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26/10/2003
A adaptação da obra do autor para o cinema é o principal tema do livro de ensaios de Ismail Xavier UBIRATAN BRASIL Ao longo da década passada, o professor e estudioso de cinema Ismail Xavier concentrou-se na produção de uma infinidade de ensaios e críticas sobre filmes de épocas diversas, nacionais e estrangeiros, incluída a produção recente. Foi um esforço medido, que o impossibilitou de se dedicar à escrita de um novo livro naquele período. "Ao analisar esses textos, porém, percebi uma certa organicidade em vários deles que me permitiu reuni-los em um único volume", disse ele, cuja seleção, com raras modificações, resultou no livro O Olhar e a Cena (Cosac & Naify, 384 páginas, R$ 55). O fio condutor são as formas de encenação teatral herdadas pelo cinema. Xavier, que é docente na Escola de Comunicações e Artes da USP, propõe a leitura de uma determinada cinematografia a partir de uma moldura que inclua o melodrama como gênero principal. Assim, ele discute a existência de uma geometria do olhar e da cena que não se iniciou com o cinema, mas nele encontrou um ponto de cristalização de enorme poder na composição do drama como experiência visual. Xavier destaca diversos exemplos, mas dois nomes se sobressaem: Alfred Hitchcock e Nelson Rodrigues. O diretor inglês desponta como a figura da ironia e da autoconsciência radical da representação e o dramaturgo brasileiro ocupa boa parte do livro, pois sua obra (especialmente as "tragédias cariocas") inspirou 20 filmes, entre 1952 e 1999, fato único no cinema brasileiro, criando uma íntima relação entre olhar, cena e sociedade. "É curioso notar que países com uma indústria cinematográfica forte têm também uma tradição no teatro", observa Xavier, buscando assim uma das explicações ao vasto terreno das adaptações da obra de Nelson Rodrigues para o cinema ao longo de quatro décadas. "Houve um perfeito diálogo por um motivo determinante: o teatro de Nelson situa-se em um ponto de intersecção, exibindo tanto elementos do melodrama popular e seus excessos como formas e temas do drama moderno", comenta. "Isso favoreceu um perfeito diálogo." Ao longo dos ensaios, Ismail Xavier analisa a forma como os textos do dramaturgo foram filtrados pelos cineastas. Tudo começa com a adaptação do romance-folhetim assinado por Suzana Flag, Meu Destino é Pecar, de 1952, dirigido pelo argentino Manuel Peluffo, um melodrama gótico que buscava aproximação com Hollywood. Novas adaptações surgiram entre 1962 e 1966, destacando-se dois filmes do Cinema Novo (Boca de Ouro, de Nelson Pereira dos Santos, e A Falecida, de Leon Hirszman), além da presença de Jece Valadão não apenas como ator mas também como co-produtor e roteirista. "Foi a década marcada pela liberação, traduzida em filmes como Os Cafajestes, em que se romperam tabus. Daí a relação não tão próxima do Nelson Rodrigues com o cinema." Mesmo assim, os dois representantes cinemanovistas destacam-se pela profundidade. Em Boca de Ouro, de 1962, Nelson Pereira se permite inserir o drama na visão neo-realista que já dominava seus filmes, expressa no arejamento que introduz com as cenas de rua. Já em A Falecida, de 1964, Leon Hirszman consegue, segundo Xavier, evitar a modulação tragicômica e optar de forma radical pelo sério-dramático, criando um belo dueto entre câmera e a atriz Fernanda Montenegro, cujo rosto é constantemente observado pela lente do diretor. A década de 1970 é marcada pelas adaptações de Arnaldo Jabor, como O Casamento e, principalmente, Toda Nudez Será Castigada. "Especialmente neste último, o cineasta encontra o tom certo para fazer com que o filme represente uma intervenção na cultura brasileira daqueles anos", nota Xavier, lembrando que, por atrair grande público, Jabor projetou seu diálogo com Nelson Rodrigues em um plano mais ambicioso, inventando sua própria perspectiva política de um estilo de vida familiar próprio de um patriarcalismo muito local. "Ele acentuou o que a tragicomédia contém como expressão de crise de valores." A transição de Jabor do cinema para a crítica jornalística, exercida ainda hoje sob uma psicologia social própria, é tema do último capítulo do livro. A segunda onda de adaptações, entre 1978 e 1983, é marcada pela variação entre a tragicomédia erótica e o teledrama, ou entre o incesto e o bordel na idade da vulgarização. Trata-se do apogeu do chamado "cinemão" apoiado pela Embrafilme e seus longas de mercado. Destacam-se A Dama do Lotação e Os Sete Gatinhos, de Neville D'Almeida, O Beijo no Asfalto, de Bruno Barreto, Engraçadinha, de Haroldo Marinho, e os filmes de Braz Chediak: Bonitinha mas Ordinária, Álbum de Família e Perdoa-me por Me Traíres. "O ponto comum é um naturalismo em busca da atração do público pelo poder de choque dos dramas e pela carga de erotismo", comenta o ensaísta. A última fase é marcada pelos longas da Conspiração Filmes (Traição e Gêmeas), que utilizou modernos recursos para estilizar a obra de Nelson, mas sem o naturalismo que marcou a segunda onda. "Do ponto de vista temático, os dois filmes selam um paralelo entre os motivos rodriguianos e uma inclinação mais disseminada na produção dos anos 1990, marca de uma resposta do cinema brasileiro à conjuntura." (© O Estado de S. Paulo)
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