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Gadêlha busca o povo com arte

25/10/2003

 

O artista plástico Flávio Gadêlha realiza uma pequena retrospectiva na Assembléia Legislativa

por MARCOS TOLEDO

   O artista plástico Flávio Gadêlha é dono de uma obra madura, versátil e repleta de poesia. Aos 46 anos, aproveita um convite da Assembléia Legislativa do Estado para revisitar a própria carreira na exposição Ontem e Hoje, no Salão Nobre do Palácio Joaquim Nabuco.

   Talento precoce, Flávio Gadêlha começou a carreira aos nove anos de idade, quando ganhou um concurso de desenho promovido pelo Jornal do Commercio. Aos 16, estreou sua primeira individual e, no ano seguinte, tornou-se o mais jovem participante da Bienal Internacional de São Paulo.

   Com uma trajetória marcada por experiências artísticas bem-sucedidas no Brasil e no exterior ao longo de duas décadas, para o artista parecia não haver mais o que fazer a não ser dar continuidade a seu trabalho ricamente concretizado.

   Em 1993, no entanto, após uma individual na Fundação Cásper Líbero, em São Paulo, Gadêlha sofreu um sério problema de saúde e, durante sua recuperação, percebeu que seus últimos vinte anos de carreira haviam sido equivocados. “Eu vi que não pintava minha família”, diz, segurando um pouco a voz para conter a emoção. “Eu só procurava retratar o momento para não parecer retrógrado. Essa pancada bateu dentro de mim. Entrei dentro de mim para retratar meu mundo – a natureza, o Recife, a minha família”, depõe.

   O pintor-gravador-escultor-restaurador explica que o fato fez com que ele visse a vida sob uma ótica distinta. E não apenas em relação a sua família, ao mundo em que ele exercia influência direta. “O trabalho de artista não era o que eu estava fazendo”, considera. “A minha missão como artista era servir ao outro.”

   Foi então, segundo Gadêlha, que surgiu nele a necessidade de alargar seu público-alvo. O artista passou a privilegiar lugares de grande circulação pública para expor sua obra. Em 1999, levou sua Anotações de Viagem para a Dere Sul e Dere Norte (Secretaria de Educação), em 2000, fez a Homenagem 500 Anos do Brasil no Aeroporto Internacional dos Guararapes e, no ano seguinte, mostrou aspectos de sua arte na Biblioteca Pública do Estado e numa exposição montada no metrô, que ainda permanece lá sem nunca ter sido inaugurada.

   “Não sou contra galeria fechada, mas meu trabalho não estava sendo visto”, justifica. “Me sinto mais útil como artista quando minha obra é vista por público de todas as camadas sociais.”

   Gadêlha reconhece também que seu trabalho tem sofrido a influência desta nova dinâmica. “Tenho mudado meu trabalho. Não em função do público, para agradar. Mas tenho a missão de fazer uma obra inteligível, embora não queira com isso levar para o popular.”

   Seguindo essa tendência, o artista aceitou também o convite para expor na sede da Assembléia Legislativa. A mostra Ontem e Hoje faz um apanhado de diversas obras em diferentes fases da carreira com 27 quadros de óleo e acrílica sobre tela. “O espaço é pequeno, não dá para fazer uma retrospectiva. É uma mini”, define.

   As obras registram visões do artista sobre o arquipélago de Fernando de Noronha, pelo qual se revela apaixonado, sua inquietação após um contato mais próximo com a natureza, a influência de Gravatá (onde fica seu ateliê), a chamada ‘Fase do Tatu’, sua busca pelo passado no Recife, e seu apreço pelas paisagens da Região, especialmente as praias. O quadro O Rapto, selecionado para a bienal paulistana de 1974, também compõe a mostra, que fica em cartaz até o próximo dia 6.

