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04/11/2003
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"Estou assustada até agora. Eu
gostava muito da Rachel", afirmou, chorando, Lygia Fagundes Telles
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ANA PAULA GRABOIS
da Folha Online, no Rio
Foi enterrado nesta manhã no cemitério São João Batista, em Botafogo,
zona sul do Rio, o corpo da escritora Rachel de Queiroz, 92. Além de
familiares, acadêmicos e o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes,
compareceram ao enterro, que reuniu cerca de cem pessoas.
Contrariando a tradição dos
acadêmicos, a escritora não foi enterrada no mausoléu da ABL (Academia
Brasileira de Letras). Rachel de Queiroz já havia pedido que fosse enterrada
ao lado do túmulo do marido com o qual viveu por 42 anos, Oyama Macedo.
Um grupo de 80 fuzileiros navais,
acompanhados por uma banda, realizou o cortejo da ABL até o cemitério.
O ministro Ciro Gomes disse que a
escritora deu uma enorme contribuição ao mostrar como é a vida no Ceará,
além de ser um talento "absolutamente exuberante".
"O Brasil perde --não perde de todo
porque a obra dela fica-- uma pessoa universal", disse Gomes.
Rachel de Queiroz morreu na manhã de
ontem, vítima de infarto, em sua casa, no Leblon, zona sul do Rio.
(©
Folha Online)
A pioneira da Academia Brasileira de Letras
Confirmando a herança
nordestina que tanto marcou seus livros O quinze e Memorial de
Maria Moura, a autora Rachel de Queiroz, que morreu de enfarte na noite
de segunda para terça-feira enquanto dormia, em casa, foi velada sobre uma
rede, usada como forro em seu caixão. Professora, jornalista, romancista,
cronista e teatróloga, a cearense Rachel de Queiroz, que nasceu em
Fortaleza, completaria 93 anos no próximo dia 17. O corpo da escritora,
ocupante da cadeira número 5 da Academia Brasileira de Letras (ABL), foi
velado das 12h às 22h de ontem no Salão dos Poetas Românticos da
instituição, que volta a abrir hoje às 7h. Depois da encomendação do corpo,
às 8h30, o cortejo em homenagem a Rachel de Queiroz parte da ABL, no Centro,
para o Cemitério São João Batista, em Botafogo, onde a autora será sepultada
no mausoléu de sua família.
O enterro foi
transferido de ontem para hoje a pedido de parentes da escritora e do
governador do Ceará, Lúcio Alcântara, que não conseguiriam chegar ao Rio a
tempo do sepultamento. No velório, amigos, acadêmicos e parentes exaltaram
aquela que foi a primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de
Letras, para onde foi eleita em 4 de agosto de 1977.
Filha de Daniel de
Queiroz e Clotilde Franklin de Queiroz e a mais velha entre cinco irmãos,
Rachel, que morava no Leblon, convivia com a irmã caçula, a única viva,
Maria Luiza de Queiroz Salek, de 75 anos, também moradora do Rio, na Barra
da Tijuca, mas sentia falta da vida no Nordeste, de onde guardava o costume
diário de dormir em redes.
- Ela estava
sempre planejando: ''Vamos voltar para o Ceará''. Mas não era definitivo.
Rachel gostava de alternar períodos lá com outros aqui. Ela não sabia que
estava doente. A última coisa que ouvi dela foi: ''Estou ótima, muito bem''.
Quando o segundo
marido de Rachel de Queiroz era vivo, o médico Oyama de Macedo - que morreu
em 1982 e com quem ela viveu 42 anos -, o casal passava parte do ano no Rio
e parte em sua fazenda na cidade cearense de Quixadá, para onde a escritora
não ia há um ano e meio. Na noite em que morreu, segundo relatos de uma das
enfermeiras que acompanhavam Rachel desde que ela teve o primeiro acidente
vascular cerebral, há três anos, seguido de outro há quatro meses, ela
chamou pelo pai e por Oyama.
- No fim da vida,
ela tinha lembranças muito vivas de pessoas que amava. Há dez dias fui
visitá-la e ela, depois de brincar comigo com o espírito e a ironia que a
caracterizavam, disse: ''Fica mais um pouco, o Oyama está chegando''. Rachel
era lúcida, mas tinha uma vontade sobrenatural de estar junto de seu grande
amor, com quem viveu gloriosos anos na Ilha do Governador. Antes de morrer,
pronunciou as frases: ''Oyama, me espera que estou chegando. Já estou indo.
vamos nos encontrar'' - disse o acadêmico Arnaldo Niskier.
