Casa Grande & Senzala, obra mais popular e controversa do
sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, tem lançamento de edição
comemorativa
CAROL ALMEIDA
Clássicos da literatura costumam
ser assim ‘batizados’ quando a idade da obra é diretamente proporcional aos
valores atrelados a ela ao longo do tempo. Ou, nas palavras do escritor
italiano Italo Calvino, “um livro clássico é aquele que nunca termina aquilo
que ele tem a dizer”. A se tomar por esses valores de perenidade,
Casa-Grande & Senzala, obra mais popular e controversa do sociólogo
pernambucano Gilberto Freyre, é certamente o maior clássico da história da
vida privada brasileira. Prova disso está no lançamento de mais uma edição
do livro, pela Global Editora, comemorativa aos 70 anos desde sua primeira
publicação, em 1933.
Naquela época, a comunidade
intelectual brasileira se exercitou de sutis hipérboles para dimensionar a
importância da obra que Freyre acabara de publicar. O ativista político e
escritor baiano Jorge Amado chegou a declarar, mais tarde, que “quem não
viveu aquele tempo não pode realmente imaginar a beleza de Casa-Grande &
Senzala”. De fato, a repercussão de um relançamento 70 anos depois é
diferente daquela 1ª edição. Porém, a se tomar pelos nomes daqueles que, aos
poucos, adicionam uma obra paralela ao livro em extensos prefácios, as novas
edições estão longe de ser menos fascinantes e provocadoras.
A assinatura mais recente
acrescentada a esse tomo introdutório é a do ex-presidente da República, o
também sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Em seu texto, FHC destaca a
relevância literária da prosa de Freyre. “(O livro) é tão bem escrito, tão
embalado na atmosfera oleosa, morna, da descrição freqüentemente idílica que
o autor faz para caracterizar o Brasil patriarcal, que leva o leitor no
embalo.”
Porém, a maior contribuição de
Fernando Henrique para esta edição está no fato dele perceber o valor
revolucionário do livro, apesar do mesmo ser tão criticado por “suas
confusões entre raça e cultura, seu ecletismo metodológico, o quase embuste
do mito da democracia racial, a ausência de conflitos entre as classes ou
mesmo a ‘ideologia da cultura brasileira’”. FHC acredita que é pelas idéias,
e não ideais, que vive a preciosidade de Casa-Grande & Senzala. “Mais a
rotina do que o grande gesto”, resume Fernando Henrique.
Com isso, o sociólogo quis dizer que,
apesar de ser um livro de poucos consensos, a obra maior de Gilberto Freyre
é, reconhecidamente, um jóia rara da sociologia da vida privada. E que
aquilo que faz do autor alvo de críticas – a ausência do rigor científico –
é exatamente o mesmo motivo pelo qual ele é tão comentado e discutido pelos
cientistas de hoje. É pelo teor interpretativo, baseado naturalmente em
muitas pesquisas e leituras feitas por Freyre, que sua obra é destacada
entre as demais conclusões sociológicas e etnológicas do Brasil miscigenado.
Naturalmente, como se trata de uma
edição comemorativa, o Casa-Grande & Senzala da Global chega ainda mais
volumoso às livrarias. Além de uma cronologia biográfica feita pelo
pesquisador Edson Nery da Fonseca, especialista em Freyre, o livro traz um
caderno de imagens, com fotografias e pinturas, sendo a maior parte delas
cedidas pela Fundação Gilberto Freyre.
As notas e índices foram atualizados
e referências a autores que não eram nominados em edições anteriores agora
aparecem. Esse último trabalho foi desenvolvido pelo pesquisador paulista
Gustavo Henrique Tuna, que tem uma tese de mestrado sobre a interpretação
que Gilberto Freyre fazia a partir de textos de viajantes estrangeiros.
BIOGRAFIA – Os autores ainda não
podem confirmar o nome da editora, mas é fato que o primeiro dos três
volumes sobre a vida do sociólogo e historiador pernambucano Gilberto Freyre
já está pronto, e deve chegar às livrarias em 2004. O megaprojeto biográfico
está sendo desenvolvido, curiosamente, por dois cientistas que estão fora do
grupo social tratado por Freyre, ou seja, eles não são brasileiros.
Guillermo Giucci e Enrique Rodríguez Larreta são os dois professores
uruguaios que pretendem lançar, a partir do próximo ano, uma série de três
edições sobre a vida do sociólogo.
Gilberto Freyre, Uma Biografia
Cultural é o nome do livro que, segundo Giucci, irá “fazer uma
reconstituição de amigos, faculdades, experiências no exterior e trajetória
intelectual no Brasil” do pernambucano. Depois de terem editado a única
edição crítica de Casa-Grande & Senzala, publicada pela coleção Arquivos da
Unesco, porém ainda inédita no Brasil, os uruguaios decidiram investir numa
pesquisa que, apesar de toda a relevância freyriana, ainda não foi feita com
os moldes de biografia. Escrito em espanhol e traduzido para o português, os
três volumes tiveram o apoio e colaboração da família do sociólogo no
Recife.