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Terras e conflitos à vista

25/10/2003

 

"Coronel, Coronéis" e "Entre Deus e a Vasilha", escritos respectivamente nos anos 60 e 80, discutem a questão agrária no interior do Nordeste e de São Paulo

Marco Antonio Villa
especial para a Folha

   A primeira edição de "Coronel, Coronéis" é de 1965. A pesquisa foi realizada em 1963, em Pernambuco, por Marcos Vinicios Vilaça e Roberto Cavalcanti de Albuquerque, numa época de grande tensão política. Estudaram as áreas de influência e a atuação política de quatro coronéis, dois do agreste (Chico Heráclito e José Abílio) e dois do sertão (Chico Romão e Veremundo Soares). Os quatro coronéis notabilizaram-se quando ainda não estava presente plenamente o Estado no sertão. Durante anos foram a maior autoridade nas suas cidades, exercendo o poder de fato: designando delegados, juízes, resolvendo pendências familiares e ampliando seus negócios.

   O livro teve edições em espanhol, francês, italiano e inglês, o que revela sua importância e originalidade, pois não é comum no Brasil este tipo de estudo, diferentemente do que encontramos, por exemplo, no México. A quarta edição revista e ampliada foi acrescida de um prefácio otimista de Alberto da Costa e Silva, presidente da Academia Brasileira de Letras, que considerou o relato "páginas de história" e que o livro (em 1965) "apontava para o declínio dos coronéis sertanejos". O próprio presidente da ABL poderá constatar que os coronéis, infelizmente, acabaram permanecendo sob novas vestes, até com o fardão da ABL.

   Na introdução acrescida a esta edição, o leitor poderá ficar frustrado, pois, em vez de um balanço desses 40 anos, entre a realização da pesquisa e os dias atuais, os autores optaram por um discutível painel histórico, pobre em referências.

   Teriam, certamente, de tratar dos "novos coronéis", que substituíram os toscos antecessores do sertão: os donos de canais de televisão, emissoras de rádio e jornais. Seria mexer em um vespeiro, pois os coronéis da modernidade têm muito mais poder que os analisados no livro, que restringiam sua influência ao município em que moravam: em um país marcado pela "ideologia do favor", como já disse Roberto Schwarz, é melhor deixar de lado qualquer balanço crítico. Mas o que causa profunda estranheza nesta introdução é o momento em que os autores vão finalmente tratar do contemporâneo. É de imaginar que ficaram embaraçados, daí as frases desconexas.

Questão de mentalidade

   Por exemplo: "A mentalidade do homem do interior do Nordeste está mudando. Mas, na ausência de um projeto educativo mais amplo e eficaz, essa transformação vem sendo lenta, desconexa, psicossocialmente desestabilizadora. E só excepcionalmente tem alcançado o umbral a partir de que começam a alterar-se organicamente, pela racionalização institucionalizada, as resistentes rotinas do trabalho e da vida de cada dia".

   Já "Entre Deus e a Vasilha", de Antonio Callado, traz o foco do campo para o Estado de São Paulo. O livro é originalmente um ensaio produzido em 1984, a pedido da Cesp (Companhia Energética de São Paulo), por recomendação do então governador Franco Montoro, que pretendia iniciar a reforma agrária no Pontal do Paranapanema com a criação de assentamentos, priorizando os camponeses desapropriados pelas construções de usinas hidrelétricas na região.

   É uma reportagem que está longe de ter o vigor da série publicada no "Correio da Manhã", em 1959 -"Os Industriais da Seca e os "Galileus" de Pernambuco"- e editada, no ano seguinte, pela Civilização Brasileira. Se as reportagens de 1959 causaram enorme repercussão, debates no Congresso Nacional e ameaças de indiciar o autor na Lei de Segurança Nacional, o ensaio produzido para a Cesp acabou caindo no esquecimento e somente agora foi publicado.

   Quando Callado tratou da exploração dos nordestinos e da superexploração dos grandes proprietários de terra da região, a polêmica acabou abrindo caminho para a aprovação do projeto de criação da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), em dezembro de 1959, pelo Congresso Nacional, proposta por Juscelino Kubitschek.

   Um quarto de século depois, os tempos eram outros: as reportagens sobre o Pontal do Paranapanema foram ignoradas, como se tratassem de algum outro país, e não de terras griladas no Estado mais rico da federação. E pior: em 2003, 20 anos depois, nada mudou, o país não fica mais chocado com a violência e o assassinato cotidiano de camponeses. Por ora, relembrando "Os Lusíadas", "o vento dorme, o mar e as ondas jazem".

