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Todos os caminhos levam à Bienal do Livro

04/10/2003

Feira internacional de livros abre seus portões hoje no Centro de Convenções com muitas atrações para o público infantil e também o adulto

   O primeiro dia da IV Bienal Internacional do Livro de Pernambuco tem como destaque a literatura infantil. As escritoras Ruth Rocha e Ana Maria Machado irão participar juntas de um debate, a partir das 19h, sobre os mais clássicos títulos voltados para as crianças. As duas autoras chegam ao Recife no rastro do relançamento que a Editora Salamandra fez de alguns dos seus principais livros, da década de 70 e início dos anos 80. A conversa será no Auditório Casa-Grande & Senzala.

   Outro destaque de hoje do Auditório Casa-Grande & Senzala será a participação, às 14h30, do trio Carlos Heitor Cony, Artur Xexéo e Heródoto Barbeiro, debatendo a importância da liberdade de expressão. Sem dúvida, essa mesa será uma das mais disputadas pelo público durante a programação da Bienal. Ainda no Casa-Grande & Senzala, às 11h, o escritor Francisco Espinhara fala sobre o movimento dos poetas independentes do Recife, que movimentou o mundo cultural da Cidade durante os anos 80. E, às 21h, Luís Carlos Monteiro, Abdias Moura, Lula Arraes e a professora do departamento de letras da UFPE e escritora Luzilá Gonçalves Ferreira debatem os caminhos que levam ao processo de criação na ficção.

   Já na Sala 1, a partir das 10h, a conversa irá girar em torno do notório cruzamento entre cinema & literatura. Haverá a exibição dos curtas Recife de Dentro para Fora, de Kátia Mesel, Soneto do Desmantelo Blue – Frangmento da Poesia do Poeta Pernambucano Carlos Pena Filho, de Cláudio Assis, e Clandestina Felicidade, de Marcelo Gomes e Beto Normal, enfocando a infância de Clarice Lispector no Recife.

   A partir das 17h, o cineasta Nelson Pereira dos Santos e o pesquisador Edson Nery da Fonseca debatem as adaptações literárias para o cinema. Para encerrar a programação da Sala 1, o hermético e polêmico escritor James Joyce será tema de uma conversa comandada por Paulo Medeiros, Mário Hélio, Antônio Mota e Jacques Laberge.

   Hoje e amanhã, o escritor Raimundo Carrero leva para a Bienal uma filial da sua tradicional oficina literária. Hoje, Carrero irá conversar com os alunos sobre os ingredientes que fazem parte de um clássico da literatura. As inscrições podem ser feitas ainda neste sábado, pelo telefone 9615.2741.

   No Espaço Pedagógico Cultural, às 10h, haverá a abertura oficial da VIII Exposição Filatélica do Norte/Nordeste, e às 16h o lançamento do selo Brincadeiras e Jogos de Ruas. Às 17h, o ator Leidson Ferraz irá fazer uma performance especial dos textos de Jomard Muniz de Brito, para o espetáculo Versos de Nós, também no Espaço Pedagógico. A programação do sábado do Espaço Pedagógico Cultural será encerrada com uma performance especial do Grupo Bongá.

(© Jornal do Commercio-PE)


Fernando Monteiro no front inimigo

SCHNEIDER CARPEGGIANI

   O escritor Fernando Monteiro sempre escreveu para criar uma tênue linha entre realidade e ficção. Foi assim com a novela Aspades, com notas de rodapé reais para contar a vida de um obscuro diretor português ficcional. Em O Rosto da Múmia Dourada do Rio de Janeiro criou a biografia falsa de um museólogo verdadeiro. E em O Grau Graumann seu foco foi a histeria da mídia brasileira, sedenta por toda espécie de factóides. Na coletânea de contos Armada América ele levou seu flerte com a realidade para um grau ainda mais apurado – recriou fragmentos da vida de alguns dos maiores ícones dos Estados Unidos.

   Armada América é destaque do projeto Livro Aberto hoje, às 19h, no Café Literário, da IV Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. O texto será comentado pelo escritor e jornalista Marco Polo.

   Na verdade, Armada América estava para ser lançado apenas em 2004. No projeto original do autor, a idéia era uma continuação de O Grau Graumann, no qual ele iria continuar a se debruçar sobre um dos seus temas favoritos – a decadência da literatura contemporânea. Mas toda a relação de repulsa e patriotismo que a Guerra do Iraque levantou contra os Estados Unidos fez Monteiro mudar de plano.

