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04/10/2003
por Fernando Henrique Cardoso (O texto de Fernando Henrique Cardoso faz parte de uma edição comemorativa de 70 anos de "Casa-Grande & Senzala", de Gilberto Freyre, que está sendo publicada pela Global (tel. 0/xx/ 11/3277-7999). A festa de lançamento da obra acontece no dia 8 de outubro, em Recife (Domenico Livraria & Bistrô, tel. 0/xx/ 81/3465-8329). A editora ainda publicará neste ano "Sobrados e Mocambos", "Ordem e Progresso" e "Nordeste") Nova edição de "Casa-Grande & Senzala". Quantos clássicos terão tido a ventura de serem reeditados tantas vezes? Mais ainda: Gilberto Freyre sabia-se "clássico". Logo ele, tão à vontade no escrever, tão pouco afeito às normas. E todos que vêm lendo "Casa-Grande & Senzala", há 70 anos, mal iniciada a leitura, sentem que estão diante de obra marcante. Darcy Ribeiro, outro renascentista caboclo, desrespeitador de regras, abusado mesmo e com laivos de gênio, escreveu no prólogo que preparou para ser publicado na edição de "Casa-Grande & Senzala" pela biblioteca Ayacucho de Caracas que esse livro seria lido no próximo milênio. Como escreveu no século passado, quer dizer nos anos 1900, no século 20, seu vaticínio começa a cumprir-se neste início de século 21. Mas por quê? Os críticos nem sempre foram generosos com Gilberto Freyre. Mesmo os que o foram, como o próprio Darcy, raramente deixaram de mostrar suas contradições, seu conservadorismo, o gosto pela palavra sufocando o rigor científico, suas idealizações e tudo o que, contrariando seus argumentos, era simplesmente esquecido. É inútil rebater as críticas. Elas procedem. Podem-se fazê-las com mordacidade, impiedosamente ou com ternura, com compreensão, como seja. O fato é que até já perdeu a graça repeti-las ou contestá-las. Vieram para ficar, assim como o livro. É isso que admira: "Casa-Grande & Senzala" foi, é e será referência para a compreensão do Brasil. Por quê? Insisto. A etnografia do livro é, no dizer de Darcy Ribeiro, de boa qualidade. Não se trata de obra de algum preguiçoso genial. O livro se deixa ler preguiçosamente, languidamente. Mas isso é outra coisa. É tão bem escrito, tão embalado na atmosfera oleosa, morna, da descrição frequentemente idílica que o autor faz para caracterizar o Brasil patriarcal, que leva o leitor no embalo. Mas que ninguém se engane: por trás das descrições, às vezes romanceadas e mesmo distorcidas, há muita pesquisa. Gilberto Freyre tinha a pachorra e a paixão
pelo detalhe, pela minúcia, pelo concreto. A tessitura assim formada, entretanto,
levava-o frequentemente à simplificação habitual nos grandes muralistas. Na projeção
de cada minúcia para compor o painel surgem construções hiper-realistas mescladas com
perspectivas surrealistas que tornam o real fugidio. Ocorreu dessa forma na descrição
das raças formadoras da sociedade brasileira. O português descrito por Gilberto não é
tão mourisco quanto o espanhol. Tem pitadas de sangue celta, mas desembarca no Brasil
como um tipo histórico tisnado com as cores quentes da África. O indígena é demasiado
tosco para quem conhece a etnografia das Américas. Nosso autor considera os indígenas
meros coletores, quando, segundo Darcy Ribeiro, sua contribuição para a domesticação e
o cultivo das plantas foi maior que a dos africanos. O negro, e nesse ponto o anti-racismo de Gilberto Freyre ajuda, faz-se orgiástico por sua situação social de escravo, e não como consequência da raça ou de fatores intrinsecamente culturais. Mesmo assim, para quem tinha o domínio etnográfico de Gilberto Freyre, o negro que aparece no painel é idealizado em demasia. Todas essas caracterizações, embora expressivas, simplificam e podem iludir o leitor. Mas com elas o livro não apenas ganha força descritiva, como se torna quase uma novela, das melhores já escritas, e, ao mesmo tempo, ganha força explicativa. Nisso reside o mistério da criação. Em outra oportunidade, tentando expressar meu encantamento de leitor, apelei a Trótski para ilustrar o que depreendia esteticamente da leitura de "Casa-Grande & Senzala". O grande revolucionário dizia: "Todo
verdadeiro criador sabe que nos momentos da criação alguma coisa de mais forte do que
ele próprio lhe guia a mão. Todo verdadeiro orador conhece os minutos em que exprime
pela boca algo que tem mais força que ele próprio". Assim ocorreu com Gilberto
Freyre. Sendo correta ou não a minúcia descritiva e mesmo quando a junção dos
personagens se faz em uma estrutura imaginária e idealizada, brota algo que,
independentemente do método de análise e às vezes mesmo das conclusões parciais do
autor, produz o encantamento, a iluminação que explica sem que se saiba a razão. Como
entretanto não se trata de pura ilusão, há de reconhecer-se que "Casa-Grande &
Senzala" eleva à condição de mito um paradigma que mostra o movimento da sociedade