Jornal do Commercio-PE)

Todos os caminhos levam à arte


Instituto Ricardo Brennand abriga mostra Caminhantes, com trabalhos de seis
artistas plásticos paulistas e dois pernambucanos

CAROL ALMEIDA

   Não se trata de publicidade, mas sim daquilo que hoje cria e movimenta o mercado de bebidas alcóolicas e de tantos outros produtos: associação de valores que, neste caso, são valores culturais. A bebida em questão é o Johnnie Walker, patrocinador da exposição Caminhantes, inaugurada no Instituto Ricardo Brennand para dar repercussão ao lançamento da nova garrafa do uísque Johnnie Walker Red Label. Assim como outras marcas, tais como a vodca Absolut, a intenção da empresa escocesa com essa mostra está longe de ser puramente (e sem gelo) uma campanha do tipo mala direta, para lançar um novo produto. O objetivo é, na verdade, desvincular a idéia de que a bebida é tão-somente uma marca, pois o que ela quer representar, de fato, é uma grife.

   E a grife aqui está sendo interpretada por oito artistas plásticos, seis paulistas e dois pernambucanos, cujos trabalhos foram selecionados pela curadora Teresa Berlinck de acordo com a conexão entre cada um e a idéia do “caminhar” evocado pelo slogan do uísque: “keep walking”.

   “O fato de uma marca apoiar um evento como esse rende sempre opiniões diversas. Já conversei com pessoas que acham que se trata somente de emprestar a arte a uma marca. Por outro lado, em um País como tão poucos recursos para as artes, com problemas em leis de incentivo, é importante, sim, que existam esses patrocinadores”, explica Berlinck.

   “Acredito que é uma maneira mais inteligente de associar um produto a um valor cultural e, claro, também uma maneira de fazer nosso trabalho circular por mais ambientes”, opina Marcelo Silveira, um dos pernambucanos que participa da exposição. “Desde que a intenção plástica seja legítima, não vejo problema em ter uma marca por trás”, acredita o paulista Carlos Nader.

   A exposição, que mistura esculturas, videoinstalação e arquitetura, é assinada, além de Silveira e Nader, pelos artistas Amélia Toledo (SP), Guto Lacaz (SP), Jeanete Musatti (SP), José Patrício (PE), Pazé (SP) e Joaquim Guedes (SP). Em comum, todos eles apresentam um trabalho que indica ora movimento, ora caminhos interiores, ora uma referência à própria história do uísque.

   Nesta trilha, encontra-se Jeanete Musatti, autora de um trabalho de pesquisa em torno da história do próprio Johnnie Walker. Caminhantes segue com as peças lúdicas de Amélia Toledo, com a maquete da Escola de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo, desenhada pelo arquiteto Joaquim Guedes, passa pela projeção de uma mulher que tem olhos fechados de longe e abertos de perto, do paulista Carlos Nader, e anda também até as caixas de acrílico transparente feitas Pazé, que materializam a idéia do trabalho humano como ato de transcendência.

   Os pernambucanos que participam da mostra já tiveram seus trabalhos exibidos em outras ocasiões. Marcelo Silveira expõe Combinação Tacaruna, apresentado pela primeira vez no fim do ano passado na Fábrica Tacaruna. Trata-se de uma malha trançada de tiras de couro de cabra que se abre e se fecha de acordo com o tamanho onde ela é colocada. Já José Patrício foi selecionado por sua peças mais famosas, os extensos tapetes de dominós.

   O designer paulista Guto Lacaz encerra a exposição com um trabalho inteiro feito justamente sobre o produto que está sendo lançado pelo uísque escocês, a nova embalagem de Johnnie Walker Red Label.

   Orçada em um R$ 1 milhão, a mostra Caminhantes será apresentada no Recife até o próximo dia 2 de novembro, quando segue para São Paulo, onde será exposta entre os dias 12 e 23 de novembro. “É extremamente importante para Johnnie Walker Red Label lançar sua nova garrafa mundial num evento qligado à cultura, que exibe o trabalho de grandes nomes brasileiros”, afirma Pedro Mendonça, gerente de marketing da Johnnie Walker.

Jornal do Commercio-PE)

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