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A arte homenageia Marcantonio

08/11/2003

Marcantonio Vilaça

Marcantonio Vilaça

TCU, em Brasília, inaugura o Espaço Cultural Marcantonio Vilaça, galeria de arte que presta honras a um dos mais importantes marchands do País

DIANA MOURA BARBOSA
Enviada Especial

   BRASÍLIA – Para o filósofo grego Platão, a justiça não poderia ser dissociada dos conceitos de bem, belo e verdade. Esse é um dos princípios que inspiraram a criação do Espaço Cultural Marcantonio Vilaça, inaugurado na última quarta-feira, no Tribunal de Contas da União (TCU), em Brasília. A cerimônia de inauguração da galeria, que presta homenagem ao marchand pernambucano Marcantonio Vilaça, morto em janeiro de 2000, foi um dos eventos mais movimentados da capital federal nesta semana e contou com a presença do presidente da república em exercício, José Alencar, de senadores, governadores, deputados federas, ministros do TCU, do Supremo Tribunal Federal, além de muitos pernambucanos que foram a Brasília para prestigiar a solenidade. A abertura ocorreu quarta-feira, para comemorar os 133 anos do TCU.

   A festa começou com a apresentação do Coral do TCU, que interpretou a ária L’Amour Est un Oiseau Rebelle (Habanera), da ópera Carmen, de Bizet. O grupo já cantou em Portugal, Espanha, Itália e França. Em seguida, o presidente do TCU, Valmir Campelo, e o ministro do TCU e acadêmico Marcos Vilaça, pai do homenageado, fizeram breves discursos. Campelo destacou o compromisso do Estado com a divulgação da cultura. O presidente do TCU elogiou, ainda, a “tenacidade milagrosa de Marcantonio para construir sua obra edificante na divulgação da arte”. Outros valores do galerista ainda foram pontuados, como sua criatividade empolgante, brilho e o entusiasmo para vencer obstáculos, conseguindo levar a arte brasileira para o mercado internacional. “Dizer a verdade era o seu prazer, hoje, ele visita as galerias do céu, é lá onde habita a verdade e a verdade é a beleza”, enalteceu Campelo.

   Muito emocionado, Marcos Vilaça proferiu um dos seus mais elogiados discursos, que citava o padre Antônio Vieira e Vinícius de Moraes. Vilaça afirmou que, apesar de ainda não ter se recuperado da perda do filho, “uma cicatriz que não fecha”, sente-se muito satisfeito que o Espaço Cultural Marcantonio Vilaça possa dar continuidade ao trabalho persistente e ousado do filho na afirmação da arte contemporânea brasileira. “Marcantônio fez da vida uma oração à arte e da arte um ato de fé”, declarou.

   O ministro lembrou que a linha condutora da atividade de Marcantônio, como curador, sempre foi a saudação de idéias. “A arte não é só o material, é a idéia do artista.” Para ele, assim como para o filho, desconhecer isso é permanecer na anorexia do mesmo, de uma arte repetitiva e sem inspiração. “Como disse Mário Pedrosa: ‘A arte é o exercício experimental da liberdade’”, citou Vilaça, cujo discurso teve o efeito de uma rápida, porém incisiva, aula em benefício da arte contemporânea.

   Marcantonio Vilaça começou a se interessar pela arte desde muito jovem. Aos 15 anos, adquiriu sua primeira obra, uma gravura de Samico. Uma década depois, abriu sua primeira galeria, no Recife. Logo em seguida, mudou-se para São Paulo, onde fundou a Galeria Camargo Vilaça, que rapidamente se tornou uma das mais respeitadas, não só do Brasil, mas da América Latina, projetando nomes brasileiros no circuito internacional de arte.

   Durante todo esse período, Marcantonio Vilaça adquiriu centenas de peças para sua coleção particular. O acervo deixado por ele é considerado um dos mais importantes de arte contemporânea do mundo, pela quantidade e qualidade das obras. Desde a morte do filho, Marcos Vilaça tenta doar as obras para o Estado de Pernambuco. Ele solicita apenas que se cumpram pequenas exigências, como o condicionamento das peças em espaço apropriado e a criação de um projeto de arte-educação específico para a coleção do filho.

   O acervo deveria ser abrigado pela Fábrica Cultural Tacaruna, cujas obras ainda estão na fase inicial. Isso impede que a doação seja efetivada. Segundo o secretário de Educação e Cultura, Mozart Neves Ramos, o problema está sendo contornado, porque o Instituto Cultural Bandepe se dispôs a abrigar as obras até que a Tacaruna esteja concluída.

Jornal do Commercio)


Conselho curatorial coordena exposições

A Viagem da Palma, gravura de Gilvan Samico, de 1961, foi a primeira obra do acervo
A Viagem da Palma, gravura de Gilvan Samico, de 1961, foi a primeira obra do acervo

   O programa de exposições do Espaço Cultural Marcantonio Vilaça será coordenado por um conselho curatorial integrado por cinco pessoas que tenham bom conhecimento de arte. Quatro nomes já estão confirmados: Edmilson Baréia, Cláudia von Sterling, Lúcia Flecha de Lima e Celso Albano. Cláudia von Sterling, que é amiga da família Vilaça, afirma que as ações do conselho serão no sentido de continuar o trabalho de Marcantonio na divulgação de obras contemporâneas. “O TCU será o gestor da galeria, ofercendo verba e apoio logístico. Serão duas exposições por ano e devemos trabalhar com a divulgação de novos artistas”, explica.

   A mostra de inauguração, organizada pelo arquiteto Edmilson Baréia, foi toda realizada com obras do acervo do galerista. “Montei essa exposição de um modo que o público pudesse sentir qual foi o papel de Marcantonio Vilaça, cujo trabalho foi descobrir e divulgar artistas plásticos muito talentosos, mas que não tinha trânsito na mídia e no circuito nacional de arte. E ele fazia isso muito bem, trazendo o trabalho desses criadores tidos como ‘alternativos’ para um outro contexto, mais respeitado”, destaca Baréia.

   O arquiteto defende que o novo Espaço Cultural pode ter uma atuação semelhante, funcionando como uma galeria de legitimação institucional, uma espécie de chancela, de selo de qualidade para quem está começando a se destacar. “Marcantônio fez isso exemplarmente. Nós tentaremos dar continuidade a esse tipo de pesquisa e divulgação.”

   Muitos artistas representados pela Galeria Camargo Vilaça alcançaram projeção nacional e internacional. Alguns estão presentes na mostra do TCU, como Daniel Senise, Efraim Almeida (obra à esqueda), Leonilson, Nina Moraes, Mário Cravo Neto, Marco Giannotti, Karim Lambrecht, Rosangela Rennó, Ernesto Neto e José Damaceno.

Jornal do Commercio)

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