escravocrata e ilumina o patriarcalismo vigente no Brasil pré-urbano-industrial. Latifúndio e escravidão, casa-grande e senzala eram, de fato, pilares da ordem escravocrata. Se nosso autor tivesse ficado só nisso seria possível dizer que outros já o haviam feito e com mais precisão. É no ir além que está a força de Gilberto Freyre. Ele vai mostrando como, no dia-a-dia, essa estrutura social, que é fruto do sistema de produção, se recria. É assim que a análise do nosso antropólogo-sociólogo-historiador ganha relevo. As estruturas sociais e econômicas são apresentadas como processos vivenciados. Apresentam-se não só situações de fato, mas pessoas e emoções que não se compreendem fora de contextos. A explicação de comportamentos requer mais do que a simples descrição dos condicionantes estruturais da ação. Essa aparece no livro como comportamento efetivo, e não apenas como padrão cultural. Assim fazendo, Gilberto Freyre inova nas análises sociais da época: sua sociologia incorpora a vida cotidiana. Não apenas a vida pública ou o exercício de funções sociais definidas (do senhor de engenho, do latifundiário, do escravo, do bacharel), mas a vida privada. Hoje ninguém mais se espanta com a
sociologia da vida privada. Há até histórias famosas sobre a vida cotidiana. Mas, nos
anos 30, descrever a cozinha, os gostos alimentares, mesmo a arquitetura e, sobretudo, a
vida sexual era inusitado. Digo isso não para "desmistificar". Convém recordar que outro grande invento-realidade, o de Mário de Andrade, Macunaíma, expressou também (e não expressará ainda?) uma característica nacional que, embora criticável, nos é querida. O personagem principal é descrito como herói sem nenhum caráter. Ou melhor, com caráter variável, acomodatício, oportunista. Essa, por certo, não é toda a verdade da nossa alma. Mas como negar que exprime algo dela? Assim também Gilberto Freyre descreveu um Brasil que, se era imaginário em certo nível, em outro, era real. Mas como seria gostoso se fosse verdade por inteiro, à condição de todos terem sido senhores... É essa característica de quase mito que dá a "Casa-Grande & Senzala" a força e a perenidade. A história que está sendo contada é a história de muitos de nós, de quase todos nós, senhores e escravos. Não é por certo a dos imigrantes. Nem a das populações autóctones. Mas a história dos portugueses, de seus descendentes e dos negros, que, se não foi exatamente como aparece no livro, poderia ter sido a história de personagens ambíguos que, se abominavam certas práticas da sociedade escravocrata, se embeveciam com outras, com as mais doces, as mais sensuais. Trata-se, reitero, de dupla simplificação, a que está na obra e a que estou fazendo. Mas que capta, penso eu, algo que se repete na experiência e na análise de muitos. É algo essencial para entender o Brasil. Trata-se de uma simplificação formal que caracteriza por intermédio de oposições simples, quase sempre binárias, um processo complexo. Não será próprio da estrutura do mito, como diria Lévi-Strauss, esse tipo de oposição binária? E não é da natureza dos mitos perenizarem-se? E eles, por mais simplificadores que sejam, não ajudam o olhar do antropólogo a desvendar as estruturas do real? Basta isso para demonstrar a importância de uma obra que formula um mito nacional e ao mesmo tempo o desvenda e assim explica, interpreta, mais que a nossa história, a formação de um esdrúxulo "ser nacional". Mas, cuidado! Essa "explicação" é toda própria. Nesse ponto, a exegese de Ricardo Benzaquen de Araújo em "Guerra e Paz" [ed. 34] é preciosa. Gilberto Freyre seria o mestre do equilíbrio dos contrários. Sua obra está perpassada por antagonismos. Mas dessas contradições não nasce uma
dialética, não há a superação dos contrários nem por consequência se vislumbra
qualquer sentido da História. Os contrários se justapõem, frequentemente de forma
ambígua, e convivem em harmonia. O exemplo mor que Ricardo Benzaquen de Araújo extrai de
"Casa-Grande & Senzala" para explicar o equilíbrio de contrários é a
análise de como a língua portuguesa no Brasil nem se entregou completamente à forma
corrupta como era falada nas senzalas, com muita espontaneidade, nem se enrijeceu como
almejariam os jesuítas professores de gramática. "A nossa língua nacional resulta
da interpenetração das duas tendências." Enriqueceu-se graças à variedade de
antagonismos, o que não ocorreu com o português da Europa. Depois de mostrar a
diversidade das formas pronominais que nós usamos, Gilberto Freyre diz: "A força,
ou antes, a potencialidade da cultura brasileira parece nos residir toda na riqueza de
antagonismos equilibrados (...). Não que no brasileiro subsistam como no anglo-americano
duas metades inimigas: a branca e a preta; o ex-senhor e o ex-escravo. De modo nenhum.
