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A poesia que resiste no sertão de Mossoró

26/10/2003

Antônio Francisco interpreta sua poesia no bar Chap Chap, em Mossoró  Fred Veras/Divulgação

 

Antônio Francisco atualiza a tradição do cordel com criação de grande qualidade

BETH NÉSPOLI

   MOSSORÓ - O barzinho chama-se Chap Chap e fica em Mossoró, cidade situada a 277 km de Natal, no Rio Grande do Norte. Cascos de canoas de forte colorido e mandíbulas de peixe decoram as paredes. Tudo muito bonito e de bom gosto. Num palquinho, música ao vivo. Noite quente de setembro. Bar lotado. Subitamente, a música pára. E sobe ao palco um poeta. "Sua poesia é de arrancar a pele dos ossos", avisa o diretor teatral mineiro Gabriel Villela, já habitué do bar. Ele está em Mossoró especialmente para dirigir o Auto da Liberdade, tradicional espetáculo local.

  O poeta começa a dizer uma de suas poesias, Aquela Dose de Amor. Um silêncio absoluto toma conta do ambiente. O gênero é cordel. A modalidade é a sextilha, a estrofe de seis versos, com rima no 2.º, 4.º e 6.º. No palco, Antônio Francisco revela-se um ótimo intérprete de sua poesia, que sabe de cor. É a história do encontro de um homem, que está caçando rolinhas e juritis, com um velho que diz ser o causador da carência de amor do ser humano.

  Na narrativa que se segue, o velho fala como "seu pai" criou vegetais, mares, animais, e sobre a insatisfação que lhe causara a criação do homem.

  "Ficou meio sem graça/Este animal predador.../O couro não dá para nada,/A carne não tem sabor,/Na cabeça tem juízo,/Mas no peito pouco amor." De forma bem-humorada, o poeta conta como e por que deu errado o "plano' de Deus para consertar o homem.

  Ao fim, Antônio Francisco não só é muito aplaudido pelo público de idades variadas que lota o bar, como ouve pedidos - "fala aquela dos animais constituintes", pede um, "as moedas de ouro", grita outro. Nascido em Mossoró em 1949, e formado em História pela Universidade do Rio Grande do Norte, Antônio Francisco não é apenas mais um poeta de cordel, mas um bom poeta. Sua obra mescla em doses equilibradas algumas das características caras ao gênero - humor, elementos fantásticos e satíricos, crítica aos poderes constituídos, beleza e alguma moralidade.

  Villela tinha razão. Ainda assim, surpreende a resistência do cordel nos tempos atuais. "Quando eu era pequeno, a garotada lia cordel e também gibis:

  Batman, Zorro, Durango Kid. Atualmente, tudo isso sumiu, até mesmo os gibis americanos. Mas o cordel está na rua", diz Antônio Francisco. Adolescente, seu interesse era o atletismo. "Eu corria de bicicleta. Depois de alguns acidentes, tive de parar. Acho que a poesia foi uma forma de canalizar a energia. E, por algum mistério, retive na memória as leituras de criança."

  O poeta lembra ainda que no seu tempo de escol, métrica, rima e oração eram matérias obrigatórias. "Hoje, a poesia não faz mais parte do currículo escolar." Antônio Francisco prefere as sextilhas. "Dá mais liberdade, porque tenho três versos soltos, sem rima." Mas ele também cria em sete versos, como é o caso de A Oitava Maravilha ou a Lenda do Cafuné, uma ode à fé, através da narrativa de um personagem fantástico, criador do Rio São Francisco. "O verso de sete é mais difícil, mas também mais bonito."

  A resistência a Lampião, que tentou invadir Mossoró e foi expulso pela população organizada, é um dos feitos comemorados pela cidade no Auto da Liberdade. A história não escapou ao humor do poeta. Começa no inferno a história do folheto O Ataque de Mossoró ao Bando de Lampião. O cangaceiro vence uma disputa e, como prêmio, tem permissão para voltar a Mossoró e vingar a "carreira" levada 75 anos atrás. Mas tudo dá errado novamente.

  Três cangaceiros morrem atropelados no asfalto antes mesmo de entrar na cidade. Nove mergulham no "ex-Rio Mossoró". Só um consegue sair, todo melado de óleo. Maria Bonita foi vista pela última vez cantando "che bom, bom, bom" numa banda baiana. Ao fim, "Lampião ficou sozinho, /Como um garrote perdido./Com a vergonha batendo no seu peito dolorido,/E dezoito mototáxis,/Zuando no pé-de-ouvido."

  "Mossoró tem problemas comuns a todas as grandes cidades brasileiras. No caso dos mototáxis, a concorrência é grande. Na disputa, o passageiro deixa de ser uma pessoa humana, passa a ser um frete. Quando faço poesia, penso para quem e para que faço. Na correria pelo consumo, as pessoas deixam de ver que as coisas mais importantes ainda são de graça. Eu procuro falar sobre isso."

A repórter viajou a convite da Secretaria Municipal de Cultura de Mossoró

O Estado de S. Paulo)


Trecho

Os Sete Constituintes ou os Animais Têm Razão

  Quem já passou no sertão
E viu o solo rachado,
A caatinga cor de cinza,
Duvido não ter parado
Pra ficar olhando o verde
Do juazeiro copado

  E sair dali pensando:
Como pode a natureza
Num clima tão quente e seco,
Numa terra indefesa
Com tanta adversidade
Criar tamanha beleza

  O juazeiro, seu moço,
É para nós a resistência,
A força, a garra e a saga,
O grito de independência
Do sertanejo que luta
Na frente de emergência

  Nos seus galhos se agasalham
Do periquito ao cancão.
É hotel de retirante
Que anda a pé no chão
O general da caatinga
E o vigia do sertão

  E foi debaixo de um deles
Que eu vi um porco falando,
Um cachorro e uma cobra
E um burro reclamando,
Um rato e um morcego
E uma vaca escutando

  A cobra ainda quis falar,
Mas, de repente, um esturro.
É que o rato, pulando,
Pisou na rabo do burro
E o burro partiu pra cima
Do rato pra dar-lhe um murro.

  Mas, o morcego notando
Que ia acabar a paz,
Pulou na frente do burro
E disse: - "Calma, rapaz!...
Baixe a guarda, abra o casco,
Não faça o que o homem faz."

O Estado de S. Paulo) 

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