O presidente da
ABL, Alberto da Costa e Silva, engrandeceu a importância de Rachel de
Queiroz não só para a literatura, como também para a história brasileira.
- Ela foi
seguramente a figura feminina mais importante do Brasil no século passado.
Aos 19 anos, com O quinze, praticamente inaugurou a chamada
literatura nordestina. Aos 80, fez sua obra-prima: Memorial de Maria
Moura. Rachel abriu espaços fechados para a mulher - sublinhou Costa e
Silva.
A cineasta Leilany
Fernandes Leite, que transpõe para o cinema o livro que o presidente da ABL
considera a obra-prima da escritora, era também amiga de Rachel de Queiroz
e, no velório, falou sobre o impacto que sentiu diante da literatura da
escritora.
- Ela tratava de
temas muito contundentes com maestria, com força, leveza e doçura. Comparo
sua obra com Os irmãos Karamazov [clássico de Dostoievski]. Li
Memorial de Maria Moura numa só noite e fiquei esperando Rachel acordar
para ligar e dizer que queria filmá-lo. É a perda de uma mulher completa,
que era erudita, que escrevia, que cozinhava com um sorriso.
Leilany filmou a
metade do longa-metragem em 2000, com Dira Paes no papel de Maria Moura, e
acredita que o filme ficará pronto no ano que vem.
Os laços de
amizade levaram muitos acadêmicos à homenagem a Rachel de Queiroz.
- É como se eu
perdesse alguém da minha família - lamentou Josué Montello.
- Tínhamos muito
contato desde que eu era cronista da Manchete e ela de O Cruzeiro.
Nos encontrávamos e falavámos mal dos outros. Ela era gozadora, inteligente
e sensível.
Também companheiro
de ABL, Evanildo Bechara falou sobre a literatura de Rachel.
- Perdemos uma
grande rainha. Sua obra é de grande importância pelo tema e linguagem
essencialmente brasileira.
- Ela era forte,
uma figura de vanguarda - disse o ex-presidente José Sarney.
Rachel de Queiroz
estreou no jornalismo em 1927, ainda no Ceará, e publicou quase 20 livros.
Com sua morte, ficam vagas quatro cadeiras da ABL.
- Em um ano, foram
sete mortos - lamentou Arnaldo Niskier.
No dia 17,
aniversário de Rachel de Queiroz, os bombeiros de Fortaleza prestam uma
homenagem à escritora - reverência conquistada na época em que a autora
ficou presa, por motivos políticos, no quartel da corporação, em 1939.
(©
JB Online)
Réquiem para Rachel de Queiroz
Murilo Melo Filho
Jornalista e Membro da Academia Brasileira de Letras
Cearense de Fortaleza, Rachel de Queiroz nasceu no dia 17
de novembro de 1910. E morreu ontem, portanto às vésperas de completar 93
anos. Ao longo destes anos, tão bem vividos, ela foi sempre uma admirável
escritora, que ainda há pouco tempo lançou o livro Tantos anos,
escrito a quatro mãos com a irmã Maria Luíza. ''Sem ela, não haveria
livro, que me arrancou à força. Trabalhamos juntas durante quatro anos,
ela me perguntando e eu respondendo'', contava a autora de livros
consagrados e referenciais, como O quinze - escrito quando tinha
apenas 20 anos, uma obra pronta e acabada, que a consagrou no universo
literário do país. Escreveu também Lampião, A beata Maria do
Egito, João Miguel, Caminho de pedras, O galo de ouro,
Memorial de Maria Moura, Dôra Doralina e As três Marias,
seus dois melhores romances.
Transparente, coerente e sincera, com a
sensibilidade nordestina à flor da pele, Rachel ofereceu-nos sempre uma
permanente lição de fidelidade à sua vida de contadora de histórias.
Poucos autores conseguiram, melhor do que ela, escrever com tanta
desenvoltura e simplicidade. Sua prosa é sóbria, coloquial e escorreita;
trafega, límpida, fagueira e impávida, pelos olhos do leitor, sem
transbordamentos, sem excessos e sem retumbâncias, dentro de uma narrativa
não raro dramática, com enfoque especial contra os estamentos
preconceituosos da aristocrática sociedade de então.