Somos duas metades confraternizantes que se vêm mutuamente enriquecendo de valores e
experiências diversas; quando nos completarmos num todo, não será com o sacrifício de
um elemento a outro" ("Casa-Grande & Senzala", Rio, Maia e Schmidt
Ltda., 1933, págs. 376-7). A noção de equilíbrio dos contrários é extremamente rica para entender o modo de apreensão do real utilizado por Gilberto Freyre. Até porque também ela é "plástica". E tem tudo a ver com a maneira pela qual Gilberto Freyre interpreta seus objetos de análise. Primeiro porque transforma seus "objetos" em processos contínuos nos quais o próprio autor se insere. É a convivialidade com a análise, o estar à vontade na maneira de escrever, o tom moderno de sua prosa, que envolvem não só o autor, como o leitor, o que distingue o estilo de "Casa-Grande & Senzala". Depois, porque Gilberto Freyre,
explicitamente, ao buscar a autenticidade, tanto dos depoimentos e dos documentos usados
quanto dos seus próprios sentimentos e ao ser tão anti-retórico que às vezes perde o
que os pretensiosos chamam de "compostura acadêmica", não visava propriamente
a demonstrar, mas a convencer. E convencer significa vencer junto, autor e leitor. Esse
procedimento supõe uma certa "revelação", quase uma epifania, e não apenas
um processo lógico ou dialético. Ao afastar-se da visão metódica e exaustiva, abre-se, naturalmente, à crítica fácil. Equivocam-se porém os que pensarem que por isso Gilberto não retrate o que ao seu ver realmente importa para a interpretação que está propondo. Por certo, obra assim concebida é necessariamente única. Não é pesquisa que, repetida nos mesmos moldes por outrem, produza os mesmos resultados, como prescrevem os manuais na versão pobre do cientificismo corrente. Não há intersubjetividade que garanta a objetividade. É a captação de um momento divinatório que nos convence, ou não, da autenticidade da interpretação proposta. A obra não se separa do autor, seu êxito é a confirmação do que se poderia chamar de criatividade em estado puro. Quando bem-sucedida, essa técnica beira a genialidade. Não digo isso para negar valor às interpretações, ou melhor, aos insights de Gilberto Freyre, até porque, a essa altura, seria negar a evidência. Digo apenas para, ao subscrever as análises já referidas sobre os equilíbrios entre contrários, mostrar as suas limitações e, quem sabe, explicar, por suas características metodológicas, o mal-estar que a obra de Gilberto Freyre causou, e quem sabe ainda cause, na academia. As oposições simplificadoras, os contrários em equilíbrio, se não explicam logicamente o movimento da sociedade, servem para salientar características fundamentais. São, nesse aspecto, instrumentos heurísticos, construções do espírito cuja fundamentação na realidade conta menos do que a inspiração derivada delas, que permite captar o que é essencial para a interpretação proposta. Não preciso referir-me aos aspectos vulneráveis já salientados por muitos comentadores de Gilberto Freyre: suas confusões entre raça e cultura, seu ecletismo metodológico, o quase embuste do mito da democracia racial, a ausência de conflitos entre as classes ou mesmo a "ideologia da cultura brasileira" baseada na plasticidade e no hibridismo inato que teríamos herdado dos ibéricos. Todos esses aspectos foram justamente apontados por muitos críticos, entre os quais Carlos Guilherme Mota. E como, apesar disso, a obra de Freyre
sobrevive, e suas interpretações não só são repetidas (o que mostra a perspicácia
das interpretações) como continuam a incomodar a muitos, é preciso indagar mais o
porquê de tanta resistência para aceitar e louvar o que de positivo existe nela. Em que sentido? Na visão da evolução política do país e, portanto, na valorização de aspectos que negam o que Gilberto Freyre analisou e em que acreditou. Ricardo Benzaquen de Araújo ressalta um ponto pouco percebido da obra gilbertiana, seu lado "político". Um politicismo, como tudo nela, original. Referindo-se ao "New Deal" de Roosevelt, Gilberto Freyre valoriza as "idéias", não os ideais. A grande eloquência, o tom exclamatório dos "grandes ideais", messiânicos, tudo isso é posto à margem e substituído pela valorização de práticas econômicas e humanas que, de alguma maneira, refletem a experiência comprovada de muitas pessoas. Mais a rotina do que o grande gesto. Quando se contrastam as interpretações valorativas