   Os dois livros têm méritos e permitem ao leitor relembrar dois velhos problemas -o coronelismo e a reforma agrária- e sua permanência. Callado lembra que existe no Brasil "um truque epistemológico que consiste no seguinte: problemas antigos e que continuam sem solução são dados como resolvidos. Ou passam à categoria de problemas chatos, obsoletos". Na verdade, coronelismo e reforma agrária fazem parte de uma mesma questão, a necessidade imperiosa (e sempre adiada) de democratizar o Estado e a sociedade brasileiros.

Marco Antonio Villa é professor de história na Universidade Federal de São Carlos (SP) e organizador de "Canudos, História em Versos" (Imprensa Oficial de SP/Edufscar/ed. Hedra).

Coronel, Coronéis
206 págs., R$ 29,00
de Marcos Vinicios Vilaça e Roberto Cavalcanti de Albuquerque. Ed. Bertrand Brasil (r. Argentina, 171, 1º andar, CEP 20921-380, RJ, tel. 0/xx/11/ 2585-2070).

Entre Deus e a Vasilha
96 págs., R$ 19,00
de Antonio Callado. Nova Fronteira (r. Bambina, 25, CEP 22251-050, RJ, tel. 0/xx/ 21/ 2537-8770).

Folha de S. Paulo)

Retrato preciso de um fenômeno histórico


Reedição atualizada do clássico texto Coronel, Coronéis, sobre o coronelismo no Nordeste, revela-se leitura indispensável

Homero Fonseca

   Os “coronéis” nordestinos são figuras mitológicas. E, como mitos, cuja construção foge à instância da racionalidade, pouco compreendidos fora dos meios acadêmicos. Conhece-se deles apenas a caricatura. Alguns textos clássicos lançam luz sobre esse fenômeno sócio-cultural-político. Um deles é Coronelismo, enxada e voto, de Victor Nunes Leal, lançado em 1949. Outro é Coronel, Coronéis, de Roberto Cavalcanti de Albuquerque e Marcos Vinicios Vilaça, publicado pela primeira vez em 1965, a partir de pesquisa interdisciplinar (utilizando ferramentas da Sociologia, da História, da Antropologia, do Jornalismo). Este último, que teve reedições em 1978 e 1988, além de edições em inglês, espanhol, italiano e francês, volta às livrarias este mês, após lançamento nacional na Academia Brasileira de Letras, dia 4.

   Coronel, Coronéis é obra relevante para a compreensão de uma parte da nossa História e da nossa mentalidade. Analisa o processo de ruptura da sociedade agropastoril sertaneja a partir de fins dos anos 50 e, conseqüentemente, as transformações por que passou o fenômeno do coronelismo (espécie de mandonismo político, econômico, social e familiar, fundado sobre a propriedade da terra). Flagra um momento riquíssimo e paradoxal, de apogeu e declínio ao mesmo tempo. Insere-se, o trabalho de Roberto Cavalcanti e Marcos Vilaça, na corrente dos estudos interdisciplinares sobre as complexas transformações das sociedades tradicionais atingidas por forças externas impulsionadoras de certas formas de modernização. Também traça um retrato vívido de quatro dos últimos remanescentes dos velhos coronéis de Pernambuco: Chico Romão, Zé Abílio, Chico Heráclio e Veremundo Soares. E aponta os fatores econômicos e sociais que, a partir da lenta modernização da sociedade brasileira e nordestina, em especial, criaram as condições para o fim do coronelismo nos moldes tradicionais.

   Curiosamente, como detectaram os autores, ao tentarem se apropriar das mudanças – em curso e inevitáveis – foram os próprios mandachuvas que cavaram suas sepulturas.

   A nova edição sofreu consideráveis modificações em sua estrutura e atualiza a análise, apontando o que chama de revivescências do coronelismo, tanto na zona rural sertaneja onde, apesar da chegada do progresso material e mudanças políticas, as mentalidades de segmentos da população continuam incorporando valores tradicionais em face da incompleta e excludente modernização, quanto nas periferias dos grandes centros urbanos onde o migrante pobre nordestino cai nas malhas de um tipo diferente mas assemelhado de poder local: o do crime organizado. É, pois, leitura indispensável.

Homero Fonseca é editor executivo da Revista Continente
homerofonseca@continentemulticultural.com.br


Coronel, Coronéis - Marcos Vinicios Vilaça e Roberto Cavalcanti de Albuquerque, Editora Bertrand Brasil, 214 páginas.

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