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14/11/2003
Cantor e compositor pernambucano encerra trilogia com um disco mais espiritualista e que tem participações de Rita Lee, Alessandra Negrini, Pupilo e Apollo 9 JOSÉ TELES Ao lançar Sem Gravidade (Trama), Otto encerra de forma metafísica a trilogia, iniciada com Samba Pra Burro e continuada com Condon Black. No período compreendido entre o último disco e este, ele fez análise, leu Nietzsche e viajou. A maioria das canções do disco é, portanto, resultado dessas viagens, físicas e espirituais: “Quando acabei Condon Black, a situação do mundo estava muito grave, com os americanos atacando o Iraque. O título Sem Gravidade veio disso”, explica. Acrescentando que as músicas foram nascendo durante a viagem que fez a mulher, a atriz Alesandra Negrini, à Chapada dos Guimarães, a Amazônia, e ao Death Valley (o “Vale da Morte”, no deserto da Califórnia). “A impressão que foi ficando em mim desses lugares me inspirou a escrever música que falasse de amor, mas não amor de tablóide, uma coisa mais da alma”, explica Otto, em entrevista por telefone, de São Paulo. Mesmo incomodado por uma inflamação dentária, aplacada à base de anti-inflamatórios, ele não perde a proverbial loquacidade: “Depois de dois discos com letras bem objetivas, resolvi tocar mais no inconsciente. É feito o Zaratustra de Nietzsche, você lê, não compreende direito, mas depois descobre que tudo que leu ficou com você”, procura explicar as letras nada cartesianas de Sem Gravidade, como por exemplo a de Nebulosas, com o refrão que fala em “estalactite e estalagnitche, estalagmite”: “Esta nasceu na Chapada dos Guimarães, numa caverna de dois quilômetros. Quando entrei lá vi aquelas estalactites, daí pensei em Nietzsche. A caverna como metáfora. Pobre ou rico, todo mundo, mais cedo ou mais tarde, entra no breu”, alerta. Até a música mais convencional do CD, uma regravação de Pra ser só minha mulher (Ronnie Von/Tony Osanah), Otto conta que é uma volta a seu tempo de adolescente em Belo Jardim: “A gente escutava o tempo inteiro, no parque de diversão, com Roberto Carlos. É a música do príncipe, na voz do Rei. Procurei seguir a versão de Roberto Carlos”. Ele revela que, quando foram gravá-la, Pupilo (baterista do Nação Zumbi) lembrou que esta era uma música que Chico Science também pensava em gravar. “Queria que as pessoas quando abrissem o encarte, e vissem aquelas fotos dos lugares onde estivemos, pensassem também numa viagem. Para o artista é importantíssimo chamar o povo para entrar em sua viagem”, continua Otto. Quem entrou em sua viagem foi Alessandra Negrini (estão juntos há dois anos). Ela participa de algumas faixas do CD e é parceira em outras: “Alessandra me inspira, estava do meu lado quando eu criava estas músicas, e entrou na minha onda. É inevitável, duas pessoas ligadas à arte, morando na mesma casa, acabam criando arte juntas”. Uma convidada bem especial no disco é Rita Lee, cujo filho Beto, é amigo de Otto: “Ela não é uma pessoa inacessível, mas também não é uma figurinha fácil. Perguntei a Beto se a mãe dele não toparia gravar comigo. Ela topou na hora. Fizemos Tento entender como uma coisa bem Mutantes, com aqueles contracantos que Rita fazia com Arnaldo Baptista”. Ex-percussionista nas duas principais bandas do manguebeat, Otto diz que agora, para ele, “percussão é um luxo”, está mais ligado na melodia: “A percussão é com Pupilo, sempre que entro em estúdio para gravar, ele tem que estar comigo. É meu parceiro, mais do que músico ou produtor”, elogia. Irrequieto, avisa que daqui por diante quer se autoproduzir, tentar outros sons. Mal acaba de lançar um disco, Otto Maximiliano já está com a cabeça no próximo CD. Sai o alemão Friedrich Nietzsche, entra o tcheco Franz Kafka. O quinto álbum de Otto terá título extraído de uma frase pinçada de A Metamorfose: “Certa Manhã Acordei de um Sonho Intranqüilo”. (© Jornal do Commercio-PE) Órbita do disco está nas melodias Otto é da mesma estirpe dos dois Jorge, Mautner e Ben Jor, um instintivo. Não se procure em sua música a lógica cartesiana da letra com começo meio e fim, ou com pé e cabeça. No primeiro disco, ele ainda valorizava mais os elementos percussivos, no segundo a melodia começou a ganhar importância, e em Sem Gravidade, ela é seu objetivo. Otto só é percussionista em duas faixas. Nas demais o baticum fica por conta de Pupilo, sem dúvida o melhor baterista de sua geração (impressionante a variedade de ritmos que ele extrai da bateria). Como compositor, Otto constrói melodias em torno de frases, que traz em fragmentos para o estúdio. Somente aí é que letra e música transformam-se em canção. Lavanda, que abre o disco, tem letra fragmentada, e a mesma levada rítmica de Meia Lua Inteira, de Carlinhos Brown. Influências aleatórias, que nem o próprio Otto percebe. Quem sabe Deus, por exemplo, leva de imediato a Deixe de banca, o “borogodá”, assinatura sonora de Reginaldo Rossi. Nebulosas é o velho e setentista carimbó (que resvala, no refrão, para o compasso do baião), que devia escutar em Belo Jardim. Uma das poucas faixas que soam pré-trabalhadas é Tento entender, um ragga rock, cantada em dueto com Rita Lee. . Pra ser só minha mulher é a faixa mais convencional do disco, com um teclado e uma levada de bateria propositalmente bregas. Dedo de Deus é quase uma vinheta, de letra curta, com acompanhamento suave, de violão acústico, e que irrompe num frevo cool. Quanto a Alessandra Negrini, ela não tem grande voz, mas não compromete. Se Yoko Ono e Linda McCartney puderam, por não Negrini? Ela até ousa cantar solo em História de fogo, ousadia que see stende à letra (em versos, como “ajoelha esquece/chupa e agradece”). Apollo 9 e Pupilo são na prática parceiros de Otto. A dupla dá o molho essencial a músicas melodicamente simples, como Imaginar a vida, ou Avisa Gil (esta nem iria entrar no disco). A música de Otto está mais para a escrita automática de Breton do que para a filosofia romântica de Nietzsche. Samba pra Burro continua sendo o seu melhor disco, e o mais simples. Neste, como também em Condon Black, há excessos de idéias, nem todas bem-resolvidas. Preço médio: R$ 24
(©
Jornal do Commercio-PE)
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