   “Se fosse lançado depois, o livro não faria tanto sentido”, afirmou, fazendo crer que sua literatura é escrita em ‘tempo real’. “O leitor, a verdade seja dita, tem hoje uma grande desconfiança da ficção que se apresenta apenas como ficção. E, de fato, a vida aí fora está dando de dez a zero no mais ‘mágico realismo’”, destaca Monteiro.

   Para cada um dos contos de Armada América, Monteiro cria personas para si mesmo. Em alguns é um narrador distante, em outros conta as histórias como se estivesse no olho do furacão. Seus personagens são bem familiares. Há a ‘realeza’ dos Estados Unidos, ou seja a família Kennedy, o anjo caído Marilyn Monroe, um Orson Welles apurando a presença de ETs, um passeio de carro com F. Scott Fitzgerald e as histórias do velho oeste, com “as suas romanescas narrativas de ouro desprendendo das montanhas de Durango, tal qual um velho perfume.”

   Esses personagens só realçam aos nossos olhos que a nossa ligação com os Estados Unidos é tanto de adoração com seus ícones como de ódio diante da sua postura de dominação do mundo. É extremada, como toda relação que se pretende profunda. A América de Monteiro é tanto amada como armada – o trocadilho com o título do livro se faz essencial aqui.

   “Não se pode deixar de amar – ao mesmo tempo – o país de Whitman e de Pound, de Buster Keaton e John Ford, de Tom Dooley e Thomas Merton, de George Gershwin e Cole Porter. Há uma América ‘justa e gentil soterrada’, um país que sonhava ser bom, debaixo da capa de chuva do soldado opressor. Armada América tenta abrir a faixa mais larga da estrada, buscando a trilha de alguns sonhos desviados. Com certeza, a minha imaginação de escritor – estimulada pela literatura e pelo cinema – funciona melhor nesse tipo de autoestrada do que apertada nas veredas de acesso somente a Taperoá, por exemplo”, realça Monteiro.

   E a ‘boa América’ parece sobreviver para todos os ocidentais, mesmo com a existência de um George W. Bush Jr. no caminho, que é lembrado na epígrafe do livro na irônica epígrafe “o futuro será melhor amanhã”.

(© Jornal do Commercio-PE)


Literatura infantil sob os holofotes

   A imagem símbolo da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco deste ano é de uma menina dormindo ao lado de um livro de conto de fadas. Percebe-se daí que, nesta quarta edição do evento, haverá um espaço maior dedicado à literatura infantil, até mesmo porque no dia 12 de outubro, quando termina esta edição do evento, é o Dia da Criança. E se uma das funções da bienal é servir de canalizadora para alguns lançamentos de autores locais, os destaques da programação vão justamente para os autores infanto-juvenis.

   A editora que certamente faz comissão de frente a esses lançamentos pernambucanos é a Bagaço. Hoje, duas publicações chegam às mãos do público pela editora local: Tita e o Mundo das Artes, de Elisa Maria Rands Coelho Barros. A escritora fez um livro quase paradidático sobre como a criança pode observar e saber mais sobras clássicos das artes plásticas. O segundo livro é Poeminhas, de Ricardo Mello e Samuca (juntos eles já escreveram pequenos poemas em outras cinco publicações). A dupla apostou novamente em pequenas poesias de um verso só, sempre ilustradas por um cartum. Os livros serão lançados, respectivamente, às 17h e 18h, no estande da Bagaço.

   A editora ainda lança outras publicações infantis até o dia 12, entre elas Miudinha, de Jessier Quirino, O Elefantinho Gago, de Carla Moreira e Sandra Alves e O Mistério dos Bigudus, de Rosa Mariano. Este último encerra os lançamentos da Bagaço na Bienal.

   Ainda neste sábado também, às 20h, o livro A Menina Íris, de Carmem Lúcia Bandeira e ilustrado pelo artista plástico Urian Agria de Souza será lançado pelo Centro de Cultura Luiz Freire. A obra retrata as mitologias e contos que valorizam a tradição oral dos índios através da literatura. O trabalho servirá como material didático às escolas indígenas.

   Além de lançamentos e debates (como o de Ana Maria Machado e Ruth Rocha, hoje), a bienal irá realizar diversas atividades para crianças, com apresentações de shows e contações de histórias.

