estilo despojado, Lírio faz sucesso entre as mulheres. Já ganhou até o apelido de Colírio entre fãs ocultas. Se sabia disso? Ele responde com um sorriso. ''Não sei, não sei. Não dou muita importância a isso'', diz. ''Com mulher, sou completamente tímido, fico todo sem jeito'', confessa.

   Ele foi casado oito anos com Maria Eduarda, uma bailarina pernambucana. Os dois moraram um ano em Londres e voltaram ao Brasil para o nascimento da filha, Júlia, de sete anos. Agora, Lírio está sozinho. ''Estou solteiro, sem namorada, vivendo, deixando a baleia cortar a onda. No seu tempo, as coisas aparecem'', diz. Há alguns anos, quando foi visto ao lado da atriz Marieta Severo, logo surgiram boatos de que os dois estariam namorando. Ele nega. ''Não namorei a Marieta, não. Somos muito amigos'', encerra o assunto.

   Há cerca de um ano, Lírio está morando na Gávea. Alugando o apartamento de Janaína Diniz, afilhada de Marieta. Janaína, filha de Ruy Guerra e Leila Diniz, foi casada com Paulo Caldas, grande amigo e parceiro de Lírio na direção de O baile perfumado. A decoração do apartamento de dois quartos é simples, minimalista. Na janela da sala, no lugar de uma cortina, uma colcha pendurada. A televisão fica sobre duas cadeiras, em frente a um velho sofá de dois lugares. Uma mesa com computador, uma estante com livros e duas cadeiras completam o ambiente. ''É tudo prático demais, tem o que eu necessito: uma cama, um computador, meus livros. Não preciso de muito dinheiro'', ri.

   Assassinato - Antes de vir para o Rio, Lírio morou em São Paulo. Ele e Paulo Caldas foram para finalizar O baile perfumado e acabaram ficando um ano por lá. Há seis anos longe de Recife, Lírio costuma voltar à sua terra a cada dois meses, para ver a filha, a família, os amigos de infância. Seu pai morreu quando ele tinha um ano de idade. ''Foi assassinado numa briga em Alagoas, uma história mal contada'', resume.

   Em Recife, ele se divide entre a casa da mãe e do padrasto, que ele chama de ''pai'', e dos amigos. ''Não consigo me desvincular de Recife, gosto muito de lá.'' Ele continua torcendo fervorosamente pelo Sport Club Recife. Lírio jogou no time juvenil do Sport, no meio de campo. ''Agora, na terceira idade, jogo tênis'', brinca. ''Mas comecei a jogar antes do fenômeno Guga, em 1995.''

   O último clipe que ele fez com o grupo Natiruts. Já trabalhou com dezenas de artistas, como Otto, Kid Abelha, Chico César, Zé Ramalho, Elba Ramalho, AfroReggae, Chitãozinho e Xororó, Zezé di Camargo e Luciano. Um time tão eclético quando seu gosto musical. ''Gosto de samba, de pop, de rock, de música clássica, depende do estado de espírito.'' Para falar sobre Cartola, Lírio está contando com a assessoria do sambista Elton Medeiros. Uma das idéias do diretor é que Cartola seja representado por vários atores. ''Seria um personagem com vários atores, brancos, pretos, com idades variadas. Uma coisa meio espírita, kardecista.'' Lírio conhece bem a religião. Herdou o nome do avô materno, que foi presidente da federação espírita. ''Até a adolescência, ia muito aos cultos lá. Também gosto de candomblé. Na infância, ia a uns terreiros, por causa da minha avó paterna. Baixavam uns santos lá em casa'', conta. ''Gosto também da liturgia católica, de assistir a uma missa. Não sou devoto praticante, embora veja beleza em várias religiões.'' No cinema, seus gurus são Orson Welles, Stanley Kubrick, Luis Buñuel, Glauber Rocha. ''São diretores inquietos, fazem cinema preocupados em transformar as pessoas. O que me motiva é criar dúvidas na cabeça do espectador, não entregar tudo de bandeja. O que me interessa em fazer cinema é essa coisa da transformação mesmo.'' (© Jornal do Brasil)


Cartola foi ''um gênio''

   Conversando com Lírio Ferreira sobre o filme que ele vai fazer em homenagem ao mestre Cartola, o cantor Zé Renato fez uma sugestão: ''Olha, o Vampeta (jogador do Flamengo) é muito parecido com o Cartola.'' Lírio se diverte com a idéia. ''Ainda não pensei em nomes de atores'', desconversa. ''O Vampeta teria que emagrecer um pouquinho, mas, quem sabe?'', ri. O diretor está empolgado com o novo trabalho. ''É um privilégio estar fazendo um filme sobre o Cartola, um dos maiores gênios do século que passou'', vibra. ''Ele foi pedreiro, funcionário público, ator coadjuvante, vendeu picolé, lavou carros. Só gravou seu primeiro disco com 66 anos de idade. É uma história absurda'', diz. Contando a vida de Cartola, Lírio quer falar também da Mangueira, favela onde o compositor de preciosidades como As rosas não falam e O mundo é um moinho viveu e onde até hoje mora sua viúva, Euzébia da Silva, a dona Zica. ''Contando a vida da Mangueira, vou contar a história do samba no Rio de Janeiro e, por conseguinte, quase cem anos da vida política e social do Rio.''

   Lírio fala com o mesmo entusiasmo de Árido movie, ficção que está escrevendo com Hilton Lacerda, Sérgio Oliveira e Eduardo Nunes. No filme, que ele pretende dirigir sozinho, ele vai contar a história de um homem que volta para o interior de Pernambuco, onde nasceu, 32 anos depois. ''Ele mora em Nova York, vem para o Brasil para o enterro do pai e acaba sendo escolhido para vingar a morte dele'', diz. Na volta para o sertão, o personagem faz o que Lírio chama de um ''mergulho existencial''. ''Quando você entra no sertão, em qualquer estado nordestino, sente uma mudança incrível. O comportamento das pessoas é diferente, a luz do lugar...'' O pano de fundo da história é a falta dágua. ''Um problema que não aflige só as cidades do interior do país, mas Recife e até São Paulo. A água é a grande moeda desse milênio.'' Junto com a ficção, Lírio vai contar uma história real: de um homem que fundou uma seita numa fazenda no meio do sertão, onde construiu um castelo de quatro andares. ''Ele já morreu, mas tem um garoto sendo preparado para ocupar o lugar dele na seita'', conta Lírio. ''Era a única pessoa que tinha água na região, duas cisternas cheias. Ele usava a água como elemento purificador, de cura.'' (T.A.) (© Jornal do Brasil)


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