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25/10/2003
Bandas e artistas pernambucanos caem na estrada para saciar a sede e a curiosidade do público, atendendo a convites que não recebem por aqui JOSÉ TELES Na edição de setembro da revista francesa Vibrations há uma matéria de cinco páginas sobre MPB: uma com os Tribalistas, e quatro dedicadas à música pernambucana. A abertura é uma foto, a página inteira, de uma roda de ciranda em Nazaré da Mata, no corpo da matéria são focalizados Silvério Pessoa, DJ Dolores e Tavares da Gaita. Não é um fato isolado. O interesse das publicações internacionais por Pernambuco existe desde a primeira turnê da Nação Zumbi em 1994. Os pernambucanos estão constantemente excursionando pelo exterior. Esta semana, por exemplo, Nação Zumbi, Otto, e DJ Dolores apresentam-se em Sevilha, na Womex, importante feira de world music. Em seguida, Nação Zumbi e DJ Dolores (que fizeram turnê européia em agosto), voltam à estrada. Dolores apresenta-se em Marselha, Londres, Paris, Nijmegen, Utrech (Holanda) e Lisboa. Nação Zumbi, toca em Paris e Londres, e volta ao Brasil para fazer o Tim Festival, no Rio. Por sua vez, Hanagorik, de Surubim, sem alarde, está na terceira turnê internacional. Tem várias datas agendadas na Áustria e Alemanha, país onde já se apresentou mais do que no Recife: “Talvez seja pelo fato de não morarmos na capitá, ou pelo estilo que tocamos, mas acho que se deve também a nunca termos procurado apoio lá, o que achávamos que viria com o tempo, e naturalmente, o que não aconteceu. Mas fazemos questão de levar a bandeira de Pernambuco nas mãos. Já tocamos uma versão metal de Vassourinhas diante do portão de Bradenburgo, em Berlim”, conta Tuca, o guitarrista da banda, via e-mail. Tuca acrescenta que, ao retornarem, eles vão finalmente fazer turnê pelo Sul, Sudeste e Centro-Oeste: “Em 2005, faremos novamente a Europa e, pelos contatos mantidos, com uma turnê mais bem-estruturada”. “A gente tem viajado muito e posso afirmar, sem medo de errar, o Recife é o maior pólo cultural do Brasil. Tem muita música de qualidade, mas não dá para viver na cidade. Primeiro porque não nos tocam nas rádios, então muitos pernambucanos não conhecem a banda. É por isso que preferem contratar um Skank, que leva 15 mil pessoas a um show, e não a gente que só levamos umas duas mil. Os produtores, programadores de rádio, não atentaram ainda para a música local”, lamenta-se o guitarrista Lúcio Maia, da Nação Zumbi. Na melhor fase dos quase 20 anos de carreira, a Mundo Livre S/A desfruta os dividendos do bem-acolhido CD O Outro Mundo de Manuela Rosário. Fez concorrido lançamento do disco no Rio e toca nove datas seguidas São Paulo, Goiás e Rio Grande do Sul : “A gente está com vários públicos, tanto o alternativo, quanto o mais mainstream, feito o do Skol Hip Rock”, conta Zeroquatro, da Mundo Livre S/A. Ele é um que não pensa em sair do Recife. Vale-se para isto de um conceito do manguebeat: ou mudar de lugar ou mudar o lugar. Zeroquatro prefere o segundo “Muita gente está tomando o sentido inverso, voltando para sua terra. Naná Vasconcelos voltou, e com toda uma estrutura montada lá fora. Não existia algo tão forte em Pernambuco desde os tempos da Rozenblit” compara Zeroquatro, atual Presidente do Conselho Municipal de Cultura. Rogerman, da Bonsucesso Samba Clube também não pretende emigrar: “Depois de dez anos, acho que é hora de o mercado consolidar-se. Quando o movimento começou contava-se nos dedos quem tinha condições de montar um show realmente profissional. Hoje temos material humano, equipamento, bons estúdios. O que precisamos é que as pessoas que trabalham com cultura, turismo, vendam o folclore, mas também o Pernambuco moderno, que existe mas é ignorado. Incentivar não é apenas colocar os artistas em palcos”, alfineta. A Bonsucesso Samba Clube teve seu último disco esgotado e está com várias datas em São Paulo e Rio. O mesmo acontece com a Eddie, que se encontra em São Paulo para lançar o CD Original Olinda Style. Faz ainda Campinas e apresenta-se, com a Comadre Florzinha, no Ballroom, no Rio: “As bandas pernambucanas formaram um mercado fora do Estado. Tem música da Eddie numa coletânea que saiu em Londres, o nosso CD está saindo em Portugal. A gente pretende fazer Europa, mas só depois que o disco for licenciado para lá. Infelizmente, os produtores que trabalham em Pernambucano ainda não enxergaram nossa geração. Há uma desinformação quase geral nas rádios, mas a gente não vai deixar de fazer por causa do desinteresse dessas pessoas. Temos o dever de continuar fazendo música”, diz Fábio Trummer. (© Jornal do Commercio-PE) Santos de casa que só fazem milagres em outras cidades Com uma tonelada de equipamento para transportar, Nação Zumbi não tem mais condições de ficar no Recife e por isso ganha o mundo. “Não