Foi a pioneira da temática social no
romanceiro nordestino: dos paraibanos José Américo, José Lins do Rêgo e
Ariano Suassuna; do pernambucano Gilberto Freyre; do alagoano Graciliano
Ramos; do sergipano Amando Fontes e do baiano Jorge Amado.
Foi pioneira também na Academia
Brasileira de Letras, a primeira mulher a eleger-se em nossos quadros de
Membros Efetivos, para a Cadeira n.º 5, na sucessão de Cândido Mota Filho.
O presidente Jânio Quadros quis nomeá-la ministra da Educação, mas ela não
aceitou o convite, por entender que uma professora do Ceará não devia
ocupar um Ministério. E se perguntava: ''Como continuar sendo escritora e
ministra ao mesmo tempo?''
Revelava que aos 20 anos já estava no
Partido Comunista: ''Logo cedo, porém, vi que era impossível a convivência
de pessoas inteligentes com comunistas militantes. Dois anos depois, rompi
com o partido, quando ele censurou uma peça minha e quis me obrigar a
fazer uma auto-censura. Fui então expulsa solenemente. Chamaram-me até de
policial-fascista, embora ainda hoje me tenho como socialista e, por isto
mesmo, estou a milhares de quilômetros da Rússia''.
Seu tataravô era tio e padrinho do
romancista José de Alencar, do qual se considera assim uma descendente.
Por parte dos Alencares, era prima do Marechal Humberto de Alencar Castelo
Branco.
Morou durante 12 anos na ilha do
Governador; residiu durante 14 anos na Rua Cândido Mendes, na Glória; e há
vários anos, morava em seu refúgio da Rua Rita Ludolf, no Leblon.
Sua única filha morreu com 1 ano e meio
de idade. Coube-lhe criar a irmã Maria Luíza, além dos netos Flávio e
Daniel, que considerava filhos. Dizia: ''Os avós não têm obrigação de
educar os netos. Só de amá-los. Educação é tarefa dos pais''.
E quanto aos seus livros? ''Não costumo
relê-los. De certo modo, sinto até um pouco de vergonha deles, embora
alguns me persigam até hoje. De nenhum fiz propriamente um lançamento, com
noite de autógrafos. Eles sempre chegavam discretamente às livrarias e aí
ficavam à disposição''.
Rachel se considerava uma senhora avó,
que já havia pago todas as prestações da vida. E, ao contrário do
sertanejo, que, quando recebe um convite para tomar chá, responde:
''Obrigado, mas não estou doente'', Rachel gostava de chá e, por isto, não
estranhou o da Academia Bradileira de Letras, nas nossas quintas-feiras.
Vascaína e adepta do casamento, ela
escrevia por obrigação, nunca teve fé, era uma atéia mística, com
nostalgia de religião, de Deus e de uma alma imortal, que não sabia se
tinha, mas que gostaria de ter.
(©
JB Online)
| Morre,
aos 92, pioneira das letras brasileiras |
1910 - 2003
Rachel de QueirozAutora do
clássico "O Quinze", de 1930, cearense renovou regionalismo brasileiro e
injetou engajamento na literatura nacional
DA REPORTAGEM LOCAL
DA SUCURSAL DO RIO
Autora de
muitos pioneirismos, Rachel de Queiroz morreu ontem, por volta das 6h,
no Rio de Janeiro. A escritora e jornalista cearense, que faria 93 anos
no próximo dia 17, sofreu um infarto enquanto dormia.
Integrante do
primeiro time das letras brasileiras desde 1930, quando espantou
críticos de todo o país com seu romance "O Quinze", que publicou com 20
anos incompletos, Queiroz trabalhou até os últimos meses.
"Rachel era uma
mulher para a qual nunca houve espaços fechados", disse ontem o
presidente da Academia Brasileira de Letras, Alberto da Costa e Silva.
Titular da cadeira número 5 da ABL, ela foi a primeira mulher a entrar
na instituição, em 1977.
Não foi o
primeiro espaço "aberto" pela escritora de "Memorial de Maria Moura"
(1992), seu sexto e último romance, adaptado com sucesso para a TV em
1994. "Ela era uma mulher absolutamente surpreendente", ressaltou a
crítica literária, editora e professora da Universidade Federal do Rio
de Janeiro Heloisa Buarque de Hollanda. "Ela se divorciou quando nenhuma
mulher se divorciava, fez sempre rigorosamente o que quis. As
personagens de Rachel são figuras de mulheres fortíssimas e determinadas
a desenhar o seu caminho, como ela desenhou o seu."
