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O outro poeta de Pernambuco para o Brasil

04/10/2003

Cunha Melo publica ‘Dois Caminhos e Uma Oração’, pela Girafa

 

Admirado pelos críticos, Alberto da Cunha Melo ganha projeção nacional

JOSÉ NÊUMANNE

  O lançamento, nesta semana, do livro Dois Caminhos e Uma Oração (352 págs., R$ 34) no Recife, representa, ao mesmo tempo, uma revelação e um resgate. Seu autor, o sociólogo e jornalista pernambucano Alberto da Cunha Melo, deixa de ser, aos 62 anos, uma espécie de devoção secreta de colegas que o respeitam como um dos maiores poetas da língua portuguesa em qualquer lugar ou época, porque tiveram acesso a edições semiclandestinas saídas a lume apenas às margens dos Rios Capibaribe e Beberibe, para ser, enfim, editado no eixo Rio-São Paulo, por iniciativa de A Girafa Editora.

   Cunha Melo é da geração de 65, revelada por César Leal e à qual pertence Marcus Accioly. Mas o padrão pelo qual se pode medir a importância de sua obra poética está alguns furos acima de seus contemporâneos, por mais respeitados que eles merecidamente o sejam. Idéia dessa medida pode ser dada pelo entusiasmo com que o poeta Bruno Tolentino o selecionou em entrevista dada nas páginas amarelas da revista Veja, como um dos raros poetas de indiscutível qualidade na poesia brasileira contemporânea. Ou pelo acadêmico Ivan Junqueira, que vislumbrou em Meditação sob os Lajedos, um brilho, mais que raro, único entre os dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura a ser concedido ao melhor livro de 2003. Esse brilho foi percebido por jurados de várias tendências que escolheram os finalistas - do crítico Fábio Lucas, o primeiro a falar de sua obra no Sudeste, ao poeta Anderson Braga Horta que, residente em Brasília, é atento garimpeiro da literatura provinciana brasileira; de Deonísio da Silva, o autor de A Vida Íntima das Palavras, que, em São Carlos, recebeu pelo correio o exemplar da obra rara, a Alcir Pécora, o respeitado especialista em Vieira, que, após ler os poemas da coletânea na internet, em Campinas, a selecionou para ser premiada.

   Esses especialistas concordam (na certa e com correção) com o professor Alfredo Bosi, da USP, que escreveu sobre Yacala, poema-livro lançado em edição artesanal impressa em Olinda para 200 amigos: "O Nordeste nos dá mais uma vez, depois do paraibano Augusto dos Anjos (presente de modo subliminar na atmosfera de várias passagens de Yacala), do alagoano Jorge de Lima e dos pernambucanos Carlos Pena Filho e João Cabral, a sua lição de dor que se faz beleza, e arranca de si forças para construir uma poesia como a de Alberto da Cunha Melo, cujo nome secreto é - resistência."

   Dor, beleza, força e resistência são as senhas para a leitura da poesia densa, sofrida, vivida e parida nos dois volumes citados, aos quais foi acrescentado um terceiro, Oração pelo Poema, para completar o tríduo encaixado no volume que acaba de ser lançado no resto do Brasil, graças, sobretudo, à maneira militante com que Bruno Tolentino, um maledicente temido das letras brasileiras, batalhou pelo atrasado, embora não tardio, reconhecimento do engenho do poeta maior e ao passado de monge beneditino do editor responsável pelo feito. Este, o carioca radicado na Paulicéia Pedro Paulo de Sena Madureira, o conheceu em sua passagem pelo mosteiro de São Bento em Salvador pelas mãos de um mestre afeito às letras, Dom Timóteo Amoroso Anastácio. E, ao preparar os originais de Dois Caminhos e Uma Oração, Madureira viu-se definitivamente arrebatado pela pungência dolorida de versos como "pelo temor da eternidade, / perguntaste a teu confessor / por que a resistência sempre fora / desperdício de tanta dor" ou pela cadência de uma estrofe como "Para os mais velhos, as escadas / vão ganhando novos batentes; / as estradas, novos quilômetros; / as lembranças novos ausentes". Isso seduziu o editor que lançara Adélia Prado, por recomendação de Drummond, a ponto de fazê-lo exclamar ao fim da leitura dos originais: "Céus, um poeta à altura de João Cabral!" Tal observação, diga-se, não soaria estranha ao outro pernambucano que lhe serviu de parâmetro.

   O volume faz, enfim, justiça a um poeta de 12 livros, com poemas em 23 antologias, que confessou: "Conheço minha letra, escrevo / para mim, escrevo à vontade." Para gáudio de todo leitor exigente e de bom gosto.

(© O Estado de S. Paulo)

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