é fácil viajar com este material todo, porém, independente disto, tenho mágoa do que rola por aí. O Recife é a capital do paradoxo, a gente vê pelo Brasil tudo quanto é neguinho copiando o que a gente criou,e isto não é valorizado na cidade”, diz o guitarrista Lúcio Maia. Para ele, a Nação Zumbi está em seu melhor momento desde o disco Afrocibederlia, de 1995: “Passamos seis anos montando um repertório, forjando um som. Hoje nem gosto de dizer que faço música pernambucana, prefiro falar em música brasileira, até porque isso regionaliza o trabalho da gente”. Um trabalho que já recebeu o aval de Caetano Veloso, que foi flagrado, recentemente, subindo num murinho do lotado Ballroom, para ver melhor o Nação Zumbi, que considera o melhor show de uma banda do País hoje. Quem pensa também em não ficar no Recife é Silvério Pessoa. Ele voltou no mês passado de uma temporada de três meses na Europa, e não sabe quando voltar aos palcos do Recife: “É constrangedor, você coloca cinco mil pessoas num show em Bruxelas, e não tem nada marcado em sua cidade. Hermano Vianna (irmão de Herbert, dos Paralamas do Sucesso) tentou me encaixar no Tim Festival, mas como não faço pop, nem hip hop, enfim, não atendo à sonoridade desses festivais fiquei fora. Forró é a minha opção, no Recife não se consegue pauta em teatro, e há poucos locais abertos para o gênero. A alternativa é apresentação com pagodeiros ou com bregas, o que não é o meu caso”, queixa-se Silvério, que retorna à Europa no ano que vem, para uma longa temporada de seis meses. (© Jornal do Commercio-PE) Articulação a favor da cena local A AMP vai lutar por mais espaço e melhores condições de trabalho e profissionalização JOSÉ TELES O manguebeat, ou a “nova”cena musical pernambucana, já existe há dez anos. É uma referência e influência no Brasil inteiro (e até no exterior). No entanto dentro do Estado, precisa livrar-se de obstáculos que vão de falta de técnicos ao interesse dos produtores de shows pelos artistas locais (que não sejam bregas). Se, no início dos anos 90, os mangueboys pretendiam desobstruir as veias enfartadas da cidade, os músicos atuais queixam-se dos “entraves que bloqueiam os gargalos”, pelos quais sua arte deveria fluir. Com tal fim foi criada Articulação Musical Pernambucana (AMP), uma entidade sem fins lucrativos, que tem, entre outros, os objetivos de: fazer o acompanhamento das políticas publicas culturais (no âmbito municipal, estadual e federal), divulgar os artistas pernambucanos junto aos produtores de outros estados. “A cena existe, tem força, mas localmente isto está revertendo pouco para os músicos”, diz Alex S, coordenador de projetos da AMP. “Como entidade civil organizada vamos poder buscar informação sobre como está sendo aplicada determinada verba”, diz Flávio Mamoha, o coordenador geral. A AMP será oficialmente apresentada à sociedade, dia 30, num coquetel, às 20 horas, no Teatro Maurício de Nassau. A entidade vai trabalhar em conjunto com o Pró-Criança: “A gente pretende tirar o caráter unicamente business da música, temos a obrigação de passar a experiência para os mais novos”, explica Rogerman, outro coordenador (de administração) da AMP. Os novos, no caso, são crianças carentes, as quais serão ministradas aulas de instrumentos, mas também treinadas para suprir a necessidade de pessoal técnico reclamada pelos músicos: “A cena formou bandas, mas é carente em técnico de iluminação, por exemplo”, acrescenta Sérgio Altenkirch, do movimento Pró-Criança. Ele ressalta que muitos garotos ensaiados por aquela entidade já trabalham profissionalmente em espetáculos musicais, teatrais, recebendo por isto. Entre as carências gerais, há as reclamações particulares como tratamento dispensado aos artistas locais diferenciado do que é dado aos artistas de outros Estados, muitas vezes com menor projeção nacional. Criticado também é o tratamento dispensado pela mídia (rádio e TV) à música pernambucana: “É absurdo que o Governo gaste tanto em publicidade e não exija um retorno. Por que não exigir que se veicule mais a nossa música, por exemplo, levando-se em conta o que os músicos já fizeram para divulgar o Estado?”, questiona Rogerman. Os coordenadores dizem que a AMP está aberta a qualquer músico interessado em participar da articulação, inclusive os de outras gerações: “Basta ter a vontade de buscar este caminho coletivo”, sintetiza Kleber Magrão, coordenador executivo da AMP. Presentes a reunião no Teatro Maurício de Nassau estavam alguns músicos, como Isaar França e Karina Buhr, da Comadre Florzinha e Ortinho, ex-Querosene Jacaré, que se revelou totalmente a favor da entidade: “Acho importante, principalmente por ser formada por artistas, que vivenciam problemas da música pernambucana”. (© Jornal do Commercio-PE)
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