O primeiro
"desenho" foi mesmo "O Quinze", que a escritora publicou às suas custas.
O romance, que terá neste mês a sua 70ª edição, pela editora Arx, foi
dos primeiros a tratar com vigor, e de um ponto de vista regionalista,
os problemas sociais do país.
Seu engajamento
não ficou só dentro da ficção. "Ela teve uma militância política precoce
quando se filiou à esquerda, no Partido Comunista", lembrou ontem o
governador do Ceará, Lúcio Alcântara (PSDB), que a classificou como a
maior figura das letras cearenses.
A atuação
político-literária foi lembrada também por Moacyr Scliar. "Ela faz parte
dessa geração de 30 que reúne nomes como Jorge Amado e Graciliano Ramos,
introdutores do realismo engajado no Brasil", disse o escritor e
colunista da Folha.
Para o
presidente do Senado e acadêmico José Sarney, amigo da escritora por 50
anos, Queiroz era "uma mulher de vanguarda, tanto do ponto-de-vista
político, quanto do ponto-de-vista da inserção no espaço social. Foi uma
figura importante na renovação da nossa literatura."
O também
romancista lembra da amiga como uma mulher "com ar sutil, muito feminino
e ao mesmo tempo muito firme". Segundo ele, Queiroz usava a ironia para
fazer uma crítica velada das pessoas. "Ela tinha o gosto pela
convivência e era uma extraordinária contadora de histórias."
Essa habilidade
narrativa não ficou só nos romances. Cronista prolífica, colaboradora do
"O Diário de Notícias", da revista "O Cruzeiro", da Folha (entre 1947 e
1950) e recentemente do "O Estado de S. Paulo", ela publicou ainda peças
de teatro, como "Lampião" e "A Beata Maria do Egito", além de literatura
infanto-juvenil.
A editora José
Olympio, por onde publicou quase todos os seus livros -e para a qual ela
estava voltando, segundo sua irmã Maria Luisa de Queiroz Salek, 75-
publicara recentemente o infantil "Memórias de Menina".
Esse lado
"menina" é o último que ficou dela, segundo sua secretária. Rosita
Ferreira de Souza, 63, passou a última noite ao lado de Queiroz,
conversando.
"Ela estava com
muita vontade de ir para o Ceará. Dizia que quando estivesse mais
fresquinho iria para lá", contou a secretária. "Não sentiu dores, não se
queixou, não deu um ai. Morreu com os olhos fechados, bonitinha mesmo
que ela era", disse Souza, que a conheceu há 50 anos e era descrita pela
família como "anjo da guarda da escritora".
O corpo de
Rachel de Queiroz começou a ser velado no início da tarde no Salão dos
Poetas Românticos, na sede da ABL, no Rio.
O enterro será
hoje às 9h, no mausoléu da família Queiroz, no cemitério São João
Batista (RJ). O Ministro da Cultura, Gilberto Gil, não estará presente,
mas mandou uma mensagem para a família da escritora. "Com seu
desaparecimento, a literatura e a cultura brasileira ficam empobrecidas,
restando-nos o consolo de sua obra imortal".
(©
Folha de S. Paulo)
Terra natal decreta três dias de luto
DA AGÊNCIA FOLHA, EM FORTALEZA
O governo do Ceará e a
Prefeitura de Quixadá, terra onde Rachel de Queiroz passou boa parte de
sua vida, decretaram três dias de luto oficial pela morte de sua ilustre
escritora.
Em Quixadá, ontem ainda
haveria missa e vigília no Centro Cultural Rachel de Queiroz, inaugurado
neste ano.
Nascida em Fortaleza, Queiroz
morava desde os anos 50 no Rio de Janeiro, mas nunca deixou de voltar a
Quixadá, cidade escolhida como refúgio. Ela passava três, quatro meses
por ano na fazenda Não me Deixes, herança do pai Daniel, onde era
visitada por velhos amigos e por jovens curiosos em conhecê-la.
A próxima ida da autora a
Quixadá já estava marcada para o próximo dia 17, para comemorar mais um
aniversário.