de Gilberto Freyre com as opções posteriores, vê-se que sua visão do Brasil patriarcal, da casa-grande, da plasticidade cultural portuguesa, do sincretismo baseada na valorização de uma ética dionisíaca. As paixões, seus excessos, são sempre gabados, e esse "clima cultural" não favorece a vida pública e menos ainda a democracia. Gilberto Freyre opta por valorizar um etos que, se garante a identidade cultural dos senhores (é ele próprio quem compara o patriarcalismo nordestino com o dos americanos do Sul e os vê próximos), isola os valores da casa-grande e da senzala em seus muros. Da moral permissiva, dos excessos sexuais ou do arbítrio selvagem dos senhores, não há passagem para uma sociabilidade mais ampla, nacional. Fica-se atolado no patrimonialismo familístico, que Freyre confunde frequentemente com o feudalismo. Não se entrevê o Estado, nem mesmo o Estado patrimonialista dos estamentos de Raymundo Faoro e, muito menos, o etos democrático buscado por Sérgio Buarque de Holanda e tantos outros. A "política" de Gilberto Freyre estiola fora da casa-grande. Com esta, ou melhor, com as características culturais e com a situação social dos habitantes do latifúndio, não se constrói uma nação, não se desenvolve capitalisticamente um país e, menos ainda, poder-se-ia construir uma sociedade democrática. É por aí que Tarcísio Costa procura
explicar o afastamento de Gilberto Freyre da intelectualidade universitária e dos
autores, pesquisadores e ensaístas pós-Estado Novo. Estes queriam construir a democracia
e Gilberto foi, repetindo José Guilherme Merquior, "nosso mais completo anti-Rui
Barbosa". Os pensadores mais democráticos do passado, como o já referido Sérgio Buarque ou Florestan Fernandes e também os mais recentes, como Simon Schwartzman ou José Murilo de Carvalho (este olhando mais para a sociedade do que para o Estado), farão críticas implícitas, quando não explícitas, ao iberismo e à visão de uma "cultura nacional", mais próxima da emoção do que da razão. E outra não foi a atitude crítica de Sérgio Buarque diante do "homem cordial". O patriarca de Gilberto Freyre poderia ter sido um déspota doméstico. Mas seria, ao mesmo tempo, lúdico, sensual, apaixonado. De novo, no equilíbrio entre contrários, aparece uma espécie de racionalização que, em nome das características "plásticas", tolera o intolerável, o aspecto arbitrário do comportamento senhorial se esfuma no clima geral da cultura patriarcal, vista com simpatia pelo autor. Terá sido mais fácil assimilar o Weber da "Ética Protestante" e da crítica ao patrimonialismo do que ver no tradicionalismo um caminho fiel às identidades nacionais para uma construção do Brasil moderno. Dito em outras palavras e a modo de conclusão: o Brasil urbano, industrializado, vivendo uma situação social na qual as massas estão presentes e são reivindicantes de cidadania e ansiosas por melhores condições de vida, vai continuar lendo Gilberto Freyre. Aprenderá com ele algo do que fomos ou do que ainda somos em parte. Mas não o que queremos ser no futuro. Isso não quer dizer que as novas gerações deixarão de ler "Casa-Grande & Senzala". Nem que, ao lê-lo, deixarão de enriquecer seu conhecimento do Brasil. É difícil prever como serão reapreciados no futuro os aspectos da obra de Gilberto Freyre a que me referi criticamente. Mas não é difícil insistir no que de realmente novo -além do painel inspirador de "Casa-Grande & Senzala" como um todo- veio para ficar. De alguma forma Gilberto Freyre nos faz fazer as pazes com o que somos. Valorizou o negro. Chamou atenção para a região. Reinterpretou a raça pela cultura e até pelo meio físico. Mostrou, com mais força do que todos, que a mestiçagem, o hibridismo e mesmo (mistificação à parte) a plasticidade cultural da convivência entre contrários não são apenas uma característica, mas uma vantagem do Brasil. E acaso não é essa a carta de entrada do Brasil em um mundo globalizado no qual, em vez da homogeneidade, do tudo igual, o que mais conta é a diferença, que não impede a integração nem se dissolve nela? Fernando Henrique Cardoso é sociólogo e professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. É autor de, entre outros, "Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional" (ed. Civilização Brasileira). Foi presidente do Brasil de 1995 a 2002. (© Mais/Folha de S. Paulo)
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