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O olhar do mensageiro

04/10/2003

Francês, o fotógrafo Pierre Verger viajou o mundo mas encontrou na Bahia o paraíso na terra

 

Depois de três meses de negociação, foi aberta ao público no Centro Dragão do Mar a exposição O olhar viajante de Pierre Fatumbi Verger. Desde o fim de julho, todo o material estava guardado à espera de patrocinadores

Émerson Maranhão
da Redação

''A sensação de que existia um vasto mundo não me saía da cabeça e o desejo de ir vê-lo me levava em direção a outros horizontes''.
(Pierre Verger)

"Comecei a viajar, não tanto pelo desejo de fazer pesquisas etnográficas ou reportagens, mas por necessidade de distanciar-me, de libertar-me e escapar do meio em que tinha vivido até então, cujos preconceitos e regras de conduta não me tornavam feliz''.
(Pierre Verger)

   Um olhar em trânsito. Na retina, horizontes desconhecidos, continentes distantes, culturas insuspeitadas. Como companhia, uma câmera Rolleiflex, extensão das vistas responsável pelo registro de quase meio século de perambular, de flanar entre surpresas, prazeres, inquietações. Durante 48 anos, essa foi a sina do fotógrafo francês Pierre Verger. Uma exposição que chega agora em Fortaleza reúne boa parte dessa trajetória.

   Mais conhecido por seu trabalho dedicado aos povos Iorubá e seus descendentes na África e na Bahia, Verger correu o mundo antes de se quedar de encantos pelos povos e cultura afro-brasileiros e se radicar na Boa Terra. A exposição O olhar viajante de Pierre Fatumbi Verger, que será aberta amanhã no Museu de Arte Contemporânea do Ceará, do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC), refaz esses caminhos através de aproximadamente 500 fotografias (muitas inéditas), documentos e objetos pessoais do fotógrafo, objetos de rituais de Candomblé e a projeção do documentário O mensageiro de dois mundos, rodado em 1996 pelo diretor Lula Buarque de Holanda, em que Gilberto Gil entrevista o homenageado.


  
Considerada a maior mostra fotográfica individual já realizada no Brasil e montada para comemorar o centenário do nascimento de Verger, no ano passado, sob a curadoria de Raul Lody, a exposição já percorreu seis cidades brasileiras onde o fotógrafo viveu ou trabalhou: Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Salvador, Recife e Belém. Sua passagem por Fortaleza é resultado de uma provocação feita pelos organizadores da mostra.

   ''Quando nós estávamos para terminar o roteiro oficial em Belém, cogitamos a possibilidade de aproveitar a proximidade e levar a exposição para outras capitais nordestinas'', conta a produtora da Fundação Pierre Verger, Déa Márcia Federico. ''Então viemos a Fortaleza e entramos em contato com a direção do Centro Dragão do Mar, que se interessou muito pela idéia, mas avisou de antemão que não teria recursos para patrociná-la''.

   Começava, então, a peleja para viabilizar a vinda da mostra para a capital cearense. Como o retorno do material para Salvador encareceria ainda mais o projeto, a diretora do Centro Dragão do Mar, Cristiana Parente, ofereceu a área da reserva técnica do Museu para guardar as fotografias e objetos pertencentes ao fotógrafo enquanto tentava-se levantar os recursos necessários.

   Essa operação durou três meses, período em que todo o material da exposição ficou guardado no CDM. Há cerca de 15 dias, graças à uma parceria entre o Banco do Nordeste, a Petrobras, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e o próprio Centro Dragão do Mar, foi obtido o patrocínio de aproximadamente R$ 160 mil para a montagem da exposição.

   ''Essa foi a forma que nós encontramos para marcar a criação da Superintendência de Comunicação e Cultura do Banco do Nordeste'', explica o titular da função recém-criada, Paulo Mota. ''Através dessa mesma parceria com os Correios e a Petrobras já garantimos também a ida dessa exposição para Maceió e para Aracaju''.

   Depois de encerrar o percurso pelas capitais nordestinas, O olhar viajante de Pierre Fatumbi Verger segue para o Sul do país, onde será exposta em Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre. De acordo com Déia Federico, já existem convites para levar a mostra para a Europa e para os EUA. ''Isso sem falar nas comemorações do centenário de Verger em Benim, na África, para onde ele viajou freqüentemente, desde 1948'', ressalta. ''Lá teremos exposições, simpósios, exibição de filmes, enfim, será uma grande festa''.

SERVIÇO

O olhar viajante de Pierre Fatumbi Verger - Visitação pública: de 3 de outubro a 2 de novembro, das 10 às 22 horas, no Museu de Arte Contemporânea do Ceará, do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema). Preço: R$ 2,00 (inteira) e R$ 1,00 (meia-entrada). Aos domingos a entrada é gratuita.

(© O Povo/NoOlhar.com.br)


O babalaô Pierre Fatumbi Verger

Francês, o fotógrafo Pierre Verger viajou o mundo mas encontrou na Bahia o paraíso na terra

   Pierre Verger nasceu em Paris, em novembro de 1902. Até os 30 anos, teve uma vida convencional e em boa situação financeira. Após a morte da mãe, em 1932, decidiu deixar a cidade e ganhar a estrada, sobrevivendo às custas da fotografia. Começou as viagens pela Europa, onde deu a volta a pé na Ilha de Córsega e em seguida visitou a União Soviética, passeou pela Espanha e pela Itália. De dezembro de 1932 até agosto de 1946, foram quase 14 anos consecutivos de viagens ao redor do mundo.

   A primeira grande viagem aconteceu na Oceania, onde morou mais de um ano. Em seguida vieram o Taiti e ilhas próximas, Japão, China, Vietnã, Camboja, Laos, Filipinas, EUA, Cuba, México, Peru, Brasil e diversos países do continente africano, entre tantos outros.

   No entanto, foi quando desembarcou na Bahia de Todos os Santos, em 1946, que o fotógrafo encontrou rumo novo na vida. Apaixonado pela miscigenação pacífica com que se deparou nas ruas de Salvador - ''É um dos poucos lugares do mundo onde há a possibilidade de se viver sobre o mesmo plano amistoso, com pessoas de origem étnica diferente'', justificava -, Verger se infiltrou nas ruelas e ladeiras da capital, tentando descobrir mais daquele povo.

   Acabou por se interessar pelo Candomblé e a ele creditava a fonte de vitalidade do baiano. ''O Candomblé é para mim muito interessante por ser uma religião de exaltação à personalidade das pessoas. Onde se pode ser verdadeiramente como se é, e não o que a sociedade pretende que o cidadão seja'', dizia.

   Em 1948, o fotógrafo conseguiu uma bolsa para estudar a religião na África, de onde voltou com o título de babalaô (sacerdote iniciado) e com o nome de Fatumbi: ''nascido de novo graças ao Ifá''. Depois disso passou a se dividir entre Salvador (onde já estava radicado) e a África Ocidental, onde realizava suas pesquisas sobre os descendentes de Iorubás. Também estendeu seus estudos sobre as conseqüências sociais, econômicas e políticas do tráfico de escravos para o Brasil e o uso medicinal e litúrgico das plantas.

   Pierre Verger morreu em fevereiro de 1996, deixando mais de 62 mil negativos, e uma grande quantidade de relatórios, pesquisas e levantamentos guardados na fundação que leva seu nome, em Salvador. É parte desse material que está aberta à visitação pública em Fortaleza. (Émerson Maranhão)

(© O Povo/NoOlhar.com.br)

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