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03/11/2003
O Instituto Ricardo Brennand adquiriu a mais rara coleção de jornais pernambucanos fora de uma instituição oficial e assume a missão de preservar esta memória impressa PAULO SÉRGIO SCARPA No dia 27 de março de 1821, uma terça-feira, o Recife pôde ler o primeiro jornal pernambucano. O Aurora Pernambucana, um pequeno tablóide de quatro páginas, com 24,5cm por 18,5cm, vendido na antiga Rua do Crespo, na loja 11, a oitenta réis o número. O jornal teve vida muito curta, apenas trinta números, mas foi saudado pelo historiador Francisco Augusto Pereira da Costa, em sua monumental obra Anais Pernambucanos (volume 7), como “um marco indelével e solene que assinala a época em que começou a existir a liberdade de imprensa e o início do jornalismo entre nós.” Um ano antes da Independência do Brasil. No primeiro número, além da íntegra do decreto de Sua Majestade Dom Pedro I, de 24 de fevereiro de 1821, aprovando a Constituição de Portugal, um apelo ao governador Luís do Rêgo Barreto, o último governador português de Pernambuco, para aumentar o fundo que sustentava meninos do Recife, explicando tratar-se de “53 cidadãos daquela classe donde por causas conhecidas costumam sair os criminosos e desgraçados”. Nada mais atual. O jornal adiantava que “só tem interesses filantrópicos” e que não seria possível ser publicado diariamente, nem de dois em dois dias. “Sairá quando puder ser”, advertia. Essa preciosidade histórica, como define o diretor do Arquivo Público Estadual, Hildo Leal da Rosa, faz parte, agora, do acervo de periódicos pernambucanos, brasileiros e português que integram a biblioteca do Instituto Ricardo Brennand, na Várzea. Ela foi adquirida, este mês, pelo empresário Ricardo Brennand, por sugestão do jornalista e historiador Leonardo Dantas Silva, juntamente com outros exemplares de jornais pernambucanos do século 19, que pertenciam à coleção de periódicos do historiador Alfredo de Carvalho (1870-1916). “Trata-se da mais rara coleção de jornais pernambucanos fora de uma instituição oficial e em mãos de uma instituição particular. Vários números são únicos, nem a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, possui. Um verdadeiro achado, bem-conservado e que servirá, após catalogado, para a pesquisa histórica no Estado”, diz Leonardo Dantas Silva. “A aquisição é excepcional e da maior importância para a história de Pernambuco, porque é o período em que o Brasil deixava de ser Colônia, às vésperas de sua independência política. Daí a agitação de idéias políticas, prós e contras Dom Pedro I, nos jornais pernambucanos, alguns apoiando Dom Pedro como Imperador, outros, abertamente pró-pernambucanos, em defesa de um País livre”, explica Hildo Leal da Rosa. A coleção do IRB, por sinal, tem muito mais exemplares que a do Arquivo Público Estadual, atualmente. Pereira da Costa, quando trata dos primeiros jornais pernambucanos, escreve que a Biblioteca Pública tinha 11 exemplares do total de 30 do Aurora Pernambucana. Hoje, um século depois do registro de Pereira da Costa, o Arquivo Público só tem dois exemplares, o 1º e o 3º. “Ou se acabaram com o tempo ou foram retirados do Arquivo”, conclui Hildo Leal. O IRB possui, hoje, 24 edições do Segarrega, de 1821, no Arquivo Público, apenas dois exemplares. O IRB tem 15 números de O Azorrague, de 1845, o Arquivo Público, dois. O IRB possui a coleção toda de O Maribondo, de 1822, que teve apenas cinco números, o Arquivo Público tem apenas o primeiro. Todavia, o Arquivo Público ainda pode exibir a coleção completa do jornal semanal O Velho Pernambucano (1833-1936), enquanto o IRB tem apenas sete edições. Dantas Silva ressalta a importância da aquisição lembrando o que diz o historiador Evaldo Cabral de Mello sobre os jornais pernambucanos. “Sobre a Independência não há praticamente documento novo. Os documentos novos a que estou dando ênfase são os que não tinham sido muito explorados, porque eram relativos à Independência do Brasil em Pernambuco, que foi o centro do movimento federalista no Brasil”. Esses jornais, lembra Dantas Silva, não tinham sido explorados por ninguém do ponto de vista da história da Independência, em Pernambuco, “província que representou o desafio mais frontal ao Rio de Janeiro, obrigado a mandar tropas para suprimir uma revolução, um governo hostil em Pernambuco, que foi o Governo da Confederação do Equador, um potencial para incendiar todo o norte do País”. O jornal O Velho Pernambucano, em seu primeiro número, dia 22 de julho de 1833, já conclamava os brasileiros a não se sujeitarem ao Reino Português, com a temida volta de Dom Pedro I. O jornal, por sinal, já apoiava Dom Pedro II, então príncipe regente. No segundo número, o jornal já conclama os brasileiros a não apoiarem o general Abreu e Lima, nem a Revolta dos Cabanos, nem os partidários de Dom Pedro I. “Pernambuco era, de fato, o Estado com a maior agitação política na época”, analisa Hildo Leal. No terceiro e quarto números, O Velho Pernambucano abre o jogo: reafirma apoio a Dom Pedro II e trata das relações diplomáticas entre o Brasil e Portugal visando o apoio ao jovem monarca. (© Jornal do Commercio-PE)
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