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14/10/2003
XICO SÁ
crítico da Folha
Aldeota é um bairro metido a besta de
Fortaleza. Já foi de gente muito mais rica, barões do algodão, bancos,
indústria nascente sob a grife JK e colunistas sociais bajuladores que
tomavam uísque contrabandeado nas torneiras douradas dos palacetes. A sua
formação, nos anos 60, deu-se à custa de fraudes fiscais, isenções
politiqueiras e trambique aos balaios, como quase todas as aldeias metidas a
chiques do velho e do novo-riquismo do Brasil. Seja do norte, seja do sul.
Daí é que o jornalista e escritor
cearense Jáder de Carvalho (1901-1985) apanha o título e desfecho do seu
romance-reportagem. Lançado originalmente em 1963, pela editora paulista
Livraria Exposição de Livros, o volume volta agora pela EDR (Edições
Demócrito Rocha), do Ceará. Nada envelheceu no texto e muito menos no
pesadelo do personagem principal. Ele sonhava que os sem-teto de então
quebravam toda a sua louça importada, entre outros delírios proféticos.
Francisco das Chagas Oliveira, o
Chicó, andarilho que vira um burguês de muito luxo e sono pouco não por
culpa, mas por desassossego de classe, é um personagem e tanto. Não tem a
obviedade esquemática do pobre cordial ou esperto, como propaga a maioria
dos recentes filmes brasileiros. De "lascado", como os nordestinos tratam o
lúmpen, passa a escroque-mor, com a ajuda de uma máquina cujo azeite podre
faz rodar as catracas da esculhambação.
Carvalho dizia escrever "literatura
punitiva". O livro voltou com mais atualidade ainda, sem deixar de ser
literatura e/ou jornalismo literário, para usar termo em voga. Chicó tem seu
pendor de picaresco, como o personagem homônimo de Ariano Suassuna em "O
Auto da Compadecida" --este tirado de cordel clássico do Nordeste--, mas o
que dá tinta trágica em "Aldeota" é a metamorfose daquele miserável em um
"grandíssimo filho-da-puta", fraudador, ladrão do cobre público. O romance
até ensaia piedade, mas deságua na tragédia burguesa.
Romance de estrada, típica narrativa
dos nômades do Ceará, Chicó, enquanto pobre, anda mais do que má notícia.
Numa dessas, chega a Juazeiro, no momento da construção do mito do padre
Cícero. Ali conhece-se Floro Bartolomeu, médico baiano, espécie de Golbery
do Couto e Silva do "meu padim", deputado e braço das alianças do "santo
nordestino" com os coronéis.
"Aldeota" faz parte da coleção
Clássicos Cearenses, idealizada pelo jornalista Lira Neto, ex-editor da EDR
e responsável por uma sacudida no mundo gráfico da região nos últimos anos.
O romance é trágico, aperreado, mas com direito a muitas risadas. Não
propriamente pelo humor, mas por um estado de espírito que os nordestinos
chamamos de "fuleiragem", maneira quase nietzschiana de não se levar a sério
nem no mais solene dos momentos.
Aldeota
Autor: Jáder de Carvalho
Lançamento: EDR (edrcomercial@fdr.com.br)
Quanto: R$ 35 (426 págs.)
(© Folha de S. Paulo)
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(arquivo NordesteWeb)
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