O refúgio da escritora no
sertão cearense é considerado um santuário de preservação da caatinga. É
nesse cenário que a sobrinha de Queiroz, Letícia Menescal, está
produzindo algumas cenas da versão do romance "O Quinze" para o cinema,
livro de estréia da escritora que conta a saga de retirantes nordestinos
na seca de 1915. Pelo menos uma obra da escritora ainda está para ser
concluída. Um livro de fotografias e frases de Queiroz sobre o Ceará
espera financiamento. Com o nome "Visões: Maurício Albano e Rachel de
Queiroz", o livro é uma fusão de imagens do Ceará fotografadas por
Maurício Albano, que tem um acervo de 30 mil fotos, e de textos da
escritora.
(©
Folha de S. Paulo)
REPERCUSSÃO
JOÃO UBALDO RIBEIRO, escritor e membro da ABL: "Ela foi uma
mulher muito importante, uma intelectual, uma artista da maior
importância. A vida é implacável com todos nós. O sucesso dela se devia
à qualidade, ao valor do trabalho que desenvolveu".
NÉLIDA PIÑON, escritora e primeira mulher a presidir a ABL:
"Eu a vejo como uma das mulheres mais relevantes do século 20. Sua vida
cobriu momentos fundamentais da vida brasileira. Ela esteve presente
através das crônicas e de seus romances, marcando essa trajetória
pessoal e coletiva com sua personalidade. Ela deixa-nos um dos mais
fecundos repertórios, uma memória apurada.".
CARLOS HEITOR CONY, escritor, colunista da Folha e membro da
ABL: "Ela foi a matriarca da literatura regional e conseguiu vencer essa
barreira [entrar na ABL].".
JOSUÉ MONTELLO, escritor e membro da ABL: "Tudo o que está
acontecendo em torno dela é apenas um pedaço daquilo que ela merecia e
continua a merecer."
PEDRO PAULO DE SENA MADUREIRA, editor da escritora por mais de
dez anos: "Como pessoa, ela era solitária e bom caráter. Como escritora,
a voz mais contundente de um Brasil que infelizmente ainda não acabou,
injustiçado".
MOACYR SCLIAR, escritor, colunista da Folha e membro da
ABL: "Rachel é figura transcendente na literatura. Um primeiro romance
aos 20 anos surpreende. E surpreende que já tenha nascido quase como
clássico. A segunda é a obra dela como jornalista e cronista. Chama
atenção o detalhe de ter sido a primeira mulher na ABL, o que abriu
caminho para grande número de escritoras".
(©
Folha de S. Paulo)
Louvado para Rachel de Queiroz
MANUEL BANDEIRA
Louvo o Padre, louvo o Filho, o
Espírito Santo louvo. Louvo Rachel, minha amiga, nata e flor do nosso
povo. Ninguém tão Brasil quanto ela, pois que, com ser do Ceará, tem de
todos os Estados, do Rio Grande ao Pará. Tão Brasil: quero dizer Brasil
de toda maneira - brasílica, brasiliense, brasiliana, brasileira. Louvo
o Padre, louvo o Filho, o Espírito Santo louvo. Louvo Rachel e, louvada
uma vez, louvo-a de novo. Louvo a sua inteligência, e louvo o seu
coração. Qual maior?
Sinceramente, meus amigos, não
sei não. Louvo os seus olhos bonitos, louvo a sua simpatia. Louvo a sua
voz nortista, louvo o seu amor de tia. Louvo o Padre, louvo o Filho, o
Espírito Santo louvo. Louvo Rachel, duas vezes louvada, e louvo-a de
novo. Louvo o seu romance: "O Quinze" e os outros três; louvo "As Três
Marias" especialmente, mais minhas que de vocês. Louvo a cronista
gostosa. Louvo o seu teatro: "Lampião" e a nossa "Beata Maria". Mas
chega de louvação, porque, por mais que a louvemos, nunca a louvaremos
bem. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.
Texto publicado em
18.11.1960, na Folha
(©
Folha de S. Paulo)
Escritora defendia as raízes do status quo
Ideologia paradoxal marcou carreira de Rachel de
Queiroz, que foi esquerdista e pró-direita da ditadura
DO BANCO DE DADOS
Sempre costumavam fazer a
Rachel de Queiroz as mesmas perguntas: qual tinha sido seu
relacionamento com os autores do golpe de 64, o que ela achava de seu
primeiro livro "O Quinze", de ser a primeira mulher na Academia
Brasileira de Letras etc. Como a escritora teve vida longa, era como se
fosse necessário criar nas entrevistas, para que a conversa não soasse
repetitiva.
