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Vigor de uma obra aos 70 anos

14/10/2003

Gilberto Freyre

 

Casa Grande & Senzala, obra mais popular e controversa do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, tem lançamento de edição comemorativa

CAROL ALMEIDA

   Clássicos da literatura costumam ser assim ‘batizados’ quando a idade da obra é diretamente proporcional aos valores atrelados a ela ao longo do tempo. Ou, nas palavras do escritor italiano Italo Calvino, “um livro clássico é aquele que nunca termina aquilo que ele tem a dizer”. A se tomar por esses valores de perenidade, Casa-Grande & Senzala, obra mais popular e controversa do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, é certamente o maior clássico da história da vida privada brasileira. Prova disso está no lançamento de mais uma edição do livro, pela Global Editora, comemorativa aos 70 anos desde sua primeira publicação, em 1933.

   Naquela época, a comunidade intelectual brasileira se exercitou de sutis hipérboles para dimensionar a importância da obra que Freyre acabara de publicar. O ativista político e escritor baiano Jorge Amado chegou a declarar, mais tarde, que “quem não viveu aquele tempo não pode realmente imaginar a beleza de Casa-Grande & Senzala”. De fato, a repercussão de um relançamento 70 anos depois é diferente daquela 1ª edição. Porém, a se tomar pelos nomes daqueles que, aos poucos, adicionam uma obra paralela ao livro em extensos prefácios, as novas edições estão longe de ser menos fascinantes e provocadoras.

   A assinatura mais recente acrescentada a esse tomo introdutório é a do ex-presidente da República, o também sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Em seu texto, FHC destaca a relevância literária da prosa de Freyre. “(O livro) é tão bem escrito, tão embalado na atmosfera oleosa, morna, da descrição freqüentemente idílica que o autor faz para caracterizar o Brasil patriarcal, que leva o leitor no embalo.”

   Porém, a maior contribuição de Fernando Henrique para esta edição está no fato dele perceber o valor revolucionário do livro, apesar do mesmo ser tão criticado por “suas confusões entre raça e cultura, seu ecletismo metodológico, o quase embuste do mito da democracia racial, a ausência de conflitos entre as classes ou mesmo a ‘ideologia da cultura brasileira’”. FHC acredita que é pelas idéias, e não ideais, que vive a preciosidade de Casa-Grande & Senzala. “Mais a rotina do que o grande gesto”, resume Fernando Henrique.

   Com isso, o sociólogo quis dizer que, apesar de ser um livro de poucos consensos, a obra maior de Gilberto Freyre é, reconhecidamente, um jóia rara da sociologia da vida privada. E que aquilo que faz do autor alvo de críticas – a ausência do rigor científico – é exatamente o mesmo motivo pelo qual ele é tão comentado e discutido pelos cientistas de hoje. É pelo teor interpretativo, baseado naturalmente em muitas pesquisas e leituras feitas por Freyre, que sua obra é destacada entre as demais conclusões sociológicas e etnológicas do Brasil miscigenado.

   Naturalmente, como se trata de uma edição comemorativa, o Casa-Grande & Senzala da Global chega ainda mais volumoso às livrarias. Além de uma cronologia biográfica feita pelo pesquisador Edson Nery da Fonseca, especialista em Freyre, o livro traz um caderno de imagens, com fotografias e pinturas, sendo a maior parte delas cedidas pela Fundação Gilberto Freyre.

   As notas e índices foram atualizados e referências a autores que não eram nominados em edições anteriores agora aparecem. Esse último trabalho foi desenvolvido pelo pesquisador paulista Gustavo Henrique Tuna, que tem uma tese de mestrado sobre a interpretação que Gilberto Freyre fazia a partir de textos de viajantes estrangeiros.

   BIOGRAFIA – Os autores ainda não podem confirmar o nome da editora, mas é fato que o primeiro dos três volumes sobre a vida do sociólogo e historiador pernambucano Gilberto Freyre já está pronto, e deve chegar às livrarias em 2004. O megaprojeto biográfico está sendo desenvolvido, curiosamente, por dois cientistas que estão fora do grupo social tratado por Freyre, ou seja, eles não são brasileiros. Guillermo Giucci e Enrique Rodríguez Larreta são os dois professores uruguaios que pretendem lançar, a partir do próximo ano, uma série de três edições sobre a vida do sociólogo.

   Gilberto Freyre, Uma Biografia Cultural é o nome do livro que, segundo Giucci, irá “fazer uma reconstituição de amigos, faculdades, experiências no exterior e trajetória intelectual no Brasil” do pernambucano. Depois de terem editado a única edição crítica de Casa-Grande & Senzala, publicada pela coleção Arquivos da Unesco, porém ainda inédita no Brasil, os uruguaios decidiram investir numa pesquisa que, apesar de toda a relevância freyriana, ainda não foi feita com os moldes de biografia. Escrito em espanhol e traduzido para o português, os três volumes tiveram o apoio e colaboração da família do sociólogo no Recife.

(© Jornal do Commercio-PE)

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