(© Jornal do Commercio-PE)

Pernambuco se diz presente à Bienal com muitos lançamentos
Edições Bagaço vem com mais de 50 títulos Geração 65 mostra sua força e permanência

   A IV Bienal Internacional do Livro será aberta solenemente hoje no Pavilhão do Centro de Convenções. Amanhã, abre ao público. Para os pernambucanos, mais do que uma feira literária, o evento é uma oportunidade ímpar de encontro com antigos e possíveis leitores. Somente a Edições Bagaço aproveita a oportunidade para promover o lançamento simultâneos de mais de 50 títulos de autores. A importante Geração 65 ganha finalmente um dia especial para discussão de seu legado e desdobramentos e muitos de seus expoentes autografam livros.

   O rol de lançamentos pernambucanos é extenso. O poeta Marco Polo Guimarães mostra o vigor de sua poesia em Caligrafias, que será lançado no dia 10. Os poemas ora evocam lembranças de terras distantes como Dublin ou Lisboa ora exalam erotismo. Tema recorrente aos poetas, a reflexão sobre o fazer poético também está presente. Ciente de seus recursos, Marco Polo se exercita em poema em prosa, em versos curtos e incisivos, ora liricamente.

   Outro lançamento importante da Bienal do Livro é Entre a Cruz e a Espada: Violência e Misticismo no Brasil Rural, do brasilianista Gregg Marber (editora Terceiro Nome), na segunda-feira. Já Luiz Otávio Cavalcanti reflete sobre a Guerra do Iraque, em Primavera de Bagdá.

   CINEMA E LITERATURA – Na programação do primeiro dia da IV Bienal I Livro, no sábado, o cinema nacional terá destaque especial. Exibições de curtas pernambucanos e palestras com cineastas e personalidades ligadas a sétima arte farão parte de um dia inteiro dedicado ao cinema.

   Entre os curtas que serão apresentados estão Recife de Dentro para Fora, de Kátia Mesel e Soneto do Desmantelo Blue, do diretor de Amarelo Manga, Cláudio Assis, que estará presente na exibição. Do cineasta Marcelo Gomes, será apresentado Clandestina Felicidade, produzido em parceria com Beto Normal.

   Além dos filmes, as palestras também prometem um bom público. Tarciana Portela, delegada regional do Ministério da Cultura e Marcos Henrique Lopes, cineasta pernambucano, estarão participando da palestra “Popularização das Salas de Cinema”. As adaptações literárias no cinema também serão discutidas com o cineasta Nelson Pereira dos Santos, diretor do clássico Tenda dos Milagres, e Edson Nery da Fonseca, professor da UNB e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco.

(© Jornal do Commercio-PE, 03.10.2003)


Autor de 85 anos autografa livro de memórias e romance regional

   Aos 85 anos, o escritor Paulo de Mello Bastos é um dos autores mais velhos a lançar um livro da Bienal Internacional do Livro. Com uma trajetória de lutas que começa como militar nacionalista e depois como aviador civil líder sindical, finalmente pela anistia, o ex-comandante autografa, domingo, às 20h, um livro de memórias – Salvo Conduto, que marcou sua estréia literária aos 80 anos – e um romance – Tauã – A Verdade Verdadeira que Seu Noberto Contou.

   “Na verdade eu comecei a escrever bem antes, em Goiás, na fazenda, à luz de lampião. Isso há mais de 20 anos. Na época eu ficava sozinho durante a semana, só tinha o rádio de pilha para ouvir em ondas curtas. Pensei em escrever uma longa carta para o meu amigo logo que comecei na aviação, o Amaury, e que morreu num acidente, em 1940. Eu queria contar para o Amaury o que tinha se passado no mundo depois da morte dele. Comecei pela grande guerra, da qual desejávamos participar juntos. Aí eu fui escrevendo, escrevendo, e já não era uma carta para o Amaury. Acabou virando o Salvo Conduto, diz o autor.

   Mello Bastos achou que seu livro de memórias acabou girando em torno da minha atividade política. “Achei que tinha muitas outras histórias para contar. Decidi, então, escrever um romance, inspirado na história da minha avó, Tauã. Era esse o apelido dela. Ela era uma mulher batalhadora, que gostava de ler jornal, por exemplo, uma coisa fora do comum naquela época.”

(© Jornal do Commercio-PE, 03.10.2003)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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