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25/10/2003
Primeiro romance escrito por Ariano Suassuna é adaptado pelo diretor Carlos Carvalho em montagem que estréia hoje no Teatro Armazém JANAÍNA LIMA Prestes a completar 80 anos de idade, no ano que vem, o escritor paraibano Ariano Suassuna vê mais uma obra escrita por ele ser transformada em espetáculo teatral. Trata-se de A História do Amor de Fernando e Isaura, primeiro romance do autor, que será encenado a partir de hoje no Teatro Armazém. A versão teatral foi batizada simplesmente de Fernando e Isaura e cumprirá temporada aos sábados, às 21h, e domingos, 20h, até dezembro. A estréia é reservada apenas a convidados. O projeto de adaptar o texto para o teatro é do diretor pernambucano Carlos Carvalho, que já foi bem-sucedido ao fazer o mesmo com o conto O Traidor, de Hermilo Borba Filho (que originou o espetáculo Zumba) e com o conto O Duelo, de Guimarães Rosa (transformado na peça Duelo). Para Carvalho, a grande diferença dessa vez é que o autor está vivo e dialogou com ele durante o processo. “Isso foi muito bom, porque trocamos muitas informações. Pude explicar a ele detalhes da encenação. Ariano foi ótimo desde o princípio, recebeu muito bem a idéia, me deixou tranqüilo”, explica o diretor. “No dia em que entreguei a ele o texto final era umas quatro da tarde, no outro dia, às oito da manhã, ele já me ligou dizendo que tinha gostado muito”, completa. Carlos Carvalho afirma que a tarefa não foi tão difícil. “Preservei quase todos os diálogos do romance. A principal tarefa foi mesmo trazer a história para o universo teatral”, explica Carlos Carvalho, que, para fazer esse deslocamento, percorreu outras obras do escritor. “É uma homenagem a ele. Tive que acrescentar outros personagens à história, então busquei em peças do próprio Ariano, como Torturas de um Coração e A Caseira e a Catirina”, revela. O diretor experimentou também na hora de conceber a encenação e fugiu do padrão da tragédia clássica inserindo na obra um toque de comédia. “Busquei um diálogo entre a comédia e a tragédia. Ariano diz que todo homem traz dentro de si o universo do rei e o universo do palhaço. Tentei unir esses dois lados na peça, que ganhou um ar circense”, conta. Para garantir esse toque de leveza ao espetáculo, o diretor apostou no palco limpo. Apenas um banco compõe o cenário. Cabe aos adereços, atores e recursos de iluminação ambientar as quase duas horas de peça (divididas em dois atos). A encenação conta com números de dança, especialmente o guerreiro, folguedo típico de Alagoas, e trilha sonora executada ao vivo pelo Sa Grama (ver matéria ao lado). PRODUÇÃO – Fernando e Isaura é o segundo texto da trilogia sobre o amor proposta por Carlos Carvalho e a produtora Paula de Renor, que também vive a protagonista. O primeiro foi Abelardo e Heloísa, montagem que marcou época no Recife, nos anos 90. “Pensamos em montar três histórias de amor, universais, em diferentes épocas”, explica Paula de Renor, que também viveu a heroína de Abelardo e Heloísa. “Tive que ter muito cuidado agora, porque Heloísa foi uma personagem marcante e Isaura tem muita coisa em comum com ela. Ambas são cultas e os homens têm medo delas”, comenta a produtora. Fernando e Isaura foi beneficiado pelo SIC Municipal de 2001, com patrocínio da Empresa Metropolitana. A montagem está orçada em R$ 50 mil e marca os 20 anos de atividades da Remo Produções. “Não badalamos muito isso, mas para uma produtora de teatro, que é uma arte tão difícil de se produzir, é um marco”, comemora Paula de Renor, que nesse tempo, colocou em cartaz sete montagens. (© Jornal do Commercio-PE) Sa Grama executa trilha sonora ao vivo pela segunda vez MARCOS TOLEDO Reconhecido nacionalmente pela autoria da música da minissérie de TV que virou filme O Auto da Compadecida, o Sa Grama assina sua quarta trilha sonora e, pela segunda vez, executa os temas ao vivo numa peça teatral em Fernando & Isaura. O grupo, que realiza um trabalho de música popular nordestina com arranjos eruditos, foi também responsável pelas trilhas da série de documentários Brasil-Império e do espetáculo A Ver Estrelas, de João Falcão, sua primeira experiência com execução ao vivo numa peça de teatro. O maestro, flautista, compositor e arranjador Sérgio Campelo lembra que o convite para Fernando & Isaura partiu do diretor Carlos Carvalho e da produtora e atriz Paula de Renor, em 2002. Inicialmente, para elaborar e gravar a música. “No decorrer do processo, chegamos à conclusão de que, além de fazer a trilha, nós a tocaríamos ao vivo”, afirma Sérgio. Desta vez, contudo, o trabalho tem uma identificação maior com o Sa Grama. “A Ver Estrelas era uma peça mais urbana”, explica o flautista. Em comparação com O Auto, Sérgio avisa que o público pode esperar uma música mais dramática. “Também tem um lado circense. Os elementos rítmicos que buscamos são os folguedos alagoanos, principalmente o guerreiro e o coco-de-roda”, ressalta. Ainda não foi definido se a trilha de Fernando & Isaura será lançada em disco. (© Jornal do Commercio-PE) A tragédia A História do Amor de Fernando e Isaura foi criada a partir da lenda de Tristão e Isolda, que narra o amor de um jovem e uma moça, prometida ao tio do rapaz. Na versão de Ariano Suassuna, a tragédia se passa em Alagoas, nas cidades de Penedo, Piranhas, Piassabussu (seguindo a escrita original de Ariano) e Barra de São Miguel – a região foi visitada pelo elenco antes dos ensaios. Fernando é vaqueiro, órfão e pobre, criado pelo tio Marcos, viúvo velho, dono da maior fazenda da região. Isaura é uma mulher culta, moça bonita, já passando da idade de casar. O encontro dos jovens ocorre quando Fernando, transportando mercadorias para o tio é ferido e salvo pela família de Isaura. A donzela cuida do rapaz e cai de amores por ele. Só que o jovem se restabelece e volta para a fazenda, sem saber de nada. Tempos depois, Marcos visita a cidade de Isaura e apaixona-se pela mulher, que é obrigada pela família a casar-se. Antes disso, no entanto, os jovens encontram-se novamente descobrem que foram feitos um para o outro. Está dada a receita da tragédia.
(© Jornal do Commercio-PE)
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