Era difícil entrevistar Rachel
de Queiroz, atravessar seu estilo polido, simpático, mas fechado. Ela
não era do tipo apaixonado, o que se refletia também no tom de sua
literatura: pouca inquietação, pouca angústia. Foi revelando aos poucos,
ao longo de sua vida, o vasto conhecimento que tinha sobre
personalidades literárias brasileiras e fatos históricos importantes que
presenciou.
Só no final da vida, como em
seu livro de memórias "Tantos Anos", abordou assuntos delicados como a
homossexualidade de seu amigo Mário de Andrade ou de seu primo Pedro
Nava.
Em agosto de 1991, numa
entrevista para o caderno Mais!, em seu apartamento, no Rio de Janeiro,
Rachel fez uma única revelação, entre interrupções para ansiosas
conversas ao telefone, enquanto deliberava sobre a escolha do nome de um
felizardo para ocupar uma vaga então aberta na ABL. A revelação? Sua
opinião pessoal e bastante favorável a Clarice Lispector -pois quem
poderia imaginar que escritoras e personalidades tão diversas tivessem
sequer se conhecido?
Sete anos depois, ao ser
entrevistada em sua fazenda de Quixadá, no Ceará, outra revelação -uma
que dava conta da "curva ideológica paradoxal" da escritora, que foi num
dia esquerdista e, no outro, pró-direita da ditadura.
Naquele fevereiro de 1998, a
seca assolava mais uma vez o sertão do Nordeste. Os flagelados
realizavam saques nos armazéns das pequenas cidades sertanejas.
Rachel de Queiroz, que estava
na fazenda para tomar providências que amenizassem os efeitos da seca em
sua propriedade, declarou-se radicalmente contra os saques e bastante
compreensiva com a falta de verbas governamentais no combate à seca: "A
escritora é contra os saques dos flagelados e acha que o governo tem que
dar trabalho aos agricultores e ampliar as frentes para a construção de
estradas e açudes. "O governo só faz a coisa ocasional. Vem a seca, eles
abrem umas frentes de trabalho, mas a grande açudagem, a distribuição da
água, a irrigação... É trabalho que exige verbas, o governo federal nem
sempre dá ou pode'" (revista "Marie Claire").
Pois era de se esperar outra
postura da escritora de "O Quinze", nosso primeiro grande romance sobre
a seca, ainda que rejeitado pela autora no fim de sua vida. Em
entrevista a Cynara Menezes (Folha, 1998), Rachel dizia ter uma
"antipatia mortal" por seu próprio romance e sentir-se perseguida por
ele havia 60 anos.
A "curva ideológica paradoxal" da escritora foi definida por Alfredo
Bosi: ela passaria "do socialismo libertário de "Caminho de Pedras" às
crônicas (...) de espírito conservador. (...) Curva ideológica que se
explica muito bem se inserida no roteiro do tenentismo que a
condicionou; verbalmente revolucionário em 30, sentimentalmente liberal
e esquerdizante em face da ditadura, acabou enfim, passada a guerra,
identificando- se com a defesa passional das raízes do status quo."
Rachel de Queiroz pode ser
definida assim, uma escritora do status quo. Ela parece não ter dado
importância suficiente ao lugar que lhe coube na história de nossa
literatura: a de ser uma pioneira, a primeira entre muitos homens. Ao
ser lançado, em 1930, "O Quinze" atraiu olhares de espanto por ser obra
de mulher.
Mas a primeira grande personagem da primeira grande escritora mulher foi
também uma mulher: Conceição, heroína de "O Quinze", uma jovem
professora órfã, moça diferente, que tinha "umas idéias" avançadas para
sua época.
"Então, ser superior é
renunciar ao seu feitio e à sua vontade, e, recortando todo o excesso de
personalidade, amoldar-se à forma comum dos outros?", pensava ela,
enquanto admirava "o relevo poderoso das pernas" de Vicente, que mexeria
com seu coração.
Conceição inaugurava o
discurso da mulher escritora, num momento em que a literatura era
dominada por homens.
"O Quinze" será para sempre o
romance de Rachel de Queiroz.
Dividida entre a literatura e
o jornalismo, vivendo entre o Rio e o sertão do Quixadá, a escritora
parecia uma árvore atravessando o século, firme, forte como os
mandacarus. Sua literatura inspirou outras, sua presença enriquece para
sempre a nossa cultura.
(©
Folha de S. Paulo) |
Com relação a este tema, saiba mais
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